No ataque à quarentena, Bolsonaro está isolado no mundo

Trump, Johnson e o prefeito de Milão já admitiram o equívoco de privilegiar a retomada da atividade econômica em vez da saúde

Foto: Agência Brasil

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Política

O timing não poderia ser mais vexatório para Jair Bolsonaro. No mesmo dia em que o governo federal lançou, sem licitação e ao custo de 4,8 milhões de reais, a campanha publicitária “O Brasil não pode parar”, conclamando os brasileiros a retornar ao trabalho em meio à pandemia de coronavírus, o ex-capitão perdeu o respaldo de vários aliados pelo mundo, outrora apresentados como referências no enfrentamento à crise econômica provocada pela Covid-19.

Nesta sexta-feira 27, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enviou cartas à população norte-americana recomendando recolhimento domiciliar e a suspensão de eventos com mais de 10 pessoas. O premiê britânico Boris Johnson, por sua vez, anunciou que testou positivo para o vírus e permanecerá em quarentena. Até mesmo o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, decidiu vir a público para pedir desculpas por convocar a população local, há cerca de um mês, a trabalhar durante a pandemia. De lá para cá, mais de 4,4 mil mortes foram registradas na cidade italiana.

Até pouco tempo, todos eles minimizavam a pandemia. Decidiram priorizar a retomada da atividade econômica, em vez de seguir as recomendações de especialistas e autoridades da saúde, praticamente unânimes em sugerir o isolamento social para frear a propagação do vírus. Diante do desastroso resultado de suas políticas, esses governantes viram-se forçados a reconhecer o erro e mudar de estratégia. Bolsonaro mostra-se, porém, incapaz de aprender com as lições de seus parceiros e gurus. Parece empenhado em arrastar o Brasil para o precipício.

O “vírus chinês”

Desde o início da pandemia, Trump foi um dos principais opositores das medidas de isolamento para combater o “vírus chinês”, como costuma se referir ao novo coronavírus. Até a terça-feira 24, ele teimava em prever a “reabertura” dos EUA logo após a Páscoa, em 12 de abril. “Nosso povo quer voltar ao trabalho. Eles irão praticar o distanciamento social e tudo mais, e os idosos serão cuidados com proteção e amor. Nós podemos fazer as duas coisas juntos”, escreveu o presidente no Twitter, contrariando todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde, para quem toda a população deve ficar em casa, e não apenas os grupos de risco.

O resultado é desastroso. Os EUA superaram a China em número de casos confirmados da Covid-19. Na tarde da sexta-feira 27, ao menos 92,9 mil norte-americanos haviam sido infectados e mais de mil morreram, segundo o painel de monitoramento global da Johns Hopkins University, uma das mais prestigiadas escolas de medicina do país.

Fotos: Drew Angerer/Getty_Images/AFP; Jack Hill/AFP e Maurizio Costanzo/Wikimedia Commons

Os hospitais de Nova York, o estado mais atingido pela pandemia nos EUA, estão à beira de um colapso, admitiu o governador Andrew Cuomo, preocupado com possível falta de leitos de internação e UTI. “Como ainda teremos uma quantidade grande de pessoas em ventiladores pulmonares durante um período de tempo longo, os especialistas acreditam que o número de mortos continuará a aumentar.”

No Reino Unido, com mais de 14,7 mil casos e 759 mortes até a conclusão desta reportagem, o premiê Boris Johnson reconheceu que o Sistema Nacional de Saúde corre sério risco de colapso. Desde a segunda-feira 23, o país está sob quarentena decretada pelo governo britânico. Agora, os cidadãos só podem sair de casa para atividades essenciais, como comprar alimentos e remédios.

Inicialmente agarrado à arriscada estratégia de expor a população ao vírus e proteger apenas os grupos vulneráveis, Johnson mudou a postura após um estudo do Imperial College de Londres prever até 500 mil mortes no país, caso não fossem adotadas severas medidas de restrição à circulação de pessoas. Agora, para preservar os empregos, o primeiro-ministro não sugere mais o retorno precoce ao trabalho. Em vez disso, se dispôs a pagar 80% dos salários dos trabalhadores, até o limite mensal de 2,5 mil libras esterlinas (cerca de 15 mil reais).

Ao comunicar para a população britânica que havia sido infectado pelo novo coronavírus, Johnson ressaltou a importância do recolhimento domiciliar. “Estou trabalhando de casa, em autoisolamento, e essa é absolutamente a coisa certa a se fazer”, disse. “Obrigado a todos que estão fazendo o que eu estou fazendo, trabalhando de casa para parar a disseminação do vírus. É assim que vamos vencer isto”.

O prefeito de Milão é outro a reconhecer o equívoco de retardar as ações de isolamento social. Há cerca de um mês, ele chegou mover uma campanha semelhante a que Bolsonaro propõe, agora, no Brasil. Está amargamente arrependido. “Muitos se referem àquele vídeo que circulava com o título #MilãoNãoPara. Era 27 de fevereiro, o vídeo estava explodindo nas redes, e todos o divulgaram, inclusive eu. Certo ou errado? Provavelmente errado”, reconheceu Giuseppe Sala, em entrevista a uma emissora italiana. “Ninguém ainda havia entendido a força do vírus, aquele era o espírito. Trabalho sete dias por semana para fazer minha parte, e aceito as críticas”.

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Editor de CartaCapital

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