Política
Mães em luta
Vinte anos após o massacre, Débora Silva e suas companheiras seguem em busca de justiça e reparação do Estado
No domingo em que completou 67 anos, Débora Maria da Silva voltou a enfrentar uma das épocas mais dolorosas do ano. Desde que perdeu o filho Edson Rogério, assassinado no brutal revide policial aos ataques do PCC em maio de 2006, evita comemorações e diz não suportar ouvir Parabéns pra Você. Neste ano, a coincidência entre o aniversário e o Dia das Mães trouxe de volta uma lembrança específica: a festa que o filho prometera organizar para seus 50 anos, que também cairiam num Dia das Mães, mas nunca aconteceu. Fundadora do movimento Mães de Maio, Débora aprendeu a seguir ao lado de outras mulheres marcadas pela mesma violência. “É a luta que nos dá força”, diz. “Quando uma de nós cai, a outra levanta.”
Os Crimes de Maio, como ficaram conhecidos, deixaram 564 mortes e 110 feridos no estado de São Paulo. Entre as vítimas fatais, 505 eram civis e 59, agentes do Estado. Um estudo desenvolvido pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade Harvard, em parceria com a ONG Justiça Global, apontou indícios do envolvimento de policiais em 122 execuções, tanto em supostos confrontos – à época classificados como “resistência seguida de morte” – quanto na atuação de grupos de extermínio. O massacre, “um dos maiores episódios de violência perpetrados sob a égide do Estado Democrático de Direito no País”, conforme definiram as Mães de Maio e a ONG Conectas em recente denúncia às Nações Unidas, continua impune. Um dos raros (talvez único) policiais responsabilizados foi o ex-cabo da PM Alexandre André Pereira da Silva, condenado, em 2014, a 36 anos de prisão pela morte de três jovens na Zona Norte da capital paulista.
“As investigações foram extremamente precárias ou não existiram. Muitos inquéritos se resumiam a ouvir os pais da vítima, uma ou outra testemunha. Houve erros grosseiros, como não requisitar imagens de câmeras de segurança ou só fazê-lo tardiamente, quando já haviam sido apagadas por outras gravações”, comenta o defensor público Antônio Maffezoli, que atuou em casos na Baixada Santista. “Se hoje estamos falando sobre os 20 anos dos Crimes de Maio, com toda essa repercussão, é por causa dessas mães. É pelo esforço delas em investigar, pela cobrança constante das autoridades, a um custo pessoal altíssimo.”
Estudo de Harvard apontou indícios da participação de policiais em 122 execuções
Débora se recorda do último Dia das Mães ao lado do filho. Fizeram um churrasco, mas Rogério mal conseguiu comer: havia passado por cirurgia dentária dias antes e a dor era intensa. No dia seguinte, ela se exasperou com relatos de uma chacina em um bairro próximo e com o anúncio de um toque de recolher que ecoou por todo o estado. À noite, quando o filho passou em casa para buscar uma cartela de antibióticos esquecida, ela insistiu para que dormisse ali, mas o rapaz não deu ouvidos: disse que precisava trabalhar na manhã seguinte. “Foi a última vez que vi meu filho”, lamenta. Após passar a noite em claro, angustiada com a ausência do telefonema prometido, sintonizou um programa policial no rádio para ouvir as notícias. “O locutor começou a ler o nome das vítimas identificadas no IML e o Rogério era o terceiro da lista. Comecei a gritar, os vizinhos vieram me acudir, meu marido pediu para eu me acalmar, achou que eu tivesse ouvido errado, disse que eu estava louca. As mães sempre estão loucas, não é?”
Somente no velório, marcado pela presença intimidatória de policiais, Débora soube das circunstâncias da morte do filho. Na noite de 15 de maio, Rogério pilotava uma moto e ficou sem gasolina. Precisou empurrá-la até um posto, mas o local já estava fechado. De um telefone público, pediu socorro ao amigo Ricardo. Enquanto aguardava, foi abordado por oito policiais em três viaturas da PM – uma Chevrolet Blazer e dois Volkswagen Gol. Após consultarem sua ficha, os agentes desferiram tapas e ameaças: “Morreu, você é ladrão” – em 1997, ele havia sido condenado por roubo, e cumpriu a pena integralmente. O amigo chegou logo em seguida. Houve então a troca de motos: Rogério saiu com a que estava abastecida e foi buscar combustível para a outra, mas não retornou ao local.
