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O Brizola é coisa nossa

Esquenta a disputa pelo uso da imagem e pela herança política do ex-governador símbolo do trabalhismo

Uma relação de amor e ódio - Imagem: Marie Hippenmeyer/AFP
Uma relação de amor e ódio - Imagem: Marie Hippenmeyer/AFP
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Morto em 2004, o ex-governador Leonel Brizola deixou um vazio de coragem, impertinência, bom humor e liderança no campo progressista. O que diria da atual situação brasileira se vivo – e lúcido – estivesse? Trabalharia por uma candidatura própria do PDT? Integraria uma aliança mais ampla? Imaginar os movimentos e as decisões de um dos maiores líderes trabalhistas da história guarda semelhanças com uma sessão espírita, mas há quem, nos últimos tempos, se arrisque a “incorporar” o gaúcho. Anda acalorada a briga pelo uso da imagem de Brizola e por sua herança política, tanto por políticos fluminenses quanto pelos descendentes.

Empenhado na missão de garantir certa propriedade sobre o legado de Brizola, o atual presidente do PDT, Carlos Lupi, ficou indignado com a inauguração, em 6 de junho, no Rio de Janeiro, do comitê Brizolula, criado por ex-dirigentes do partido, trabalhistas históricos e militantes petistas identificados com o ex-governador. Iniciativa do vereador carioca Leonel Brizola Neto, do PT (não confundir com o irmão ex-ministro de Dilma Rousseff, cuja alcunha política é Brizola Neto) e com a participação de pedetistas da velha-guarda, entre eles Vivaldo Barbosa e Luiz Alfredo Salomão, o comitê une a imagem de Brizola e Lula em apoio à candidatura de Marcelo Freixo, do PSB, ao governo estadual. O gesto foi qualificado publicamente por Lupi como “ilegítimo”, “oportunista” e “pura provocação”, pois o PDT tem Ciro Gomes como candidato a presidente e Rodrigo Neves na disputa pelo governo do estado.

Os comitês Brizolula, montados por dissidências do PDT, irritam as lideranças do partido

Na segunda-feira 13, momentos antes de uma reunião do comitê com a participação de dezenas de convidados, Barbosa, uma das figuras mais próximas a Brizola, justificou o movimento: “Queremos chamar a atenção dos brizolistas e daqueles que admiravam Brizola de que os desafios na política brasileira continuam a ser em torno do trabalhismo e que quem melhor expressa isso hoje é o Lula”. Segundo o ex-deputado, Brizola “era um homem de partido, mas, sobretudo, uma pessoa de pensamento” e que tinha o trabalhismo como princípio. “Questões como a legislação trabalhista e a Previdência Social são centrais da política brasileira hoje. Ou a estruturação do Estado para garantir a soberania nacional e o domínio das nossas riquezas e estatais estratégicas. E a ideia do desenvolvimentismo, que é a capacidade do povo brasileiro de superar o atraso. Isso construiu o trabalhismo no Brasil e Brizola foi fiel a isso. Lula e o PT expressam o pensamento de Brizola. Juntamos Brizola com Lula porque identificamos um pensamento semelhante para as questões brasileiras atuais. Não somos nós que estamos fugindo do tom”, provoca.

Leonel Brizola Neto defende o uso da imagem do avô e ataca a direção do PDT: “Brizola é um herói da Pátria, pertence ao Brasil e está acima dos partidos políticos. Neste momento crucial do processo civilizatório brasileiro, deveríamos estar unidos no combate ao projeto nefasto que Bolsonaro representa e não ficarmos apegados a ressentimentos baseados em vaidades”. O vereador petista diz não reconhecer no PDT ­atual o legado do avô: “Ciro Gomes e a direção do PDT querem chegar à Presidência de mãos dadas com o udenismo. Estão tendo uma postura, em relação ao presidente Lula, muito similar à agressividade de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas”.

Freixo foi à inauguração do comitê e defendeu a iniciativa. Neves só vê uma jogada de marketing – Imagem: Redes sociais

Cientista político e professor da FGV, Cláudio Couto afirma que o trabalhismo pode ser uma perspectiva ou forma de agir politicamente, um programa de políticas públicas ou até mesmo um projeto de país: “Tudo isso não é monopólio do PDT nem do próprio Brizola”. A origem do trabalhismo, lembra, está conectada ao antigo PTB, legenda histórica negada a Brizola na volta do exílio, e avalia ser muito difícil desassociar a figura do ex-governador do PDT: “É o partido que ele criou quando voltou do exílio, após a sigla PTB ter sido malandramente tirada dele pela ditadura. O PDT foi o verdadeiro sucessor do que era o trabalhismo do PTB”. Nesse sentido, Couto dá razão à reclamação de ­Lupi: “Seria como alguém daqui a alguns anos querer usar a imagem do Lula e dizer que ela não pertence ao PT. Seria algo, no mínimo, estranho. A imagem do Brizola é indissociável do partido que ele criou e no qual ficou a vida toda, desde a redemocratização”.

