Política

O noivado do PT com o PSB ainda não vingou (e já há quem aposte em divórcio)

Os meses de janeiro e fevereiro serão cruciais para o sucesso ou não das tratativas

PSB. Carlos Siqueira corre o risco de perder a direção do partido para Márcio França
PSB. Carlos Siqueira corre o risco de perder a direção do partido para Márcio França
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A federação subiu no telhado.” Com essa lacônica mensagem, lideranças do PSB foram informadas, na virada do ano, que o noivado entre o partido e o PT estava ameaçado. A série de ligações entre deputados socialistas nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro resultaram em uma carta redigida pela bancada para pressionar a direção nacional a retomar o plano original. O documento é endereçado ao presidente da legenda, Carlos Siqueira, e aliados que se “desinteressaram” pelo arranjo após PT e PSB chegaram a um impasse em relação a São Paulo.

O socialista Márcio França, ex-governador do estado, e o petista Fernando ­Haddad são pré-candidatos ao Palácio dos Bandeirantes e também fiadores da aproximação entre o ex-presidente Lula e Geraldo Alckmin. França diz que deixa­ a ­disputa e concorre a uma vaga no Senado somente se o ex-tucano se filiar ao PSD e se candidatar ao governo paulista. A demora de Alckmin em decidir seu futuro contribuiu para desmobilizar as tratativas. Já Lula e o PT nem sequer avaliam retirar a pré-candidatura de Haddad.

“Em primeiro lugar, nós não vamos fazer federação com ninguém, principalmente com o PT, antes de ter um acordo geral sobre os apoios que nós precisamos. Em segundo lugar, a rigor, nós não precisamos de federação alguma para disputar as eleições”, disse Carlos Siqueira ao jornal O Globo em dezembro. Em férias com a família até meados de janeiro, ele não quis retomar o assunto ao ser procurado por CartaCapital. Caso o projeto da federação perca força, ele corre o risco de ficar sem o controle da direção do partido para França, avaliam lideranças da agremiação.

“Como o PT não quis abrir mão em São Paulo, França desmobilizou os delegados do estado, junto às lideranças de Pernambuco, que, somadas, possuem 52% do diretório nacional. E olha que eles contam com Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Espírito Santo”, contou um deputado federal que preferiu não ser identificado. Segundo o deputado, além de França, os grupos de Rodrigo Rolemberg, ex-governador do Distrito Federal, de Renato Casagrande, governador do Espírito Santo, e de Beto Albuquerque preferem não seguir com as tratativas da federação e formar uma espécie de “frente ampla”. Há também a perspectiva de enfraquecimento da bancada estadual do PSB na Assembleia Legislativa, que deve reduzir de seis para dois, uma vez que, segundo a Folha de S.Paulo, quatro devem migrar para outras legendas, reduzindo o poder de barganha do PSB paulista.

O movimento acendeu a luz vermelha nos parlamentares que temem o encolhimento da bancada, caso a federação não ocorra. Por isso fizeram o movimento de fortalecer a federação para evitar a perda de 15 a 20 deputados federais. Além da bancada na Câmara, 21 dos 26 dirigentes estaduais do PSB também aprovam a federação com o PT, PCdoB e PV. Da mesma forma, são feitas conversas com a Rede e o PSOL.

No início de dezembro, o ministro Luís Roberto Barroso confirmou a constitucionalidade das federações partidárias e colocou um prazo para o registro de até seis meses antes do pleito. As federações precisam seguir as mesmas regras dos partidos políticos e são válidas por quatro anos. Elas funcionam como um partido só, com estatuto único, inclusive. Com a cláusula de barreira vigente para 2022 – que exige que o partido tenha 2% dos votos válidos no País ou eleja ao menos 11 deputados em nove estados –, alguns partidos, como o PCdoB, podem perder o direito de representação no Legislativo e acesso ao fundo partidário e à televisão. Com a federação essas regras são cumpridas em conjunto.

