Política
De bolsonaristas a lulistas: quem são os ‘vira-casacas’ das eleições 2026
Oito anos depois, antigos aliados e nomes impulsionados pela onda bolsonarista aparecem ao lado do PT, de rivais do PL ou de uma direita que tenta se descolar do ex-presidente
A eleição de 2018 não apenas levou Jair Bolsonaro (então no PSL, hoje no PL) à Presidência da República. O pleito também reorganizou a direita brasileira e criou uma nova divisão política em torno do bolsonarismo e do lulismo. Oito anos depois, alguns dos políticos que ajudaram a construir ou se beneficiaram daquela onda mudaram de posição – e, hoje, estão em partidos, palanques ou alianças diferentes daqueles que marcaram suas trajetórias a partir de 2018.
As mudanças, porém, não seguiram o mesmo caminho. Há quem tenha passado diretamente do entorno de Bolsonaro para uma aliança com Lula (PT), quem tenha migrado para uma direita não bolsonarista e quem tenha se afastado do ex-presidente sem abandonar posições conservadoras. Em comum, passaram por alguma forma de ruptura com o campo político que os projetou ou aproximou do bolsonarismo. Confira a seguir:
Soraya Thronicke
A trajetória de Soraya Thronicke (PSB-MS) é a mais direta no movimento do bolsonarismo para o campo lulista. Advogada, ela foi eleita senadora em 2018 pelo PSL, então partido de Bolsonaro, e ficou conhecida durante a campanha como uma das representantes da onda que levou o ex-presidente ao Planalto.
A relação, entretanto, se deteriorou durante o mandato. Soraya se afastou do grupo bolsonarista, ganhou projeção na CPI da Covid e passou a adotar uma postura crítica ao governo. Em 2022, disputou a Presidência pelo União Brasil e terminou em quinto lugar, com 0,51% dos votos.
Depois, deixou o União Brasil e passou pelo Podemos. Em abril de 2026, filiou-se ao PSB, partido do vice-presidente Geraldo Alckmin. Em julho, confirmou que disputará novamente o Senado em Mato Grosso do Sul com o apoio de Lula. A própria senadora definiu a mudança como um “recálculo de rota”.
Luciano Bivar
Em 2018, Bivar era presidente do PSL, legenda pela qual Bolsonaro disputou e venceu a eleição presidencial. A relação entre os dois, porém, se rompeu pouco depois da eleição. A disputa pelo controle do partido se tornou pública em 2019 e terminou com Bolsonaro deixando a sigla.
Bivar permaneceu na política e, após a fusão do PSL com o DEM, presidiu o União Brasil. Em 2022, chegou a ser lançado como pré-candidato do partido à Presidência, mas desistiu para disputar novamente a Câmara dos Deputados por Pernambuco. O União Brasil acabou lançando Soraya Thronicke ao Planalto.
Em 2026, Bivar fez o movimento mais distante de sua origem. Filiado ao MDB, foi escolhido como primeiro suplente de Humberto Costa (PT) na disputa pelo Senado em Pernambuco. A chapa integra a aliança que também apoia João Campos (PSB) para o governo estadual.
A aproximação com o PT não ficou apenas na composição eleitoral. Em agosto, Bivar apareceu ao lado de Humberto Costa cantando o tradicional “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Em declaração durante a formação da chapa, afirmou que nunca havia tido “uma convicção tão grande de estar do lado de Lula”, associando a escolha à defesa da democracia e à disputa entre diferentes projetos políticos.
O senador e candidato à reeleição Humberto Costa (PT-PE) e o seu companheiro de chapa Luciano Bivar (MDB). Foto: Roberto Stuckert Filho
Julian Lemos
Julian Lemos (PP-PB) talvez seja o caso de maior contraste entre a origem e o posicionamento atual. Em 2018, foi eleito deputado federal pelo PSL da Paraíba com 71.899 votos e atuou como coordenador da campanha de Bolsonaro no Nordeste. No início do governo, integrou o grupo de aliados mais próximos do então presidente.
