“O problema não é o Bolsonaro, é o povo acreditar”, diz Celso Amorim

Lava Jato serviu aos interesses de Washington, mas a indiscrição de Moro e companhia tornou-se motivo de constrangimento, diz o ex-chanceler

Política

Depois de apoiar diversos golpes de Estado e fazer vistas grossas à repressão no continente, os EUA só começaram a mudar a sua relação com os governos militares da América Latina após a eleição de Jimmy Carter, que em 1977 autorizou a divulgação do primeiro relatório sobre Direitos Humanos no Brasil a falar abertamente da tortura contra opositores do regime. O episódio é evocado pelo ex-chanceler Celso Amorim ao falar sobre a possibilidade de Lula ser libertado após o site The Intercept Brasil, de Glenn Greenwald, revelar os comprometedores diálogos entre o inquisidor Sérgio Moro e seus comandados do Ministério Público Federal.

“Com a tortura, a ditadura brasileira tornou-se uma aliada incômoda para Washington”, observa Amorim. “O mesmo ocorre agora, e pesa muito o fato de os diálogos da Lava Jato terem sido revelados por um jornalista que denunciou o caso Snowden, a espionagem dos EUA, e possui grande reconhecimento internacional.” Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista. 

CartaCapital: O Intercept denunciou a promíscua relação de Sérgio Moro com os procuradores da Lava Jato. Quais são as implicações desses vazamentos?

Celso Amorim: Eles comprovam o que já sabíamos e CartaCapital cansou de denunciar. De toda forma, a desfaçatez surpreende um pouco. Em uma das mensagens vazadas, o procurador Deltan Dallagnol disse ter ouvido de Luiz Fux, um ministro do STF, que o colega Teori Zavascki tentou enfrentar Moro e se deu mal. É inconcebível. Como um ministro da Suprema Corte enfrenta um juiz da primeira instância e leva a pior? Para mim, ficou claro que o objetivo da Lava Jato sempre foi derrubar o projeto representado por Lula. Esse projeto tem duas características centrais: a busca por maior igualdade e justiça, no interior da sociedade, e uma afirmação da soberania e dos interesses nacionais no plano externo. Até então, somente Getúlio Vargas havia tentado fazer algo semelhante, e se deu mal, para usar uma expressão popular entre a turma da Lava Jato. Depois dele, isso só ocorreu nos governos do PT.

CC: Sobretudo no plano internacional.

CA: A partir de Lula, a postura ativa e altiva da política externa brasileira deu muitos frutos. Lembro de uma capa da revista The Economist, com o mapa do continente americano de “cabeça para baixo”, ou seja, com a posição invertida em relação à tradicional convenção, que privilegia os países do Hemisfério Norte. O título era “A ascensão da América Latina: não é mais o quintal de ninguém”, isso em 2010. Fico imaginando, naquelas reuniões dos órgãos de inteligência dos EUA, alguém olhando para essa capa e dizendo: “Isso está errado, aqui sempre foi o nosso quintal”. O trabalho desenvolvido com os Brics, com a África, com os países árabes, tudo isso incomodou muito, sem falar da descoberta do pré-sal. Era preciso restaurar o quintal, e eles contaram com o servilismo da casa-grande no Brasil. A Lava Jato permitiu a ascensão de Bolsonaro, que não é como os líderes da extrema-direita europeia. Lá, eles são nacionalistas. Aqui, é o contrário, a turma está a serviço do entreguismo. Não sei se essa é uma característica peculiar do Brasil ou de todos países em desenvolvimento, mas é distinto do cenário na Europa.

“Era preciso restaurar o quintal, e eles contaram com o servilismo da casa-grande no Brasil”

CC: Como explicar que maioria dos brasileiros, segundo o Datafolha, avalia que Moro foi parcial, mas considera justa a condenação de Lula?

CA: Isso diz respeito ao ódio que se criou em torno do Lula, um ódio que a grande mídia ajudou a semear.

O Império ficou incomodado com a postura ativa de Lula e a ascensão da Ameréica Latina

CC: A mídia contribuiu muito. Mas… e os que votaram em Lula no passado? E aqueles que tiveram avanços notáveis durante os governos petistas ou, pelo menos, passaram a comer um pouquinho melhor?