O jovem havia sido executado com cinco tiros. Seus algozes não se preocuparam em retirar o capacete para confirmar o alvo. Encontrado às 23h20, segundo o Boletim de Ocorrência, o corpo foi identificado rapidamente porque o gari de 29 anos carregava no bolso o crachá da Terracom, concessionária de limpeza pública de Santos, onde trabalhava havia quatro anos com carteira assinada. Era uma recomendação da mãe. “Menino negro e vaidoso, ele gostava de usar roupa da marca Quiksilver, o boné virado para trás para esconder a calvície. Eu mandava ele carregar a funcional e o holerite, para provar que era trabalhador.”
Acordo. Os ataques cessaram após o governo paulista enviar uma comitiva para negociar com Marcola, líder do PCC – Imagem: Sergio Lima/AFP e Maurício Lima/AFP
A partir de então, Débora viu-se enredada em uma espiral de negligência e descaso. Em diversas ocasiões, insistiu para que o delegado e o promotor requisitassem as imagens das câmeras do posto onde Rogério foi abordado, mas a demora fez com que o estabelecimento sobrescrevesse as gravações. Ricardo, testemunha dos últimos momentos, jamais foi chamado a depor. Inicialmente, o Comando da PM informou que os equipamentos do Copom estavam quebrados desde 26 de abril, impossibilitando a verificação dos registros. Débora confrontou a alegação ao demonstrar, com boletins de ocorrência, que os policiais afirmavam ter sido acionados pelo Copom. Quando os registros foram entregues, surgiu uma revelação escandalosa: a ficha criminal de Rogério havia sido acessada 20 vezes entre 23h53 do dia 15 e 17h22 do dia 16, mas sem identificação de quem solicitou as consultas.
Não bastasse, o corpo do rapaz foi sepultado com uma prova material do crime: uma bala encravada na coluna, que os legistas alegaram não conseguir remover. Ao arquivar a investigação, em 23 de junho de 2008, o promotor elogiou os esforços da “incansável mãe”, mas concluiu não haver outras diligências possíveis. Segundo Maffezoli, o caso só foi reaberto em 2012 após a Defensoria Pública pedir a federalização do caso. “O MP em Santos instaurou um Procedimento Investigatório Criminal, e o promotor passou a investigar com base nos relatos trazidos por nós e pelas mães. No entanto, havia passado muito tempo. Já não era possível encontrar testemunhas ou dados de geolocalização dos suspeitos”, observa. Uma das providências foi a exumação do corpo de Rogério. O projétil foi removido, mas não houve exame balístico. “A bala estava muito danificada.”
O estopim para os ataques do PCC foram as transferências de 765 detentos para penitenciárias de segurança máxima. Débora está convencida, porém, de que a causa foi outra. “Essa tragédia é fruto da corrupção policial”, assevera. Uma série de fatos sustenta a tese da principal liderança do movimento Mães de Maio. À época, o governador Cláudio Lembo admitiu, à Folha de S.Paulo, que a facção planejava os ataques antes das transferências. “Uns 20 dias atrás, nosso serviço de inteligência havia recolhido folhetos manuscritos dentro de unidades prisionais. Era uma troca de informações que sinalizava ataques programados para ocorrer no domingo Dia das Mães”, afirmou no auge da crise.
Diversos pesquisadores apontam que o PCC estava incomodado com os achaques de agentes da Polícia Civil, entre eles Augusto Peña e José Roberto de Araújo. Em uma delegacia de Suzano, a dupla criou um “setor de inteligência” para monitorar telefonemas de integrantes da facção. Em vez de usar as informações para prender suspeitos, passaram a extorquir a cúpula do PCC. Em abril de 2005, sequestraram um enteado de Marcola, libertado após o pagamento de um resgate de 300 mil reais. Condenado a 22 anos de prisão, Peña foi desmascarado após a ex-mulher entregar ao MP cerca de 200 CDs com escutas telefônicas.
