Justiça

O que disse Daniel Vorcaro no depoimento prestado sem a PF no gabinete de Mendonça

O ex-controlador do Banco Master sustenta que sua prisão é fruto de uma conspiração e que precisou construir um ‘sistema’ para se proteger

O que disse Daniel Vorcaro no depoimento prestado sem a PF no gabinete de Mendonça
O que disse Daniel Vorcaro no depoimento prestado sem a PF no gabinete de Mendonça
O banqueiro Daniel Vorcaro. Foto: Divulgação
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Em depoimento prestado a um juiz auxiliar do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal, o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, sustentou que sua prisão é fruto de conspiração iniciada desde que adquiriu a instituição financeira, em 2019. Durante a oitiva, o banqueiro tentou convencer as autoridades de que sua detenção foi o ápice de uma engrenagem articulada para silenciá-lo.

“A minha prisão, no meu entendimento, foi uma intimidação para que eu não externasse os fatos que desejava falar desde o começo dessa operação”, sustentou. Ele acrescentou que a detenção ocorreu no dia seguinte ao anúncio de venda da instituição. “Venho sofrendo retaliações para não colaborar com a Justiça desde o início. A minha prisão é o primeiro fato efetivo que comprova isso”.

A suposta perseguição traçada por Vorcaro teria começado antes mesmo da compra do Master. Segundo ele, o sistema financeiro operou desde os primeiros momentos para asfixiá-lo em benefício das grandes instituições. “Desde o começo, eu sofri retaliações absurdas”, declarou.

O réu queixou-se de ter enfrentado “uma retaliação interna no Banco Central muito forte”, descrita por ele como um mecanismo silencioso para barrar novos concorrentes no mercado de crédito. Ele justificou que essa resistência fez com que demorasse quase três anos para viabilizar a aprovação do início dos trabalhos.

Vorcaro alegou ter sido alvo de investigações policiais infundadas entre 2019 e 2020, referentes a transações de 2013 — período em que sequer integrava a instituição. Para o banqueiro, o caso foi reaberto em diferentes comarcas unicamente com o intuito de intimidá-lo logo no início.

Cerca de um ano antes de ser preso na Operação Compliance Zero, Vorcaro afirma ter recebido um aviso vindo de um grande concorrente. Ele alega ter sido aconselhado a deixar o mercado e que, diante de sua recusa, o “sistema” decidiu sacrificá-lo como exemplo para o setor. “As palavras eram que eu fosse queimado vivo em praça pública, para que se mudem as regras”, relatou.

Vorcaro sustentou no depoimento que os fatos revelados pela Polícia Federal sobre a formação de uma organização criminosa para intimidar jornalistas foram momentos isolados de ‘raiva’, mas ‘que não o definem como pessoa’. Alega ainda que a narrativa teria sido criada pela PF para reforçar, aos olhos da sociedade, a imagem de um personagem violento.

Ao detalhar o período em que esteve sob custódia, Daniel Vorcaro descreveu supostas torturas e ameaças praticadas, em suas palavras, por policiais federais e agentes penais. Ele alegou que, após passar seis horas trancado na viatura de transporte estadual, foi recebido por policiais federais que teriam o intimidado. “Isso que dá, você vai querer falar disso do chefe? Vai acontecer isso”, teriam dito os agentes.

Durante o trajeto para a penitenciária federal de segurança máxima, disse ter ouvido das escoltas que, se ele “mexer com os patrões”, sua vida se tornaria “um inferno”. Durante um voo de helicóptero, vendado, ele afirmou que policiais táticos ironizavam sua situação. “Foi fazer merda, agora vê se faz alguma coisa e fica quieto”. Outro agente teria emendado: “É mais fácil, de repente, jogar ele daqui”.

Sistema de proteção

Para enfrentar as supostas retaliações, o banqueiro diz que precisou construir um “sistema para me proteger”, no entanto, “de repente, todo esse sistema se virou contra mim”, disse no depoimento. “Essas medidas de defesa que eu fiz, doutor, elas se traduziram em relações e relacionamento com pessoas relevantes, porque eu tinha medo das retaliações que poderiam acontecer”, reforçou.

Entenda o caso

Daniel Vorcaro foi preso no dia 18 de novembro de 2025, quando foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos enquanto tentava deixar o país.

Em junho, CartaCapital mostrou que a Procuradoria-Geral da República já considerava esgotadas as chances do banqueiro fazer uma colaboração premiada, uma vez que a avaliação de investigadores envolvidos no caso era de que ele não estava de fato disposto a colaborar.

Até chegar a este momento, três propostas já haviam sido recusadas, pois apenas reforçavam o que havia sido obtido pela PGR e pela PF, que, igualmente, negou os anexos apresentados pelo banqueiro. Ao longo dos meses, uma série de diligências foi adotada, resultando na obtenção de registros que comprovaram a formação de um grupo voltado à chantagem, obtenção de vantagens e ameaças à integridade física de pessoas por ordem de Vorcaro.

O objetivo seria “proteger o núcleo dirigente da organização criminosa”, “manipular a opinião pública” e “coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao presidente do Banco Central”.

Pela defesa do banqueiro, passaram três advogados: Roberto Podval, que saiu da equipe por não concordar com uma delação; Juca de Oliveira, dispensado pelo insucesso em sua tentativa de propor uma colaboração; e, atualmente, Daniel Bialski, que busca firmar um acordo com a PGR.

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