PSB. Carlos Siqueira corre o risco de perder a direção do partido para Márcio França

O prazo exíguo para negociar as federações e a obrigatoriedade de manter o “casamento” por quatro anos, incluindo as eleições municipais de 2024, levaram dirigentes e deputados a pensarem em uma saída classificada como “casuística” por alguns: um divórcio “pré-datado”. Depois da posse em 2023, a lei das federações seria reformulada ou derrubada e liberaria os partidos federados para o próximo pleito. A facilidade reside no fato de as federações terem sido aprovadas a partir de um projeto de lei, e não por emenda constitucional, a demandar maior número de votos para serem alteradas.

Se no PSB o interesse pela federação esfriou, no PT não é diferente. Diante das pesquisas eleitorais – incluindo a que atribuiu ao PT 28% da preferência do eleitorado – e às exigências feitas pelo PSB de ocupar a cabeça de chapa em alguns estados, aliados do ex-presidente Lula que conversaram com ­CartaCapital já falam sobre deixar de lado a federação e formar apenas a coligação majoritária. Esta seria a saída, por exemplo, para o impasse em São Paulo, onde Guilherme Boulos, do PSOL, França e Haddad sairiam candidatos no primeiro turno apoiando Lula à Presidência da República, com acordo de apoio mútuo para o segundo turno.

Em recente entrevista a O Globo, ­Haddad defendeu palanques múltiplos e o apoio nacional a Lula. Defensores da federação argumentam que o estatuto unificado pode prever múltiplos palanques. Em reunião do Diretório Nacional realizada em dezembro, o PT aprovou uma resolução jogando para este ano a decisão de eventual federação. A presidente ­Gleisi Hoffmann é uma das articuladoras do processo e tem promovido as conversas com os partidos aliados. Os meses de janeiro e fevereiro serão cruciais para o sucesso ou não das tratativas.

“Não há possibilidade de ceder para o PSB e tirar a pré-candidatura de Haddad. Já estamos com Flávio Dino (que sai para o Senado) no Maranhão, o Marcelo Freixo que sai para o governo do Rio de Janeiro. Podemos discutir estados, mas sem esse ultimato”, afirmou um deputado petista, referindo-se à exigência do PSB de ter cabeça de chapa em outros três estados: Acre, Pernambuco e Rio Grande do Sul.

O Cidadania flerta com MDB e Podemos, mas as conversas têm avançado mesmo é com o PSDB de Doria

Além de São Paulo, outro nó a desatar é no Rio Grande do Sul, onde o PT ­possui como pré-candidato Edgard Pretto, e o PSB exige Beto Albuquerque na cabeça de chapa. Pesquisa Atlas divulgada em dezembro mostra Pretto na dianteira com 18,6%, o ministro de Bolsonaro Onyx Lorenzoni com 17,8% e Albuquerque com 7,8%. “Estou conversando com o Beto e combinamos de cada um seguir com sua estratégia até o ano que vem para falarmos disso (federação)”, desconversa Pretto.

Há dificuldades também em estados que não constam na lista de exigências do PSB, como o Distrito Federal. No Cerrado, o imbróglio envolve o ex-ministro de FHC e ex-presidente da Petrobras de Temer Pedro Parente. Isso porque seu filho, Rafael Parente, é candidato pelo PSB.

Pedro teria, inclusive, comunicado pessoalmente ao ex-presidente Lula durante uma visita a Brasília que seu filho é candidato e pedido apoio. Mas o PT conta com dois nomes: Geraldo Magela e Rosilene­ Corrêia, diretora do Sindicato dos Professores do Distrito Federal. Para o Senado, seria a deputada Erika Kokay. Lá, lideranças também afirmam que têm dificuldades em apoiar o candidato do PSB pelo fato de ele ter sido secretário de Educação de Ibaneis Rocha, quando a militarização das escolas foi aprovada. Parente alega que deixou o governo justamente por ser contra a proposta.

