Mercado desiludiu-se com Bolsonaro. Previdência mudará mesmo?

Variações do dólar e da Bolsa indicaram 'impressionante reversão de expectativas', diz analista

Bolsonaro dispara a esmo (Foto: José Cruz/ABr)

Bolsonaro dispara a esmo (Foto: José Cruz/ABr)

Política

Após se agredirem por dias, Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia ergueram a bandeira branca. “Chuva de verão”, diz o presidente. “Assunto encerrado”, afirma o deputado. Na véspera, o dólar subia à maior cotação em seis meses, a bolsa caía ao menor patamar desde janeiro. Diante da trégua em Brasília, o “mercado” fazia inverter o rumo do dólar e da Bovespa, à espera da reforma da Previdência.

Será que o fôlego novo do sistema financeiro terá vida longa? Que vale apostar na aprovação da “reforma extremamente cruel”, definição dada por um ex-economista de banco (o BTG Pactual), Eduardo Moreira, em um debate no Senado na segunda-feira 25?

Até a trégua entre Bolsonaro, um reformista sem convicção, e Maia, um neoliberal de corpo e alma, o “mercado” era pura desilusão. “A classe empresarial e o mercado perceberam que o ajuste [fiscal] proposto pelo [ministro da Economia] Paulo Guedes e o Bolsonaro não vai andar na velocidade imaginada”, dizia na quarta-feira 27 André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos.

Paulo Guedes, o dono da reforma da Previdência (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Naquele dia, ressaca de duas derrotas impostas pelo Congresso a Bolsonaro, uma delas no tema Previdência, o analista de uma gigante estrangeira atuante no sistema financeiro em São Paulo afirmava a CartaCapital: “A reversão de expectativas foi impressionante nos últimos dias.” Mas, ressalvava ele, “o mercado ainda está ‘comprado’ em Bolsonaro”.

“Comprado”, no linguajar das finanças, é apostar a favor. Segundo o analista, os investidores de fora nunca se iludiram quanto à reforma. Eram cautelosos nos negócios. Agora, os daqui começam a ficar contaminados pela desconfiança. Uma história que pode ser contada pela taxa de câmbio, diz o analista.

A gangorra do dólar

Quando em fins de agosto, começo de setembro, despontava como favorito na eleição o petista Fernando Haddad, que não morre de amores pela reforma, o dólar subiu de 3,7 para 4,2. Ficou por aí uns 15 dias, apesar das intervenções do Banco Central (BC). Quando Bolsonaro assumiu o favoritismo, o preço voltou a 3,70. Esteve nesse patamar até o início de março.

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Na quarta-feira 27, bateu na casa dos 4 reais. Na véspera, só notícia ruim para o “mercado”. O centrão, aquela turma direitista acostumada a trabalhar por seus próprios interesses, siglas como MDB, PR, PRB, PTB, PSD e Solidariedade, reuniu-se na Câmara e anunciou: não vai deixar mexer na aposentadoria rural, nem no BPC, benefício de caráter assistencial pago a idosos.

E olha que um dia antes, 13 industriais graúdos haviam se reunido com Bolsonaro e Guedes em Brasília e depois prometiam publicamente fazer lobby pró-reforma com seus contatos no Congresso, ou seja, os parlamentares. E defenderiam que fosse aprovada do jeito que o ministro propôs, com mudanças no BPC e na aposentadoria dos camponeses.

Parlamentar simpatizante de empresa é o que não falta, apesar de a última eleição ter sido sem doações patronais. Dos 513 deputados, uns 200 (38%) são empresários, conforme o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). No Senado, a bancada patronal é ainda maior: 38 dos 81 senadores, quase metade da Casa.

“Perdeu a batalha da comunicação”

Líder do centrão, o deputado Elmar Nascimento, do DEM da Bahia, tem dito pelos corredores que o governo “perdeu a batalha da comunicação” na reforma e que o bloco até quer ajudar o Palácio do Planalto, mas não tem vocação suicida. Tradução: a reforma é dura demais com o povão.

Quem explicou a dureza foi Eduardo Moreira, no Senado. A reforma tira dinheiro dos mais pobres, ao dificultar a aposentadoria dos trabalhadores, para dar aos ricos, os detentores da dívida pública. Uma desinteligência, segundo ele, pois rico poupa o que embolsa, algo que não estimula a economia, enquanto o pobre gasta tudo o que recebe, um motor do PIB. Houvesse crescimento, disse, o alegado déficit da Previdência teria outro tamanho.

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Apesar disso, a reforma tem lá suas chances, pois o poder econômico e a mídia são favoráveis. No noticiário, no debate público, afirmou Moreira, “você vê o quê: brancos, ricos, no ar-condicionado, comentando a questão da Previdência… Quantos negros foram ouvidos, quantos representantes dos trabalhadores rurais?”

“O presidente já deixou muito claro que, por ele, não faria a reforma. Não há um ânimo reformista no ar”, disse um desses brancos do ar-condicionado, Arminio Fraga, ex-presidente do BC tucano, durante uma seminário da FGV em São Paulo. No “mercado”, já há economista com a seguinte opinião: “O Bolsonaro não dá, vamos ter de tirar esse cara daí.”

As piores semanas do presidente?

A semana anterior às derrotas do Planalto no Congresso tinha sido “provavelmente a pior semana para o presidente Jair Bolsonaro desde que ele foi eleito para o cargo”, conforme um relatório enviado a seus clientes mundiais pela consultoria global Eurasia Group. É de se imaginar que a semana seguinte tenha assumido o posto de “a pior”.

Nos próximos dias Bolsonaro estará fora do Brasil, em viagem a Israel, uma dívida dele com os evangélicos. Rodrigo Maia disse que a briga com o presidente era “assunto encerrado”, recebeu em casa para um café da manhã o ministro da Justiça, Sérgio Moro, em que havia dado umas patadas, e Paulo Guedes. Uma tentativa de sair do foco das milícias digitais bolsonaristas.

Mas, e os deputados do centrão, aqueles que estão por trás de queixar que Maia só expressou? Estão domesticados também? Ou vão aprontar outra vez com Bolsonaro para domesticá-lo vez, enquanto ele estiver no exterior?

A conferir o clima pós-aniversário de 55 anos do golpe que Bolsonaro mandou os quartéis festejarem.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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