Novos atos têm o desafio de atrair mais trabalhadores não organizados e setores de centro

Lideranças marcaram uma plenária para discutir estratégias de mobilização

Manifestações contra Bolsonaro se espalharam pelo país em 19 de junho. Foto: Paulo Pinto/AFP

Manifestações contra Bolsonaro se espalharam pelo país em 19 de junho. Foto: Paulo Pinto/AFP

Política

Aumentar o número de manifestantes nas ruas é um desafio para os organizadores que convocam novos atos contra o presidente Jair Bolsonaro para 24 de julho. Na reunião de terça-feira 22, que decidiu a nova data, lideranças também marcaram para 1º de julho uma plenária para discutir as estratégias de mobilização.

 

 

A palavra de ordem pelo impeachment de Bolsonaro segue como prioritária. Um novo elemento que deve somar na mobilização é a apresentação do “super” pedido de impeachment na Câmara, prevista para até a semana que vem. Uma reunião entre os autores está marcada para a quinta 24, às 10 da manhã, para avaliar a versão final do texto.

Mas o momento ainda é de acumulação de forças, mesmo que o diagnóstico sobre 19 de junho seja de crescimento em relação a 29 de maio. Para líderes ouvidos por CartaCapital, o foco agora deve ser chegar a mais locais de trabalho. O papel das centrais sindicais nessa ampliação da adesão, portanto, é um tema que está na mesa.

Ariovaldo de Camargo, da Central Única dos Trabalhadores, diz que “já tem muitos trabalhadores” nas ruas. Para o secretário da entidade, depende-se do ritmo da vacinação para que mais pessoas se sintam encorajadas.

Segundo ele, está em articulação um “dia nacional de luta da classe trabalhadora”, que teria entre as pautas a reforma administrativa. Outra mobilização pode ser construída para defender as empresas estatais.

Demais atividades devem ser debatidas em reunião do Fórum das Centrais Sindicais, que ainda não tem data prevista. A tendência é de que sigam a mesma linha da mobilização anterior, de 18 de junho, com agitações em frente de fábricas. Não há consenso, porém, para que se estimule uma paralisação nacional.

Josué Rocha, do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, avalia que houve melhora quantitativa e qualitativa de trabalhadores no último ato, mas reconhece que é preciso alargar a mobilização para trabalhadores que não são organizados. As tarefas são interiorizar as movimentações nos estados e intensificar a propaganda, seja presencialmente, em terminais de ônibus e estações de trem, seja por meios de comunicação.

“Se somarmos os blocos dos diversos movimentos de moradia de São Paulo e os sindicatos, temos um perfil de trabalhadores interessante para o tamanho da manifestação. Mas estamos falando de trabalhadores organizados. Temos ainda o desafio de ampliação para os trabalhadores na periferia que não estão organizados e que talvez comecem a se impactar pelas manifestações”, diz Rocha.

Outra tarefa é atrair setores que não se identificam com a esquerda, mas que são contrários a Bolsonaro. Para algumas alas da sociedade, há associação dos atos às eleições de 2022, em volta de candidatos da esquerda. Essas camadas são bem-vindas, dizem organizadores, mas é preciso manter unidade nas bandeiras levantadas até agora.

Nivaldo Santana, da Central dos Trabalhadores do Brasil, diz que um passo importante para “jogar água no moinho da oposição” é estender o diálogo a movimentos que não são tão familiarizados com atividades de rua, como o Direitos Já – Fórum pela Democracia e associações de intelectuais, juristas, artistas e personalidades democráticas.

“Para nós conseguirmos o impeachment, temos que ter maioria no Congresso. Só os movimentos ligados à esquerda são insuficientes para viabilizar essa proposta”, afirma. “Para conquistarmos maioria social, temos que ter a esquerda unida e a convicção de que movimentos não necessariamente de esquerda possam participar.”

Uma postura relevante nesse sentido, diz Santana, foi a decisão dos presidenciáveis progressistas em não subir nos palanques das manifestações. Para o sindicalista, Lula (PT) e Ciro Gomes (PDT) podem contaminar os atos com o clima eleitoral, o que dificultaria a soma de forças pela derrubada imediata de Bolsonaro. Lula chegou a mudar sua postura de 29 de maio, em que não fez sequer publicidade dos atos, e divulgou em suas redes os locais dos protestos de 19 de junho, mas preferiu não marcar presença.

Juliana Donato, do movimento Resistência, do PSOL, discorda desse ponto. Ela diz que os organizadores estão dispostos a atrair o centro, entretanto, quanto mais esforços da esquerda pelo impeachment, melhor.

“Seria correto que Lula convocasse e participasse das mobilizações, é uma liderança importantíssima e agregaria muito”, opina. “A esquerda deve colocar todas as suas forças e lideranças a serviço da derrubada de Bolsonaro hoje, e não esperar para 2022.”

 

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Repórter do site de CartaCapital

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