Em Araraquara, lockdown foi medida dura contra ‘um genocídio’. E deu resultado

Para o prefeito Edinho Silva (PT), ações como a suspensão do transporte público e o fechamento de mercados já reduziram a pressão por leitos

Foto: Divulgação/Prefeitura de Araraquara

Foto: Divulgação/Prefeitura de Araraquara

Política,Saúde

A cidade de Araraquara, distante 273 quilômetros da capital paulista, é uma das raríssimas exceções à regra de resistência ao lockdown no Brasil. Ante o avanço galopante da chamada ‘variante de Manaus’ do coronavírus, que indicava no horizonte o colapso do sistema de saúde do município, o prefeito Edinho Silva, do PT, optou pelo confinamento da população para achatar a curva de crescimento de novas contaminações.

Transporte público suspenso, supermercados fechados, proibição da circulação desnecessária de veículos e pessoas e autorização apenas para farmácias e unidades de saúde. Medidas duras, mas que, ao contrário do que repete insistentemente o presidente Jair Bolsonaro e o chamado ‘núcleo ideológico’ do bolsonarismo, surtiram efeito.

 

 

Entre 21 de fevereiro, primeiro dos dez dias de lockdown, e a última quarta-feira 10, a média móvel de novos casos de Covid-19 teve uma redução de 43,02%. Também caiu 58% o contingente de pessoas contaminadas pelo novo coronavírus e que estavam em isolamento domiciliar, segundo a Prefeitura.

A contabilização de novas infecções por semana epidemiológica reforça a conclusão de que o confinamento gerou resultados efetivos. Foram 1.327 casos entre 15 de fevereiro e 21 de fevereiro, recorde desde o início da pandemia. Entre os dias 22 e 28, 1.120. Entre 1º e 7 de março, 945.

Em entrevista a CartaCapital nesta sexta-feira 12, um dia depois de o governador paulista, João Doria, do PSDB, decretar a ‘fase emergencial’ da quarentena em todo o estado, Edinho Silva admite que, dada a dramática alta nos índices de propagação da Covid-19, o ideal seria a adoção de medidas mais restritivas.

“Mas é claro que o Brasil não tem cultura de distanciamento social, não tem tradição dessas medidas”, pondera o prefeito. “Tanto é que quando Araraquara fez chamou a atenção de todo mundo. ‘Ah, como vocês pararam o transporte urbano?’. Eu não tenho como manter transporte urbano e as pessoas se aglomerando, saindo de casa, eu não tenho como conter a pandemia sem parar o transporte urbano”.

A ‘fase emergencial’ em São Paulo, que valerá no mínimo entre os dias 15 e 30 deste mês, aumenta as medidas restritivas em 14 atividades. Além disso, estão proibidos serviços de retirada (take-away) de todos os setores; o funcionamento de lojas de materiais de construção; celebrações religiosas coletivas; e atividades esportivas coletivas. Haverá, ainda, um toque de recolher entre 20h e 5h e a proibição do uso de praias e parques.

A preocupação de Edinho Silva, entretanto, vai além de Araraquara e do estado de São Paulo. Segundo ele, o Brasil está diante do “genocídio do povo” e “da maior catástrofe humanitária da nossa história”.

A ausência de resposta efetiva ao identificar a ‘variante brasileira’, ainda no fim de 2020, é uma das principais marcas da irresponsabilidade do governo de Jair Bolsonaro, que ainda “descredenciou os leitos SUS de enfrentamento à Covid”.

Leia a íntegra da entrevista com o prefeito de Araraquara, Edinho Silva:

 

CartaCapital: O lockdown veio após a Prefeitura detectar a prevalência da variante de Manaus. Como foi esse processo?

Edinho Silva: É importante a gente voltar a 2020 e à estrutura que a Prefeitura montou e que funcionou muito bem. Agora, novamente, fez com que a cidade detectasse uma mudança nas contaminações e pudesse tomar as medidas necessárias para que identificássemos a variante brasileira. Em 2020, criamos uma parceria muito forte com a Unesp de testagem de 100% dos pacientes sintomáticos, criamos estrutura de telemedicina, de consulta domiciliar, equipe de bloqueio dos positivados e comunicantes. Abrimos hospital de campanha, abrimos outra unidade de internação de retaguarda, enfim, a cidade criou uma estrutura que funcionou muito bem.