Para Leonel Brizola Neto, o legado do avô extrapola o PDT e é um bem de todos os progressistas – Imagem: Redes sociais

Também cientista político, o coordenador do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública da Uerj, João Feres Jr., faz análise um pouco diferente: “Nessa reclamação contra o uso da imagem do Brizola, o PDT só está certo no que diz respeito à origem pura e simples do trabalhismo, que no Brasil se originou com Getúlio Vargas e teve prosseguimento com Jango e Brizola. De fato, é um ramo que culminou, com a volta à democracia, na criação do PDT. É inegável, no entanto, que o PT é um partido de trabalhadores que também tem a questão trabalhista no centro desde a sua fundação”. Feres considera o PT legítimo herdeiro do PTB histórico em outro aspecto: “O PTB era um partido que tinha grande adesão pública e identificação das parcelas populares e dos trabalhadores. Esse tipo de identificação partidária forte só viria a se repetir com o PT, que é o partido que, ao longo da Nova República, atrai a maior porcentagem de identificação popular. O PTB morreu com a ditadura, mas o PDT nunca conseguiu ocupar funcionalmente o espaço que aquele tinha no passado, ou seja, ser o partido da classe trabalhadora e dos menos privilegiados. Então, o PT, funcionalmente, é muito mais herdeiro do PTB que o PDT”.

“A imagem do Brizola é indissociável do PDT”, diz Cláudio Couto, da FGV

Os comandos das campanhas de Lula e Freixo seguem alheios às críticas da direção do PDT. A ideia é manter acesa a chama do Brizolula. Na inauguração do comitê, o pré-candidato do PSB ao Palácio Guanabara marcou presença, assim como o candidato ao Senado em sua chapa, o petista André ­Ceciliano, presidente da Assembleia Legislativa. “O Brizola é maior que o PDT, com todo o respeito”, diz o deputado. Freixo lembrou “o legado” do ex-governador. “Brizola é exemplo para todos nós, democratas, que queremos um país mais justo, próspero e pacífico. Não é uma questão eleitoral, é uma questão de visão de mundo. Manter vivo esse legado é dever de todos nós que acreditamos na educação como ferramenta de transformação.” O candidato a governador afirma ter “enorme respeito pelo PDT e por toda a história do partido”, mas defende o Brizolula: “Converso muito com o Lupi, que tem um papel muito importante para as batalhas que estamos enfrentando em defesa do Rio e do Brasil. Brizola é uma referência que está acima de questões partidárias. Os Cieps, com educação em tempo integral, prática esportiva e merenda de qualidade, são uma inspiração para todos nós que temos compromisso com o futuro da nossa juventude, que queremos a nossa garotada na escola segurando livro, não arma. Isso independe de partido. Nós queremos o melhor para o Rio e tenho certeza de que o PDT pensa da mesma forma”.

O pessebista está enganado. O candidato do PDT ao governo estadual tem outra interpretação dos fatos. “Freixo saiu do PT em 2004, passou os oito anos do governo Lula atacando-o de forma sistemática, por ser um governo moderado. Ele construiu sua trajetória fazendo também dura oposição aos governos do PDT. Dessa forma, esse Freixo dos últimos seis meses não é o verdadeiro Freixo, mas um montado pelo seu marqueteiro. Não é o mesmo Freixo que nunca defendeu, ao longo da vida, o projeto dos Cieps”, diz Neves. O ex-prefeito de Niterói afirma que todos no PDT “têm os princípios do trabalhismo como norte” e que Brizola foi uma das maiores lideranças políticas do País. “É uma das principais referências do trabalhismo, tinha amor ao Brasil, à democracia, ao povo e à educação. Evidentemente, o PDT é o herdeiro e o ponto de convergência do legado de Brizola, o que não exclui a possibilidade de outras lideranças e cidadãos comungarem verdadeiramente desses princípios e valores.”

