Na Fiesp, Mourão ataca BPC: “Com mínimo aos 65, para que contribuir?”

Fora do tom 'paz e amor', o vice foi aplaudido por empresários ao prometer aliviar impostos e aprofundar reformas

Foto: Adnilton Farias/VPR

Foto: Adnilton Farias/VPR

Política

Em meio a uma crise que deve atrasar ainda mais o andamento da reforma da Previdência, o vice-presidente Hamilton Mourão foi à Fiesp, em São Paulo, com um missão clara: remendar a relações do PIB brasileiro com o governo Bolsonaro. O tom foi parecido com o da campanha. 

Mourão atuou menos como antípoda e mais como um emissário de Bolsonaro. Reforçou que cumpria uma missão do presidente para levar a reforma adiante. “Nosso governo tem três vetores: difundir, convencer e ter paciência para negociar tudo o que tiver sendo negociado.” A assessoria da Vice-Presidência preparou um esquema para evitar que ele fizesse suas já famosas declarações à imprensa — questionado por um repórter sobre o Congresso, ele ignorou. Também não houve entrevista na saída. 

Em quase quarenta minutos, o general limitou-se a desfiar as “missões” do governo para uma plateia de mais de 600 de empresários. No discurso, trazido em papel, fez jus ao Mourão da época de campanha: criticou o reajuste do salário mínimo acima da inflação (“mínimo que não é mínimo”) e se referiu à ditadura como “anos gloriosos” da economia do país.

Mourão, vice-presidente (Foto: ABr)

Foi aplaudido três vezes: ao prometer aliviar a carga tributária e manter a proteção às empresas brasileiras e endurecer a reforma trabalhista de Michel Temer. “Infelizmente, alguns políticos pensam que estamos no século XIX, e levam direitos a um paradoxo: tudo tem que estar escrito na Constituição. A legislação trabalhista divide o País, a reforma tem que ser levada adiante.”

Evocando Margaret Tatcher, Ronald Reagan e Deng Xiaoping, ele também defendeu que o Estado deixe de participar dos mercados: “Não só comércio, mas também saúde e educação. Eles andam com as próprias pernas.”

Mourão também defendeu mudar o pacto social estabelecido pela Constituição. Usou como exemplo a lei que regula a assistência social e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), um dos pontos mais criticados da reforma da Previdência. Pelas leis atuais, o BPC dá um salário mínimo a idosos acima de 65 anos que não têm como se sustentar. Na proposta do governo, a idade mínima cairia para 60 anos. Mas, até os 70, o valor seria de apenas 400 reais.

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“Esse benefício era dado aos 70 anos. FHC baixou para 67 e Lula, para 65. Para se aposentar por idade tem que chegar, pelo atual sistema, aos 65 anos. Tendo pago ao menos 15 de anos de contribuição. E vai receber só um salário mínimo. Porque contribuir [com a Previdência]? Se vai receber a mesma coisa sem contribuir. Não há mais como sustentar isso aí”, disse. Horas antes, o centrão havia anunciado veto para a mudanças no benefício e na aposentadoria rural.

O vice-presidente partiu na sequência para um jantar com trinta empresários na casa de Paulo Skaf, no bairro do Morumbi. A imprensa não foi convidada. 

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