Tanto é que, no começo de 2021, transformamos um grupo de monitoramento e pesquisa que nós tínhamos em um centro de referência de Covid-19. E foi essa estrutura que, na última semana de janeiro, notou um crescimento muito forte na média móvel das contaminações. Nós monitoramos todos os dias e, quando notamos esse crescimento, remetemos as amostras de pacientes contaminados ao IMT [Instituto de Medicina Tropical da USP]. Temos uma parceria desde o início da pandemia com o IMT, uma parceria muito forte com a Faculdade de Saúde Pública da USP, e a devolutiva do IMT foi que a nova cepa já estava circulando em Araraquara e estava provocando contaminação comunitária.

Nós continuamos mandando amostras ao IMT e, em uma das consolidações, chegamos a 70% dos pacientes positivados, das amostras emitidas, como em decorrência da contaminação da mutação [de Manaus] do vírus, a P1. E foi aí que começamos a tomar as medidas necessárias. Enxergamos o que havia acontecido em Manaus e imediatamente corremos com a ampliação de leitos, porque nós não desmontamos hospital de campanha, não desmontamos a unidade de retaguarda, tínhamos a estrutura montada. E tínhamos que ampliar essa estrutura.

Corremos atrás dos equipamentos para a produção de oxigênio, usinas, corremos atrás das fábricas de cilindros. Porque nós vimos em Manaus que a maior dificuldade de ampliação de leitos é a produção de oxigênio. E na primeira semana em que nós adotamos medidas restritivas, que foi o Plano SP na fase vermelha, as contaminações continuaram crescendo. Isso nos preocupou e foi aí que nós restringimos ainda mais, caracterizando o lockdown.

 

CC: Aí vieram as medidas mais duras…

ES: Tiramos o transporte público de circulação, fechamos por seis dias os supermercados, centros comerciais, hipermercados, tudo o que gera aglomeração. Depois, os supermercados, para não gerar desabastecimento, nós abrimos no sétimo dia do lockdown.

E cumprimos dez dias, que foram importantíssimos, porque em dez dias o paciente que teve contato com o vírus desenvolve a doença, fica sintomático e é possível a Prefeitura fazer, como fizemos, o bloqueio desse paciente contaminado e de seus comunicantes. E fazer a testagem de seus comunicantes também. Então, foram medidas de distanciamento e intensificação da nossa estrutura de assistência médica, para que nenhum paciente morresse sem atendimento médico. Graças a Deus, isso não aconteceu. Nós conseguimos ir ampliando leitos para que todos os pacientes fossem internados. Isso com muita dificuldade de infraestrutura, para montar equipe médica – porque você não tem médico no mercado de trabalho para dar conta desse crescimento de leitos -, mas conseguimos garantir assistência médica e, com o lockdown, tivemos uma queda acentuada na curva de contaminação e já diminuiu muito a pressão sobre os nossos leitos.

E esperamos nas próximas semanas diminuir o número de óbitos, porque os pacientes que têm ido a óbito ainda são os pacientes internados quando do crescimento da contaminação. Os óbitos ainda vão demorar um pouco ainda a cair, mas estamos otimistas de que isso vai acontecer.

 

CC: Houve uma reação muito forte na cidade contra o decreto de lockdown?

ES: Primeiro, nenhum prefeito consegue, penso eu, ter alegria em decretar lockdown. Você decreta lockdown como absolutamente última medida a ser tomada, quando você não tem outro instrumento. Se tivéssemos vacinação em massa no Brasil e um cronograma acelerado de vacinação, certamente teríamos outro cenário. Mas, se você não tem vacinação em massa, a única forma para conter o crescimento de uma doença contagiosa e que vai te pressionar por leitos hospitalares e aumentar os seus óbitos é o distanciamento social. Se você não tem vacina, tem que fazer distanciamento social. Isso não sou eu quem diz, mas todos os cientistas, pesquisadores, aqueles que estão no dia a dia pesquisando e trabalhando com a doença.

Eu não tive outra saída. Ou eu fazia o que se caracterizou como um lockdown ou nós, que já estávamos com o sistema de saúde em colapso, levaríamos a cidade a uma total perda de controle da doença. Eu tinha que ter capacidade de fazer gestão sobre aquela situação. E, para isso, era [necessário] fazer com que a contaminação caísse. [Com] a contaminação caindo, eu tenho mais condição de fazer gestão nos leitos hospitalares e as pessoas não morrem sem assistência. Tomamos a medida porque não tinha outro caminho. Ou era o distanciamento social, ou eram mortes sem que as pessoas tivessem direito de lutar pela vida em um ambiente hospitalar.

