Na ONU, Cuba acusa Bolsonaro de usar “livro de falsidades” em discurso

Chanceler cubano condenou campanha negativa adotada pelo presidente brasileiro contra o programa 'Mais Médicos'

O chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez, em discurso na 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas. (Foto: Reprodução/Nações Unidas)

O chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez, em discurso na 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas. (Foto: Reprodução/Nações Unidas)

Política

O chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez, atacou o presidente Jair Bolsonaro (PSL) durante discurso neste sábado 28, na 74ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Rodríguez criticou declarações de Bolsonaro sobre a cooperação de médicos cubanos no programa “Mais Médicos” e disse que o presidente brasileiro leu “livro de falsidades escrito em Washington”.

Rodríguez se queixou de falsas acusações promovidas pelos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro sobre a suposta infiltração de agentes militares da ilha caribenha em outros países para a implementação do “imperialismo cubano”.

“O mais recente pretexto reiterado aqui na última terça-feira pelo presidente Donald Trump é culpar Cuba pelo fracasso do plano de derrubar à força o governo da Venezuela. Para escamotear a façanha ao povo venezuelano, as vozes ianques utilizam repetidamente a calúnia vulgar de que nosso país tem entre 20 e 25 mil militares na Venezuela e que o imperialismo cubano exerce domínio sobre o país. Minutos antes, o presidente do Brasil usou, neste pódio, o livro de falsidades escrito em Washington, aumentado com a desenvergonhada cifra de 60 mil militares cubanos na Venezuela”, criticou o chanceler.

 

Em seguida, Rodríguez atacou Bolsonaro por dar eco às narrativas criadas pelo governo americano em relação aos programas de cooperação médica, como o “Mais Médicos”, que levava atendimento médico a localidades distantes com profissionais cubanos.

“Como parte de sua obsessão anticubana, o atual governo dos Estados Unidos, com eco brasileiro, ataca os programas de cooperação médica internacional que Cuba compartilha com dezenas de países em desenvolvimento, dirigidos às comunidades mais necessitadas, baseados no sentimento de solidariedade e na disposição livremente voluntária de milhares de profissionais cubanos”, disse Rodríguez, ressaltando o reconhecimento dos acordos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

O chanceler cubano afirmou que a campanha negativa levada por Bolsonaro contra os médicos cubanos provocou déficit no atendimento de comunidades que sofrem com a falta de acesso à saúde pública.

“Como resultado, muitas comunidades brasileiras foram privadas do serviço de saúde gratuito e de qualidade que, através do programa ‘Mais Médicos’, prestavam milhares de profissionais cubanos”, afirmou.

Em 1 de agosto, Bolsonaro inaugurou um novo programa de assistência à saúde chamado “Médicos Pelo Brasil”, que substitui o “Mais Médicos”. O novo programa não prevê incorporação de médicos cubanos. Durante a cerimônia de inauguração, o presidente afirmou que “tinha uma enorme preocupação com a questão ideológica” e que “se os cubanos fossem tão bons assim, teriam salvado a vida de Hugo Chávez”.

Chanceler criticou sanções a Cuba

O chefe da diplomacia cubana também condenou o bloqueio econômico imposto por Trump à ilha caribenha, que inclui sanções contra embarcações e empresas envolvidas nas exportações de petróleo para o país. Segundo Rodríguez, as “medidas criminais” do presidente americano submetem Cuba a uma crise de abastecimento de combustíveis, que obrigou o governo a anunciar situação de emergência.

O chanceler também repudiou as sanções econômicas aplicadas à Venezuela e acusou a Casa Branca de retomar a Doutrina Monroe, política adotada pelos EUA no século 19, que pregava o lema “A América para os Americanos” e justificara intervenções em países na América Latina e no Caribe. Rodríguez também condenou punições econômicas impostas ao Irã e fez um apelo para que a comunidade internacional preserve o princípio do multilateralismo.

O diplomata saudou ainda os protestos mundiais pelo meio ambiente. Rodríguez relacionou as mudanças climáticas, principal tema dos debates da Assembleia Geral da ONU, às desigualdades sociais.

“O presidente Trump ignora ou pretende ocultar que o capitalismo neoliberal é responsável pela crescente desigualdade econômica e social que hoje sofrem, inclusive, as sociedades mais desenvolvidas, e que, por sua natureza, fomenta a corrupção, a marginalização social, o crescimento do crime, a intolerância racial e a xenofobia”, discursou. “O capitalismo é insustentável. Seus padrões irracionais de produção e consumo e a crescente e injusta concentração da riqueza são a principal ameaça ao equilíbrio ecológico do planeta. Não haverá desenvolvimento sustentável sem justiça social.”

 

 

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Repórter do site de CartaCapital

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