Política

Médico diz à CPI que não havia autonomia na Prevent Senior e que uso de remédios ineficazes era obrigatório

‘A hierarquia era muito rígida, baseada em assédio moral. Havia represálias importantes’, afirmou Walter Souza Neto aos senadores

O médico Walter Correa de Souza Neto. Foto: Pedro França/Agência Senado
O médico Walter Correa de Souza Neto. Foto: Pedro França/Agência Senado
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O médico Walter Correa de Souza Neto, que trabalhou na Prevent Senior, relatou nesta quinta-feira 7 à CPI da Covid que os profissionais da rede não tinham autonomia e eram obrigados a prescrever remédios ineficazes contra a Covid-19.

“Não me lembro exatamente se foi no final de março do ano passado ou começo de abril. Mas eles instituíram um protocolo institucional e daí iniciou a determinação para que a gente prescrevesse essa medicação. Pouco depois, os kits com a medicação começaram a ser disponibilizados, colocados no consultório”, disse Souza Neto após uma pergunta do relator, o senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Na sequência, questionado pelo senador Rogério Carvalho (PT-SE), o médico disse que a utilização dos medicamentos era obrigatória. O petista ainda perguntou ao depoente se havia “autonomia do médico” na Prevent Senior. “Não. Definitivamente, não”, respondeu Souza Neto.

“Eu não fazia isso fora da Prevent, mas, na Prevent, eu chegava a fazer e dizia e avisava sempre os pacientes de que não havia evidência”, prosseguiu. “Essa coisa que foi citada de que os pacientes ‘ninguém vai a óbito, ninguém intuba’, isso já era muito claro, a gente sabia que era fraude.”

Walter Correa de Souza Neto disse ter trabalhado na operadora por oito anos, até fevereiro de 2021.

“Esse lema de ‘lealdade e obediência’ usado pela empresa era um termo proveniente de uma cultura antiga e que permaneceu durante a pandemia. A hierarquia era muito rígida, baseada em assédio moral. Havia represálias importantes, talvez até perder o seu trabalho”, relatou ainda. “As pessoas ficavam receosas de contrariar qualquer orientação”.

Conforme o depoimento, havia fraude em declarações de óbito e um “ambiente hostil” nos hospitais do plano de saúde. “A gente vivia num ambiente assim em que todas as pessoas ficavam muito receosas de contrariar qualquer orientação”.

Paciente

O advogado Tadeu Frederico de Andrade, paciente da Prevent Senior, revelou à CPI nesta quinta que médicos do plano de saúde recorreram ao prontuário de outra cliente para tentar convencer a família dele a retirá-lo da UTI e direcioná-lo a cuidados paliativos.

A alegação de médicos da Prevent Senior seria a de que Andrade, que à época estava intubado, não tinha possibilidade de se recuperar. Aos senadores, o depoente relatou que uma médica da operadora disse a suas filhas que, com cuidados paliativos, “teria maior dignidade e conforto, e meu óbito ocorreria em poucos dias”. Assim, os equipamentos da UTI que o mantinham vivo seriam desligados.

Na etapa de cuidados paliativos, a orientação da Prevent Senior seria para que a equipe médica não tentasse reanimá-lo em caso de parada cardíaca.

“Seria ministrada em mim uma bomba de morfina, e todos os meus equipamentos de sobrevivência na UTI seriam desligados. Inclusive, se eu tivesse uma parada cardíaca, teria uma recomendação para não haver uma reanimação”, contou Andrade.

A família se opôs à decisão dos médicos e ameaçou acionar a Justiça, o que teria levado a Prevent a recuar. “Minha família não concorda nessa reunião com início dos cuidados paliativos, se insurge, ameaça ir à Justiça buscar uma liminar para impedir que eu saia da UTI e ameaça procurar a mídia. Nesse momento, a Prevent recua e cancela o início do tratamento paliativo, ou seja, eu em poucos dias estaria vindo a óbito e hoje estou aqui”.

O outro lado

Em nota distribuída pela assessoria de imprensa, a Prevent Senior tentou se defender das denúncias de Andrade. A empresa afirmou que o tratamento paliativo foi “sugestão” de uma médica, não uma determinação.

“A Prevent Senior refuta ter iniciado tratamento paliativo ao paciente Tadeu Frederico de Andrade sem autorização da família”, diz a nota. “Frise-se: a médica fez uma sugestão, não determinação. O paciente recebeu e continua recebendo todo o suporte necessário para superar a doença e sequelas”.

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