No Maranhão, parte do PT quer apoiar o candidato o PDT Weverton Rocha, já apostando na “desidratação” de Ciro Gomes, e outra parte topa apoiar o vice-governador Carlos Brandão (PSDB). Pesa ainda o fato de o PSB ter apoiado Aécio Neves em 2014, parte da bancada ter sido favorável ao golpe contra Dilma ­Rousseff e o fato de parlamentares votarem pontualmente a favor de pautas do governo.

Além da federação supracitada, o PCdoB também avalia se juntar ao PSOL e à Rede. O Cidadania, por sua vez, está conversando com PSDB, Podemos e MDB.

No PCdoB, uma das legendas ameaçadas pela cláusula de barreira, o imbróglio se dá em torno do formato da federação e da linha programática dos partidos. De um lado, um grupo que defende fazer parte da união com PT e PSB, principalmente estados do Nordeste, e, de outro, há aqueles que preferem se aliar com PSOL e Rede, ou com um e outro.

Doria. O presidenciável tucano busca se aproximar do Cidadania de Roberto Freire

“O PT já e uma federação e o PSB, com a entrada de Alckmin, também fica grande. Tenho a impressão de que, para produzir uma articulação de esquerda de fato, é interessante uma união com o PSOL e com a Rede, para construirmos um programa com inspiração socialista que conecte os jovens e também apoie a candidatura de Lula”, avalia o deputado Orlando Silva.

No PSOL, a prioridade é formar bancadas, por isso a legenda mantém as conversas sobre federação com os partidos, mas deu início a uma série de encontros regionais chamada “PSOL Pelo Brasil”. Segundo o presidente nacional do partido, Juliano Medeiros, a federação tende a ajudar a formar bancadas em estados onde o PSOL não alcançou o quociente eleitoral ou ficou próximo.

Apesar de priorizar bancadas, o PSOL fechou por unanimidade a pré-candidatura de Guilherme Boulos ao governo de São Paulo – onde mantém conversas com PDT, Rede e PCdoB, para tentar construir uma coalização em torno do líder do MTST – e articula palanques em outros estados, como no Rio Grande do Sul, com o vereador Pedro Ruas, no Paraná, no Espírito Santo e no Distrito Federal com Raphael Sebba.

Na centro-direita, o Cidadania chegou a ser reunir com o presidente nacional do MDB, deputado federal Baleia Rossi,­ e com o Podemos, mas as conversas têm avançado mesmo com o PSDB do governador paulista João Doria, pré-candidato à Presidência. No último encontro antes do Natal, Doria participou da reunião sobre uma possível federação com o Cidadania.

Assim como outros partidos, o prazo para negociar os palanques também dificulta as conversas. É o caso da Paraíba, governada por João Azevedo, do Cidadania, e onde os tucanos fazem oposição. Nesses casos, o Cidadania pensa em ceder aos mandatários a responsabilidade de conduzir as negociações e encontrar consensos. Roberto Freire, dirigente nacional da sigla, chegou também a procurar o PV, quando o projeto das federações foi aprovado em agosto, mas as conversas não evoluíram.

“Nós superamos a cláusula de barreira em 2018 e avaliamos que para este ano temos chances de superar o desempenho, então isso não é o fundamental. Acho que neste sistema você vai ter partidos com maior capilaridade em nível nacional, e isso poderá ter efeito positivo. O apoio à federação é o embrião de novos partidos, como, por exemplo, a Frente Ampla uruguaia, que tem mais de 50 anos”, afirma Freire. O Cidadania atualmente possui sete deputados federais e três senadores. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1190 DE CARTACAPITAL, EM 6 DE JANEIRO DE 2022.

CRÉDITOS DA PÁGINA: CRISTINA SZUCINSKI/ANADOLU AGENCY/AFP E RICARDO STUCKERT – GOVSP E FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR

Ana Flávia Gussen
Repórter da revista CartaCapital

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