 

CC: A decisão do governo Doria de colocar todo o estado na ‘fase emergencial’ é suficiente neste momento?

ES: Claro que a situação do estado de São Paulo tende a se agravar, porque os indicadores são muito ruins e preocupantes. Eu dizia, quando detectamos a nova cepa de Manaus aqui, que Araraquara era o prenúncio do que São Paulo e o Brasil viveriam, porque não há nada que explique você ter a nova cepa circulando em Araraquara e não tê-la circulando em outras regiões do estado e do Brasil. A diferença é que aqui nós identificamos rápido que era a nova cepa e alertamos o governo do estado e o Ministério da Saúde. E saímos correndo atrás para enfrentar a situação.

O que São Paulo está vivendo hoje, e acho que ainda não chegamos ao pior momento, é um agravamento da situação do estado. Só tem uma forma: é provocar o isolamento social. Talvez o ideal fosse restringir ainda mais as atividades de circulação das pessoas, as atividades econômicas. Mas é claro que o Brasil não tem cultura de distanciamento social, não tem tradição dessas medidas. Tanto é que quando Araraquara fez chamou a atenção de todo mundo. ‘Ah, como vocês pararam o transporte urbano?’. Eu não tenho como manter transporte urbano e as pessoas se aglomerando, saindo de casa, eu não tenho como conter a pandemia sem parar o transporte urbano. Chegamos a fechar supermercados e hipermercados. É uma cultura que se tem no Brasil de que a compra é quase uma atividade de lazer da família. A família inteira vai ao mercado. Então, os cientistas e pesquisadores diziam que têm que fechar tudo o que gera aglomeração, e foi o que nós fizemos.

Agora, o brasileiro não tem essa tradição. Olha aí as rebeliões, manifestações, prefeito fazendo uma coisa e o governo federal dando outro sinal para a sociedade. É uma situação muito difícil. O ideal talvez fosse São Paulo endurecer ainda mais. Mas vamos ver a repercussão dessas medidas que foram tomadas.

 

CC: É inicial o movimento de unidade entre prefeitos e governadores, diante de um governo federal negacionista. Como o senhor analisa o atual estágio da resposta à pandemia?

ES: Vejo com preocupação. O Brasil vai vivenciar um cenário que vai marcar todas as nossas gerações. Já estamos vivenciando, mas a tendência é de que isso se agrave. Estamos diante do genocídio do povo brasileiro, literalmente, estamos diante da maior catástrofe humanitária da nossa história. Não tem nada na história brasileira que chegue perto do que estamos vivendo.

O que mais me deixa indignado é que, se nós temos a Vigilância Sanitária e a Vigilância Epidemiológica do governo federal, se temos uma Anvisa, que acumula muita pesquisa e informação, o governo sabia, em dezembro, quando apareceu a mutação em Manaus, que aquilo ia se espalhar pelo Brasil inteiro. Não tem como não saber, porque você tem órgãos de monitoramento e fiscalização.

Manaus é um grande centro produtor de eletrônicos, de motocicleta, de bicicletas, enfim, tem produção que é escoada pelo Brasil inteiro. Portanto, as empresas de logística dialogam e interagem com Manaus o tempo todo para fazer escoamento de produção. Como uma cepa de Manaus não vai se espalhar pelo Brasil? Claro que ia se espalhar. O que me deixa indignado é que o governo não deu o comando, sabendo que isso iria acontecer, para ampliação de leitos de enfermaria e UTI. Deveria ter liberado recursos para contratação de equipes de bloqueio e para fazer testagem em massa. Essa seria uma reação de um governo responsável, que se preocupa com o povo brasileiro.

O governo não só não fez isso, como descredenciou os leitos SUS de enfrentamento à Covid. Ele deixou de financiar os leitos quando você mais precisava que esses leitos estivessem sendo montados. Às vezes a oposição fica procurando crime de responsabilidade. O crime de responsabilidade está mais do que caracterizado: é um crime contra a vida do povo brasileiro.

E cria uma contradição mentirosa: não existe contradição entre vida e economia. Sem vida, não há economia, não há consumidor, não há quem demande produtos.

 

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Editor do site de CartaCapital

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