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Política

Mito desintegrado: por que Bolsonaro perdeu a popularidade?

Victor Ohana
Victor Ohana
1 de julho de 2019
Foto: Isac Nóbrega/PR

Foto: Isac Nóbrega/PR

Presidente da República completa seis meses no cargo e vê sua imagem em cacos. Listamos alguns motivos

Após um longo ciclo de desonestidades, somente um homem de bem, sem ligação com partidos políticos, sem ideologias, e que ama a sua pátria, é capaz de salvar o Brasil de corruptos e marginais vermelhos para retomar o crescimento. Condensar as palavras-chave eleitorais de Jair Bolsonaro em uma frase pode ajudar a compreender o discurso que o construiu como um “mito”. Após seis meses de governo, a desconstrução se impõe: o que o faz desintegrar?

Os números mostram os maus sinais. A aprovação do governo caiu de 35% para 32%, o pior índice desde a posse, enquanto o registro de ruim e péssimo subiu de 27% para 32%, segundo pesquisa do CNI/Ibope divulgada na quarta-feira 27. A confiança no presidente também caiu, de 51% para 46%. Os insatisfeitos não aparecem apenas nas pesquisas: eles também vão às ruas. No mês de maio, duas grandes mobilizações exibiram alta participação popular, o que, de alguma forma, pode ter influenciado no Ibope, que mostra maior reprovação ao governo quando a pauta é educação.

Para especialistas, há fatores claros que explicam o aumento do índice de críticos ao presidente. A situação econômica desfavorável, o desmantelamento de políticas públicas, os escândalos de corrupção e a sucessão de conflitos internos da cúpula são elementos fundamentais na desintegração de uma popularidade que antes se mostrava robusta.

Carteira vazia

Começando pelo bolso: treze milhões de desempregados, 28,5 milhões de subutilizados, desalento e informalidade com novas altas, segundo pesquisa do IBGE divulgada na sexta-feira 28. Some isso à renda entre trabalhadores mais pobres que segue em queda, enquanto ricos já ganham mais do que antes da recessão de 2015, como mostra estudo da Fundação Getúlio Vargas.

➤ Leia também:
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Num cenário propício para o desagrado popular, a ala econômica dá percurso a uma proposta única e controversa, a reforma da Previdência. Para o economista David Deccache, pesquisador na Universidade de Brasília, o governo Bolsonaro prossegue com uma agenda ultraneoliberal, que teve impulso já em 2015 e ganhou forças após o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

“É uma agenda que envolve a reforma trabalhista, a Emenda Constitucional 95 [que estabelece o teto de gastos], mas faltavam pilares, que eram a destruição da Previdência Social, a abertura comercial e liberalização financeira irrestrita. Então, o projeto do Bolsonaro é este que está sendo construído, principalmente, a partir do impeachment, aprofundando as condições que nos levaram à crise”, avalia o pesquisador.

Ameaça a direitos básicos

O desmantelamento de políticas públicas através de cortes orçamentários também fragiliza sustentáculos de apoio ao governo. Após o anúncio dos contingenciamentos pelo Ministério da Educação, o Palácio do Planalto assistiu a enormes manifestações em todo o país. A tesourada bilionária nas verbas para a ciência e a tecnologia também reforça a tensão entre pesquisadores, que veem seus projetos à deriva.

Na saúde, o impacto negativo da saída dos médicos cubanos foi notícia até no jornal americano The New York Times neste mês, que contabilizou 28 milhões de pacientes em risco após o desmonte do programa. Junto a isso, as Farmácias Populares, que distribuíam medicamentos básicos para doenças como hipertensão, diabetes e asma, já deixam de atender 7 milhões de brasileiros em dois anos, segundo levantamento da ONG Repórter Brasil, junto ao Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz. Não há perspectivas de ampliação do programa na atual gestão.

Outras ações polêmicas também elevam desconfianças. O enfraquecimento de órgãos como o Ibama e ICMBio, a abertura para a entrada de 239 novos agrotóxicos e o descompromisso com o combate ao desmatamento da Amazônia geram reações internacionais. Segundo o Greenpeace, cerca de 340 organizações e mais de 600 cientistas pediram que a União Europeia interrompa negociações com o Mercosul até que o governo brasileiro ofereça garantias de fortalecimento às suas políticas socioambientais. Informações como essas podem, ao menos, revelar a contradição de um autodeclarado fiel à Pátria que, curiosamente, não preza pela defesa de suas riquezas naturais.

