‘Não fui comunicado’, diz chefe da PF no AM que imputou crimes a Salles e caiu

Alexandre Saraiva enviou notícia-crime ao STF com suspeita de que o ministro do Meio Ambiente e um senador estariam protegendo madeireiros

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante cerimônia de sanção do projeto de lei (PL 1.095/2019) que aumenta pena para crimes de maus-tratos a animais. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante cerimônia de sanção do projeto de lei (PL 1.095/2019) que aumenta pena para crimes de maus-tratos a animais. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Política,Sustentabilidade

O delegado Alexandre Saraiva, atual chefe da Polícia Federal no Amazonas, afirmou nesta quinta 15 ao Estadão que ‘não foi comunicado’ sobre a troca no comando da superintendência: “Só tem duas formas de me comunicar oficialmente – ou meu chefe me liga, pelo principio da hierarquia, que é o diretor-geral, ou publicação no Diário Oficial”.

O novo diretor-geral da corporação, Paulo Maiurino, decidiu trocar o superintendente no AM nesta quarta, 14, mesmo dia em que Saraiva enviou ao Supremo Tribunal Federal uma notícia-crime contra o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. A corporação diz que o delegado foi comunicado da substituição no decorrer da tarde.

Saraiva afirmou ao Estadão que recebeu a ligação de um ‘amigo’ perguntando se ele aceitaria uma adidância. “Isso nem de longe é informar que vou sair. Não disse nem quando nem onde”, disse. [veja a entrevista abaixo]

Segundo Saraiva, Salles “defende infratores ambientais” no caso da maior apreensão de madeira ilegal já feita no País. Na notícia-crime, a Polícia Federal afirma que o ministro e o senador Telmário Mota (PROS-RR) teriam atuado para obstruir a Operação Handroanthus GLO.

O senador chamou Alexandre Saraiva de “xiita” e “covarde” após o envio de informações ao STF. Em nota, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) afirmou que repudia os ataques do senador e que “é inadmissível que integrantes do Governo Federal ou parlamentares exerçam pressão sobre a Polícia Federal.”

 

 

Confira a íntegra das respostas do delegado:

Estadão: Falando da troca, o senhor foi comunicado antes de apresentar a notícia-crime?

Alexandre Saraiva: Não fui comunicado antes. Recebi a ligação de um amigo perguntando se eu aceitaria uma adidância. Isso nem de longe é informar que vou sair, não disse nem quando nem onde. O documento que apresentei tem 38 páginas e ele é muito complexo, não daria tempo pra fazer isso tão rápido. De qualquer forma, pra quem teve a leviandade de falar isso eu coloco à disposição pra perícia o arquivo do word pra que verifique que dia nós começamos a escrever.

Era um plano do senhor deixar a superintendência?

Não é um plano, era uma obrigação. Era um tema complexo que eu tinha que informar a Suprema Corte e isso não dá pra escrever da noite pro dia.

Quis dizer com relação à saída do senhor da superintendência.

Não é questão de sair da superintendência. A questão não é essa. Eu nunca recusei missão na PF. Estava lotado no Rio, aceitei ir pra Roraima em 2011, depois em 2014 fui pro Maranhão e depois vim pro Amazonas. Antes, eu trabalhei na delegacia em Nova Iguaçu, na de Volta Redonda, e na de Meio Ambiente no Rio de Janeiro. Ou seja, quero frisar isso, toda minha carreira de 18 anos na polícia foi exclusivamente trabalhando na Polícia Federal. Nunca fui cedido a órgão nenhum. Sempre trabalhei pela Polícia Federal dentro da casa.

O senhor planeja aceitar a adidância?

Não falo em hipótese. Não me ofereceram nada. Então não falo em hipótese. Não sei nem se eu vou sair porque só tem duas formas de me comunicar oficialmente: ou meu chefe me liga, pelo principio da hierarquia, que é o diretor-geral ou publicação no diário oficial.

A notícia-crime contra o ministro Ricardo Salles, como foi a preparação dela?

Não é a questão da preparação dela. Nós recebemos documentos, apresentados pelas pessoas que foram indicadas pelo ministro do Meio Ambiente. Analisamos esse documento, trabalhamos o fim de semana inteira nisso, porque criou-se uma expectativa em razão das falas do ministro de que a perícia estaria feita em uma semana. Então nós nos esforçamos pra dar uma resposta pra sociedade sobre o nosso trabalho. E nessa análise no fim de semana verificamos fatos gravíssimos e surgiu daí a necessidade de que, se fosse uma pessoa sem foro, teria que instaurar o inquérito como é uma pessoa com foro eu tenho que informar o STF e isso foi feito.

 

*Com informações da Agência Estado

 

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem