Justiça

Mendonça segura recurso sigiloso sobre o futuro do caso ‘Dark Horse’

Pedido com o relator do inquérito contesta a decisão do presidente do STF sobre quem cuidaria da investigação

Mendonça segura recurso sigiloso sobre o futuro do caso ‘Dark Horse’
Mendonça segura recurso sigiloso sobre o futuro do caso ‘Dark Horse’
Que mecenas. Vorcaro teria financiado 90% da cinebiografia de Bolsonaro, mas ainda pairam dúvidas acerca do destino da generosa contribuição do banqueiro – Imagem: Redes Sociais
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Karina Ferreira da Gama, a evangélica dona da produtora do filme sobre Jair Bolsonaro, quer ser investigada sob supervisão do “terrivelmente evangélico” André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Idem um ex-cliente dela, o deputado Mario Frias (PL-SP), secretário de Cultura no governo do capitão, roteirista da cinebiografia do ex-presidente e responsável pelo envio de dinheiro de emendas parlamentares para uma ONG de Karina.

Falta saber o que dirá o juiz, de quem se aguarda ainda outra decisão: deveria estar com ele o inquérito sobre a cobrança de dinheiro para o filme Dark Horse feita por Flávio Bolsonaro ao dono do finado banco Master?

É cercada de sigilo a contestação contra a posição de Mendonça como relator do inquérito sobre Flávio e Daniel Vorcaro. Poucos sabem de sua existência. Ela surgiu após a decisão do presidente do STF, Edson Fachin, de encaminhar ao colega de corte um pedido de investigação sobre Dark Horse.

No embalo da revelação, em maio, do áudio em que Flávio solicita grana a Vorcaro, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) acionou o Supremo e requereu uma apuração dos elos do banqueiro com o senador e o filme. A requisição foi dirigida a Alexandre de Moraes, encarregado então de um inquérito contra Eduardo Bolsonaro por coação, que logo levaria o réu à condenação de quatro anos de prisão. 

A “coação” era o complô de Eduardo com o governo Donald Trump para tentar salvar a pele do pai de uma sentença por tentativa de golpe. Ao anunciar o primeiro “tarifaço”, em julho de 2025, Trump citou a situação judicial de Bolsonaro. O ex-presidente pegaria 27 anos de cadeia dali dois meses.

A relação da “coação” com o áudio de Flavio a Vorcaro é a hipótese de recursos do banqueiro terem financiado o complô de Eduardo nos Estados Unidos. O acordo de patrocínio de Dark Horse foi selado pelo clã Bolsonaro com o banqueiro em dezembro de 2024. Eduardo foi para o autoexílio nos EUA em fevereiro de 2025, mês da primeira primeira remessa de Vorcaro para o filme, segundo o site The Intercept Brasil

Diante da solicitação de Lindbergh para abrir um inquérito sobre Flavio por causa do áudio, Moraes se esquivou. Segundo informações de bastidores em Brasília, ele não queria entrar na berlinda associado de novo a Vorcaro. O banqueiro, recorde-se, havia contratado o escritório de advocacia da mulher do juiz por uma quantia milionária. Moraes mandou o caso a Fachin, para o comandante da corte decidir.

Fachin viu relação do áudio de Flávio com o inquérito do Master e encaminhou a Mendonça o pedido de Lindbergh. Mendonça entendeu que o assunto era com ele e autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal (PF) sobre Dark Horse

Há um recurso, chamado de “agravo regimental”, levado ao Supremo contra a decisão de Fachin no fim de junho. O agravo está no gabinete de Mendonça. Cabe a ele liberar o processo para um decisão colegiada no tribunal, em julgamento no plenário. E aí fica a dúvida: Fachin e Mendonça ganhariam ou perderiam no voto? 

A definição do relator sobre Dark Horse não é trivial. Tem implicações políticas. Sobram desconfianças em Brasília de que Mendonça protege Flávio Bolsonaro, dados os laços do juiz com a família do senador. Mendonça foi ministro da Justiça e da Advogacia-Geral da União com Jair Bolsonaro, o responsável pela indicação dele para uma vaga no Supremo.

Com Mendonça na batuta, o inquérito sobre Dark Horse quase não gera notícia, diferentemente dos processos que correm com o juiz e envolvem Fábio Luís da Silva, filho mais velho do presidente Lula. É o tipo de situação que deixa Flávio à vontade para dizer, como em uma entrevista televisiva em 30 de agosto: “A produtora (do filme) fez a prestação de contas, inclusive para a Justiça, que não viu absolutamente nada de errado”.

Essa produtora é a Go Up. Sua dona, a empreendedora evangélica Karina Gama, controla também o Instituto Conhecer Brasil (ICB), uma ONG investigada pela Polícia Civil de São Paulo por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura paulistana.

O delegado do caso, Antonio Carlos Munuera Silveira, vê “consistentes suspeitas” de que o contrato serviu para bancar a produção de Dark Horse. Daí que os advogados de Karina acionaram Mendonça no fim de agosto para que o juiz tire da polícia e da Justiça paulistas a investigação e puxe tudo para si no Supremo.

A iniciativa da defesa de Karina tem tudo para alimentar mais uma polêmica no STF. Flavio Dino, outro integrante da corte, autorizou a PF a investigar o repasse de verba de emendas parlamentares ao ICB. As emendas são de autoria do deputado Mario Frias (PL-SP), secretário de Cultura no governo Bolsonaro e roteirista de Dark Horse. Karina trabalhou na campanha de Frias na eleição de 2022. 

Por ordem de Dino, a polícia paulista teve de compartilhar com a PF todas as descobertas feitas em junho durante uma batida em endereços de Karina e do ICB.

Logo após a defesa de Karina recorrer a André Mendonça para tentar ser investigada apenas sob a relatoria dele no caso do contrato do ICB com a prefeitura de São Paulo, os advogados de Mario Frias fizeram o mesmo em relação às apurações sobre emendas enviadas pelo deputado à ONG.

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