Os atentados da facção só cessaram após negociação entre o governo e a cúpula do PCC. Lembo negou um acordo, mas jamais desmentiu o encontro entre integrantes de sua equipe e Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC, no presídio de Presidente Bernardes. “Dizem que há uma banda podre na polícia. Na verdade, é uma banda e meia”, desabafa Débora. “De lá para cá, as facções só se fortaleceram. E o que mais vemos hoje são policiais denunciados por envolvimento com o PCC. Depois, eles brigam entre si e acabam matando nossos filhos.” É difícil contestar o argumento. Segundo o promotor Lincoln Gakiya, o faturamento da organização, que hoje controla fintechs e empresas com contratos públicos, saltou de 10 milhões para 10 bilhões de reais nos últimos 15 anos.
Devido à omissão estatal, o Brasil será julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos
Além da negligência nas investigações, familiares de vítimas ainda enfrentam tentativas de criminalização. Ednalva Santos, mãe de Marcos Rebelo Filho – assassinado com nove tiros por homens encapuzados em uma pizzaria na região central de Santos – foi alvo de flagrante forjado. Após repassar à polícia o contato de uma testemunha, passou a sofrer perseguições e ameaças. Um dia após anunciar a intenção de denunciar o caso à Corregedoria, ela foi presa. Policiais alegaram ter encontrado drogas em seu estabelecimento. Ficou oito dias detida até a acusação ser retirada. Vera Lúcia Gonzaga dos Santos, mãe de Ana Paula – assassinada grávida de nove meses – também foi alvo de invasão policial e acusada de tráfico após entregar à polícia projéteis da cena do crime e denunciar o desleixo da perícia. Condenada, cumpriu dois anos e meio de prisão na Penitenciária Feminina de Franco da Rocha e, em 2018, morreu em casa, vítima de AVC.
Três anos antes, a promotora Ana Maria Frigério Molinari afirmou, em uma audiência, ter recebido a informação de que o movimento de familiares de vítimas “seria formado por mães de traficantes que, após a morte de seus filhos em maio de 2006, teriam passado a gerenciar pontos de venda de drogas”. Várias organizações apresentaram queixas ao MP, mas o caso foi arquivado sem punição. “O mais grave é que policiais têm usado o vídeo com essa declaracão irresponsável como arma de defesa em julgamentos”, diz Carolina Diniz, da Conectas.
As Mães de Maio aguardam, com expectativa, o defecho de dois julgamentos. Em 2019, o MP paulista despertou de sono profundo e solicitou uma reparação coletiva de 153,5 milhões de reais para familiares de vítimas e sobreviventes dos Crimes de Maio. O processo foi rejeitado na primeira e na segunda instância, sob a alegação de vencimento do prazo prescricional. A Defensoria Pública, que havia se habilitado no processo, decidiu recorrer ao Superior Tribunal de Justiça. Relator do caso, o ministro Teodoro Silva concordou com a tese de que graves violações aos direitos humanos são imprescritíveis, mas o colega Marco Aurélio Bellizze abriu divergência e o julgamento foi suspenso após um pedido de vista.
Além disso, a Corte Interamericana de Direitos Humanos aceitou analisar um caso emblemático dos Crimes de Maio: a chacina do Parque Bristol, na Zona Sul da capital, em que três jovens foram assassinados. Até hoje, ninguém foi responsabilizado. Paralelamente, as Mães de Maio passaram a atuar também na esfera legislativa, defendendo projetos voltados ao amparo de vítimas da violência policial. Um deles é o PL 2.999/2022, apelidado de “PL das Mães de Maio” e apresentado pelo deputado Orlando Silva, do PCdoB. A proposta prevê assistência jurídica, econômica, social, psicológica e médica para familiares de vítimas, além de medidas para reduzir a letalidade policial. “Vou conversar com o presidente da Câmara, Hugo Motta, para pedir mais celeridade na tramitação da proposta”, afirma o parlamentar.
Enquanto isso, o movimento ampliou seu raio de atuação, apoiando núcleos de familiares de vítimas em outros estados. “No fundo, os Crimes de Maio e toda a impunidade que se seguiu serviram de modelo para o País. Nasceu ali o padrão das operações de vingança da polícia”, observa Débora. “As operações Escudo e Verão, na Baixada Santista, assim como as recentes chacinas no Rio de Janeiro e em Salvador, seguem um método muito parecido. Enquanto não houver justiça e reparação, essa ferida nunca vai fechar.” •
Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Mães em luta’
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