A ruptura ocorreu ainda durante o governo Bolsonaro. Lemos passou a criticar o então presidente e se afastou do grupo. Em 2022, tentou a reeleição pelo União Brasil, recebeu 36.530 votos e ficou como primeiro suplente da legenda, sem retornar à Câmara.
Em 2026, a mudança se consolidou. Filiado ao PP, Lemos é novamente candidato a deputado federal pela Paraíba e declarou apoio à reeleição de Lula e à candidatura de Lucas Ribeiro (PP) ao governo estadual. Em agosto, ao justificar a decisão, criticou o campo bolsonarista e associou uma eventual vitória do grupo a “violência”, “divisão” e “intolerância”.
‘Santinho’ do ex-bolsonarista Julian Lemos (PP) pede a reeleição de Lula (PT). Foto: Reprodução Instagram
Otoni de Paula
Otoni de Paula (PSD-RJ) percorreu uma rota diferente. Pastor e vereador do Rio, ele já trabalhava pela candidatura de Bolsonaro antes da eleição de 2018. Em discurso na Câmara em 2019, afirmou que apoiava Bolsonaro desde 2016 e que havia trabalhado pela candidatura do então deputado antes mesmo da eleição presidencial.
Durante o governo Bolsonaro, Otoni se consolidou como um aliado do presidente, tornando-se, inclusive, vice-líder do governo na Câmara. Depois, porém, rompeu com o bolsonarismo. Hoje está no PSD e disputa novamente uma vaga de deputado federal pelo Rio de Janeiro.
O posicionamento presidencial de Otoni para 2026 deixa clara a distância em relação ao grupo de Bolsonaro. Em julho, afirmou que apoiará Ronaldo Caiado (PSD) no primeiro turno. Também disse que, em um eventual segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula, defenderia uma “direita com Lula” e votaria no petista.
Otoni tem procurado preservar, contudo, uma identidade política de direita. Líder da Assembleia de Deus Missão e Vida, Otoni afirmou que a direita havia sido “sequestrada” pelo bolsonarismo e defendeu uma atuação política conservadora desvinculada da família Bolsonaro. Também criticou a associação entre igrejas evangélicas e projetos políticos específicos, dizendo que a igreja não deveria ser “de Lula” nem “de Bolsonaro”.
Lula (PT) recebeu Otoni de Paula (MDB-RJ), em dezembro de 2025, no Palácio do Planalto. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Romário
O senador Romário (sem partido-RJ) representa o caso mais recente de oportunismo político. Em 2018, quando ainda estava no Podemos, disputou o governo do Rio de Janeiro e terminou em quarto lugar, com 8,7% dos votos. Naquele momento, não fazia parte do núcleo político de Bolsonaro.
A aproximação com o bolsonarismo ocorreu nos anos seguintes. Em 2021, Romário deixou o Podemos e ingressou no PL, partido ao qual Bolsonaro se filiaria no fim daquele ano. Em 2022, o baixinho foi reeleito senador pelo Rio pelo PL, com 29,19% dos votos válidos, e participou da campanha pela reeleição de Bolsonaro.
Eduardo Paes (PSD) e Romário (sem partido) foram adversários em 2018, quando Wilson Witzel (então PSC) venceu a eleição. Foto: Reprodução
O vínculo, contudo, foi se desgastando. Em agosto de 2026, Romário deixou o PL e anunciou apoio a Eduardo Paes (PSD) para o governo do Rio. Paes tem o apoio de Lula, enquanto o candidato do PL, deputado estadual Douglas Ruas, é apoiado por Flávio Bolsonaro. Romário não declarou apoio a nenhum candidato à Presidência e afirmou que sua decisão foi baseada na avaliação sobre o futuro do estado.
O senador também decidiu permanecer sem partido por enquanto. Seu mandato vai até 2031, portanto ele não disputa uma vaga nas eleições deste ano.
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