CA: De fato, o Brasil passa por uma fase nebulosa. Hoje em dia, basta um indivíduo ter bom senso para ser chamado de progressista. Quando um presidente da República comparece em uma marcha para Jesus e faz o gesto de uma arma, não há sentido algum. O ministro das Relações Exteriores, por sua vez, diz que o aquecimento global não está provado porque os termômetros estão perto do asfalto. Não há como negar o legado de três séculos e meio de escravidão. Mas isso não é o suficiente para explicar o grau de anormalidade em que vivemos. Isso talvez poderia explicar a vitória de um Aécio, de um Alckmin, mas não de Bolsonaro. Também me surpreendi com a vitória de Trump nos EUA. Pensava: o povo não elege um presidente que possa envergonhá-lo. Estava errado.

CC: O senhor diria que Dallagnol e Moro portaram-se como inquisidores e como lacaios de Washington?

CA: Sou muito cuidadoso nas expressões, até por ter sido ministro das Relações Exteriores. Mas, sim, eles serviram aos interesses dos EUA, por convicção ou por outra razão qualquer. E agiram de forma incompatível com os princípios da Justiça. Os procuradores escolheram os culpados antes de identificarem os crimes. E o líder da acusação era o juiz. Acredito na autenticidade das mensagens vazadas. O pessoal da Lava Jato agora nega, mas é espantoso que até agora Dallagnol não tenha entregue o celular dele para ser periciado.

“O general Santos Cruz saiu do governo humilhado”/Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABR

CC: Por que a mídia não cobra isso?

CA: Por medo. Uma parte da mídia dissociou-se da Lava Jato, mas não quer que isso resulte na libertação de Lula. Há uma incompreensão sobre o papel do ex-presidente. Sem descuidar dos mais pobres, Lula sempre optou pela conciliação. Hoje, vivemos um período de profunda irracionalidade. Não dá para estabelecer um debate com um chanceler que está na dúvida se a terra é redonda. Recentemente, colaborei com um seminário no Rio de Janeiro que se chamava: “O ataque à razão”. É o que vivemos. Mas acredito que a Vaza Jato pode iniciar uma mudança. Precisamos trabalhar pela restauração da racionalidade e pelo respeito à política.

CC: Bolsonaro tem planos de reeleição, já admitiu publicamente a intenção de concorrer em 2022.

CA: O problema não é o Bolsonaro, é o povo acreditar.

CC: A esquerda não errou demais?

CA: No início do governo Lula, meu pai me disse: “Filho, acho que vocês estão cutucando a onça com vara curta”. Ele estava certo, mas não podíamos agir de outra forma. Deveríamos estar preparados para a reação do Império. Mas os diálogos revelados pelo Intercept provaram a farsa judicial contra Lula. O mundo começa a se dar conta disso, o que não é pouco. Quando pensamos no fim da ditadura no Brasil, não há como ignorar a influência do governo Carter. O presidente dos EUA começou a se manifestar sobre as violações aos Direitos Humanos no Brasil, e os jornais daqui ganharam uma coragem que não tinham antes. Com a tortura, a ditadura brasileira tornou-se uma aliada incômoda para Washington. O mesmo ocorre agora, e pesa muito o fato de os diálogos da Lava Jato terem sido revelados por um jornalista que denunciou o caso Snowden, a espionagem dos EUA, e possui grande reconhecimento internacional.

CC: O certo seria anular todo o processo. Desde a prisão de Lula, o Brasil vive uma fraude.

CA: Concordo. Na verdade, a fraude é anterior. Começou no impeachment de Dilma Rousseff. Mas há sinalizações importantes. Veja o caso dos militares. Bolsonaro parece ressentido com eles. O general Santos Cruz era o único integrante do governo que realmente participou de uma guerra, serviu no Congo, onde a situação era bem complicada. Pois bem, ele foi chutado do governo. Saiu de lá humilhado pelo guru Olavo de Carvalho e pelos filhos do presidente. E por quê? Segundo relatos na mídia, por se opor à distribuição de recursos a obscuros sites de direita. Depois, o presidente vai a um evento do Exército e diz ser preciso armar a população para resistir a um eventual golpe. Que recado é esse para os militares? É estranho, muito estranho.

CC: O senhor sente que o PT está realmente empenhado em lutar pela libertação de Lula?

CA: Sou filiado ao PT desde 2009, mas não sou dirigente. Às vezes, sou convidado a participar de algum evento, mas não falo em nome do partido. Acho que o PT precisa se reinventar, buscar o máximo de unidade no campo da esquerda, e não faz sentido abandonar Lula. Além de ser um ato de injustiça, todos sabem que Lula é maior que o PT. Abandoná-lo seria um suicídio político.

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