“Ilegítimo” e “oportunista”, afirmou Lupi, presidente do PDT, sobre o comitê Brizolula – Imagem: Câmara de Campinas

Coordenador da campanha de ­Lula no Rio e entusiasta do ­Brizolula, o vice-presidente nacional do PT, ­Washington Quaquá, diz que “o PDT foi o partido fundado por Brizola e tem todo o nosso respeito, mas o brizolismo é um movimento histórico maior que a legenda”. O dirigente garante que Lula estará à vontade ao lado de “gente histórica do brizolismo, como Leonel ­Brizola Neto, Vivaldo e Salomão”, que fundaram uma corrente interna do PT chamada O Trabalhismo. “Eles são muito bem-vindos ao PT, que é um partido que hoje virou uma síntese de diversos movimentos históricos de esquerda brasileiros. Cabe Arraes e cabe Brizola na agremiação que tem em Lula, seu líder, o maior expoente da esquerda brasileira. O lulismo é cada vez mais e será a síntese de todas as tradições da esquerda brasileira”, diz Quaquá.

Couto ressalta que “a relação entre Brizola e Lula era de amor e ódio” e lembra que o ex-governador apoiou o petista “de forma muito clara” no segundo turno em 1989 e chegou a ser vice na chapa do PT em 1998. “Embora não tenha estado com Lula na eleição de 2002, Brizola entrou no governo, mas depois brigou e saiu. Só depois de sua morte o PDT voltou a apoiar um governo do PT.” A relação com o “sapo barbudo” muitas vezes foi difícil. “Mais do que divergência de projetos, havia essa questão que explica por que Brizola rompeu com todo mundo que ele de alguma forma produziu. Para Brizola, não havia espaço para outra liderança nesse campo. Até com o Jango ele teve uma relação complicada. Brizola era um político espaçoso e esse personalismo brizolista está um pouco esquecido atualmente. Em vários aspectos, foi muito mais um chefe do que um líder”, descreve o cientista político.

Os documentos pessoais de Brizola continuam longe do público, por causa de uma briga familiar

A briga política pela herança de Brizola se dá também no aspecto documental. Um acervo que reúne em 65 grandes caixas milhares de documentos, que o ex-governador teve o cuidado de guardar e catalogar durante toda a vida, segue até hoje arquivado e longe dos olhos do público e dos estudiosos, em consequência de uma disputa entre os netos do ex-governador. São documentos que remontam à época do governo gaúcho, passam pela Campanha da Legalidade, o golpe de 1964 e o exílio no Uruguai, e chega aos dois governos no Rio e à atuação política durante o início da Presidência de Lula. A disputa envolve o vereador Leonel Brizola Neto e seus primos Paulo César Brizola e Carlos ­Daudt Brizola, também conhecido como Brizola Neto, ministro do Trabalho no governo de Dilma Rousseff e hoje dirigente do PDT e coordenador da campanha de Neves ao Palácio Guanabara.

A disputa na Justiça, garante Brizola Neto, o Leonel, foi evitada por um acordo feito com os primos. “Não tem disputa. O acervo vai ser recuperado e digitalizado num grande portal para o público e os pesquisadores poderem acessar. Há uma grande parceria entre a Alerj, a Uerj e a Associação Cultural Leonel Brizola, que foi criada para preservar e manter o acervo”, diz. Procurado por CartaCapital, o ex-ministro Brizola Neto não atendeu aos pedidos de entrevista até o fechamento desta edição. A reportagem não conseguiu o contato de Paulo César Brizola.

Barbosa, histórico trabalhista: o PDT atual não tem direito de reivindicar a herança de Brizola – Imagem: Geraldo Magela/Ag.Senado

Para Vivaldo Barbosa, o PDT de hoje não tem o direito de reivindicar a herança política de Brizola: “No passado, o trabalhismo foi expresso pelo PTB, que hoje é uma anomalia. E o PDT se desviou muito dessa linha. Deputados do partido votaram pela reforma trabalhista, pela reforma da Previdência, pela privatização da Eletrobras, que é um símbolo do trabalhismo, por significar o controle da energia pelo Estado nacional. Ela foi projetada por Getúlio Vargas e implantada por João Goulart. Votar pela privatização da Eletrobras significa que o PDT não tem mais nada a ver com o brizolismo”. O ex-presidente da legenda vai mais longe: “A atual direção preferiu não expulsar os deputados para não perder o dinheiro do fundo partidário. Sacrificar princípios em nome de dinheiro é uma coisa que, na cabeça do Brizola, era abominável”, diz. Procurado por CartaCapital para comentar as declarações de Barbosa, o presidente do PDT, Carlos Lupi, também não respondeu até o fechamento desta edição. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1213 DE CARTACAPITAL, EM 22 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O Brizola é coisa nossa”

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Maurício Thuswohl
Repórter da edição impressa de CartaCapital no Rio de Janeiro

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