OMS começa a perder a paciência com Bolsonaro, aponta jornal francês

Les Echos citou a ocasião em que o presidente de extrema direita disse que o 'Exército não forçaria o povo a ficar em casa'

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

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“Brasil: nenhum lockdown à vista apesar da explosão da pandemia”, lamenta nesta segunda-feira 12 o jornal Les Echos. O diário econômico francês, que é referência no meio empresarial, escreve que, “apesar de um tributo humano cada vez mais pesado e insuportável, o presidente Jair Bolsonaro resiste ao lockdown desejado pela comunidade científica”. “Ele terá de responder a uma comissão parlamentar de inquérito”, informa o correspondente em São Paulo, Thierry Ogier.

A média de vítimas continuou acima de 3 mil pessoas por dia neste final de semana. “Até a Organização Mundial da Saúde começa a perder a paciência diante de uma pandemia cuja ‘trajetória vai na má direção'”, observa o veículo. “O número de casos e mortes vem crescendo há seis semanas”, nota Maria van Kerkhove, epidemiologista da OMS. O país ultrapassou 350 mil mortes no fim de semana.

 

 

Mas Bolsonaro voltou a descartar a possibilidade de adotar um lockdown nacional. Les Echos cita a declaração recente na qual o presidente de extrema direita afirmou que não colocaria o “exército nas ruas para forçar o povo a ficar em casa”. Discurso que foi reiterado pelo novo ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, que disse que a polícia vai “garantir a todos a liberdade de ir e vir com serenidade e paz”.

O jornal gratuito 20 Minutos mostra que a maioria dos pacientes hospitalizados em cuidados intensivos no Brasil tem menos de 40 anos de idade, uma situação “alarmante” que é explicada pela variante brasileira P1, mais contagiosa e letal que as cepas anteriores.

 

População dividida

A intransigência de Bolsonaro não surpreende a comunidade científica brasileira, mas causa irritação. Ouvida pela reportagem, Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, conta que “desde o início da pandemia tem sido assim”. O governo federal insiste que medidas preventivas não são necessárias e, hoje, a população está dividida. “Tem muita gente que acaba acreditando no presidente e não adere às medidas preventivas”, lamenta a microbiologista.

Les Echos explica que os partidários de Jair Bolsonaro asseguram que é melhor “abrir” a economia a todo custo. Mas, na prática, o Brasil perde nas duas frentes. “Eles dizem que o lockdown vai arruinar a economia. Mas hoje vemos, por um lado, que a economia já está arruinada por um ano de pandemia e temos, por outro lado, até 4 mil mortes por dia”, destaca Pasternak.

 

Lockdown necessário

Como a maior parte de seus colegas, a microbiologista é a favor de medidas de contenção rígidas, assinala o Les Echos. “Nunca tivemos isolamento no Brasil, como houve em Portugal ou na Inglaterra, e isso nos conduziu à situação atual”, afirma.

A única exceção nesse cenário dramático é a cidade de Araraquara, município do interior de São Paulo, que conseguiu reduzir o número de mortes após 10 dias de lockdown local. Mas no resto do País a situação permanece crítica, com falta de leitos, equipamentos e anestésicos nos hospitais.

Paulo Almeida, do mesmo instituto, teme um futuro sombrio. “Enquanto Bolsonaro estiver à frente do País, o governo federal não apoiará esse tipo de medida”, conclui o diretor-executivo do IQC.

 

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