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Aliados sob suspeita

As desventuras programáticas de quem salvaria o Brasil ganham a decoração fúnebre dos escândalos de corrupção que rodeiam o homem de bem. Logo no início do ano, seu próprio partido, o PSL, virou alvo de investigações por financiamento de candidaturas laranja. O mais recente episódio da trama ocorreu na manhã de quinta-feira 27, quando um assessor do ministro do Turismo Marcelo Antônio foi preso por envolvimento em indicações de falsas candidatas para desviar recursos nas eleições.

O próprio filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), está na mira do Ministério Público, por articulações suspeitas com o ex-assessor Fabrício Queiroz. O caso envolve a movimentação atípica de 1 milhão e 200 mil reais entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. O senador já tentou, três vezes, impedir a quebra de seu sigilo bancário, sem sucesso.

A honestidade do principal escolhido do presidente, o ministro da Justiça Sergio Moro, também entrou em xeque com os vazamentos noticiados pelo site The Intercept Brasil. Se, por um bom período, a integridade do ex-juiz parecia inquestionável, agora, sobram evidências de que o aliado de maior destaque de Bolsonaro tem muitas explicações a dar.

➤ Leia também:
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Usina de crises

No comando de um militar que supostamente preserva a ordem, o percurso do atual governo desconhece qualquer estabilidade. Acusado de “usina de crises” pelo próprio presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o Planalto coleciona demissões no alto escalão e alimenta conflitos internos que, no fim das contas, só reforçam a sensação de profunda incerteza sobre o futuro próximo.

Os motivos, em geral, não eram comuns aos nossos ouvidos. Gustavo Bebianno caiu da Secretaria-Geral da Presidência após desentendimentos por WhatsApp. O general Santos Cruz foi derrubado da Secretaria de Governo depois de picuinhas com o escritor Olavo de Carvalho. O economista Joaquim Levy teve sua degola anunciada em público porque escalou para sua equipe um profissional que atuou em gestões petistas. O presidente dos Correios, Juarez de Paula Cunha, perdeu o cargo porque Bolsonaro considera sua postura parecida com a de um sindicalista.

Além disso, o Brasil é plateia de uma sessão de declarações memoráveis dos aliados, o que só faz persistir o clima de intranquilidade. A ministra Damares Alves, dos Direitos Humanos, fez questão de distinguir roupas por cor, de acordo com o gênero. O ministro Abraham Weintraub, da Educação, foi ao YouTube dançar Singing In The Rain e explicar economia através de chocolatinhos. Os desencontros nas articulações entre Congresso e Planalto já renderam alfinetadas entre Maia e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Há quem ria do tumulto, entretanto, aos que esperavam disciplina da equipe do capitão, os sinais de transtorno permanecem.

A raiz é quebradiça

A impopularidade do mito, porém, existe pouco (ainda) em seu núcleo duro. É o que opina o economista Deccache. “O Bolsonaro tem um núcleo da população que apoia as medidas reacionárias, nas pautas de costumes. É um grupo muito resiliente. A pauta conservadora parece interferir mais do que a situação fiscal, o desemprego, a queda na renda, a Previdência Social. Essa parcela existe e vai apoiar o governo por bastante tempo”, analisa.

A cientista política Flávia Bozza, pesquisadora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), enumera alguns fatores contextuais que viabilizaram a construção da imagem do presidente: a ojeriza à política institucional, a desconfiança com os partidos e a criminalização a segmentos ideológicos. Mas, em sua visão, estas não foram as únicas vias que atraíram eleitores.

“Bolsonaro tem um núcleo, com pessoas conservadoras, que defendem ideias fascistas até certo ponto, misóginas, homofóbicas, racistas. Há um núcleo que se sente representado por essas falas, mas não ganha eleição. Você tem, ao redor, pessoas que embarcaram mais tarde, na campanha, com uma aposta pelo novo. Não por acaso, essas são as primeiras que desembarcam do governo”, examina.

A fragilidade de sua popularidade, exposta gradativamente nas pesquisas até agora, pode ser compreendida já a partir de sua origem. Segundo a cientista, a base inicial de Bolsonaro durante a corrida presidencial foi apenas seu discurso. Quando seus atos vêm à prova, sua desintegração parece mais célere.

“A imagem dele era muito discursiva. Era pautada em discurso, e não em feitos, muito embora a oposição dissesse que ele não era um outsider, que ele era um estabelecido na política há 28 anos, um deputado do baixo clero, muito pouco atuante. Era um discurso forte, mas a atuação em termos de resultados em conversão de políticas públicas sempre foi muito pífia”, explica.

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Repórter do site de CartaCapital

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