Política

O que explica a ascensão de Augusto Cury nas pesquisas eleitorais

Candidato saltou de 2% para 11% na BTG/Nexus e chegou a 7,8% na AtlasIntel após semana de forte exposição na televisão e explosão de conteúdo nas redes sociais

O que explica a ascensão de Augusto Cury nas pesquisas eleitorais
O que explica a ascensão de Augusto Cury nas pesquisas eleitorais
O candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) no debate da Band, em 23 de agosto. Foto: Renato Pizzutto/Band
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Eleições 2026

O candidato à presidência da República Augusto Cury (Avante) é a principal novidade da corrida presidencial nas pesquisas divulgadas nesta segunda-feira 31. O escritor e psiquiatra passou de 2% para 11% na BTG/Nexus e de 1,6% para 7,8% na AtlasIntel/Bloomberg. Nos dois levantamentos, assumiu o terceiro lugar, à frente de nomes que vinham ocupando esse espaço na “terceira via”.

O salto ocorreu depois de uma semana atípica para Cury, iniciada pelo debate da Band, em 23 de agosto. Até então, sua candidatura tinha pouca expressão nas pesquisas, apesar de o escritor já possuir uma audiência numerosa nas redes. A participação no debate deu à campanha material para circular na internet e fez o nome de Cury ganhar espaço em vídeos, cortes e publicações de influenciadores.

Segundo dados da consultoria de dados AP Exata, citados pelo Estadão, Cury representava 0,35% das menções aos presidenciáveis nas redes até o dia do debate. Na quinta-feira seguinte, já eram 13,5%. A maioria das menções era positiva, com usuários associando o candidato a características como equilíbrio, sensatez e menor agressividade. 

A mudança ganhou força porque Cury não precisou construir uma audiência do zero. Aos 67 anos, ele é médico psiquiatra, professor e escritor e ficou conhecido nacionalmente por livros e palestras sobre comportamento, inteligência emocional e desenvolvimento humano. A candidatura pelo Avante é sua primeira experiência eleitoral. O debate, nesse sentido, apresentou uma figura que já tinha reconhecimento público sob uma nova condição: a de candidato à presidência.

A consultoria Bites calculou que Cury ganhou 2,6 milhões de seguidores em seus perfis oficiais na semana passada, crescimento de 18%. Ele também registrou 6,7 milhões de interações, ficando atrás apenas de Flávio Bolsonaro (PL). 

O Google Trends registrou movimento semelhante. Na comparação da última semana, Cury ficou atrás apenas de Lula (PT) nas buscas pelos presidenciáveis – à frente de Flávio Bolsonaro e dos demais nomes da “terceira via”. A série diária mostra Lula com um pico no período de sua participação na Globo, enquanto Cury ganha força depois do debate da Band e permanece em segundo lugar durante boa parte da semana.

O interesse digital, sozinho, não significa voto. Mas a combinação dos indicadores ajuda a explicar por que o crescimento apareceu nas pesquisas tão rapidamente. Cury passou a ser mais citado, mais procurado e mais seguido exatamente no período em que começou a receber maior exposição eleitoral.

Cury também tenta ocupar um espaço fora da disputa entre lulismo e bolsonarismoOs números das duas pesquisas reforçam a importância desse movimento. Na BTG/Nexus, Lula oscilou de 41% para 39% e Flávio caiu de 37% para 33%, enquanto Cury passou de 2% para 11%. Na Atlas, Lula recuou de 44,9% para 43,4% e Flávio de 35,8% para 33,7%, enquanto Cury subiu 6,2 pontos.

Isso não permite dizer que os votos perdidos por Lula e Flávio tenham migrado diretamente para Cury. Pesquisas não demonstram esse tipo de transferência individual. O que os números mostram é que o candidato cresceu justamente quando os dois principais concorrentes perderam pontos.

O perfil do eleitor de Cury também combina com a estratégia digital. Na BTG/Nexus, ele chega a 22% entre eleitores de 16 a 24 anos e 16% entre os de 25 a 40. O percentual cai para 8% entre 41 e 59 anos e para 4% entre os eleitores com 60 anos ou mais. Entre pessoas com ensino superior, chega a 17%. 

A explosão de seguidores, porém, provocou desconfiança entre adversários. Cury passou de cerca de 8,4 milhões para mais de 10 milhões de seguidores em poucos dias. As campanhas adversárias levantaram, nos bastidores, a possibilidade de uso de robôs para impulsionar artificialmente esses números.

A campanha de Cury nega a hipótese e afirma que o movimento é orgânico. O marqueteiro Sérgio Lima também diz que não houve contratação de influenciadores, prática proibida pela legislação eleitoral, e afirma que o único investimento feito até então havia sido de 50 mil reais em impulsionamento de publicações próprias no Facebook

A proximidade com Pablo Marçal (PRTB) também alimentou especulações. Marçal já declarou que ajudaria Cury e pessoas de sua rede passaram a compartilhar conteúdos do candidato. A campanha, entretanto, nega que exista uma estrutura de Marçal atuando na candidatura. 

A sabatina da Globo, em 29 de agosto, acrescentou uma segunda exposição nacional ao candidato. Cury participou da rodada ao lado dos principais concorrentes e apresentou suas propostas em horário de grande audiência. Ainda não é possível medir o efeito da entrevista sobre os números divulgados nesta segunda-feira. A pesquisa BTG/Nexus foi realizada entre 28 e 30 de agosto e, segundo o que disse Marcelo Tokarski, CEO da Nexus, ao Metrópoles, boa parte das entrevistas ocorreu antes ou durante a sabatina. Para o instituto, o crescimento já vinha sendo captado depois do debate da Band

O início do horário eleitoral gratuito, em 28 de agosto, ocorreu no mesmo período e também entrou na janela de coleta das pesquisas. Por isso, os números desta segunda-feira retratam uma semana de exposição excepcional para Cury, e não permitem separar completamente o efeito do debate, das redes, da propaganda e da Globo. Ele tem 36 segundos de propaganda política na TV.

A principal dúvida agora é quanto desse crescimento permanecerá. Na BTG/Nexus, 59% dos eleitores de Cury dizem que sua escolha é definitiva, enquanto 39% admitem mudar de candidato. Entre Lula e Flávio, o voto consolidado chega a 85%. 

Por enquanto, a ascensão alterou principalmente o primeiro turno. No segundo, Lula e Flávio continuam praticamente empatados, com 46% e 45% na BTG/Nexus – o nome do escritor não foi testado em simulações de segundo turno.

Os próximos levantamentos serão importantes para mostrar se Cury conseguiu transformar a onda de atenção provocada pelo debate e pela sabatina em uma base eleitoral mais estável ou se parte desse eleitorado voltará aos candidatos que já dominavam a disputa.

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