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O ecossistema de desinformação forjado no governo Bolsonaro permanece estruturado

Imagem: iStockphoto
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Em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do novo presidente da República, Brasília era novamente sacudida por uma multidão. Milhares de cidadãos de verde e amarelo, apoiadores de Jair Bolsonaro que não aceitavam a vitória de Lula, tomaram a Praça dos Três Poderes e deixaram um rastro de destruição.

A magnitude do ato e a potência destruidora acenderam todas as luzes vermelhas: aquele episódio bárbaro mostrava que as forças articuladoras de desinformação, consolidadas em um ecossistema potente durante os anos Bolsonaro, não estavam apaziguadas com a vitória de Lula. Ao contrário, estavam fortemente em ação. Caravanas de vários estados chegaram em Brasília naquele fim de semana, na manhã de domingo. Gente comum, idosos, jovens, adultos, crianças, todos foram convocados para a “Festa da Selma” e compareceram. Vovós enlouquecidas com medo do comunismo e a depredar o espaço público, mães com crianças de verde e amarelo bradando e quebrando coisas, jovens destruindo o patrimônio público. Gente comum enfurecida pelo ódio destilado nas redes, pelas narrativas de desinformação que tomaram conta do Brasil nos últimos cinco anos. Nada daquilo era aleatório ou fruto de insatisfação: a destruição e os discursos enfurecidos eram resultado da poderosa arquitetura de desinformação estrategicamente organizada nos anos Bolsonaro.

Apenas para refrescar a memória. Carluxo, o filho 02, parecia idiota, mas conduziu com maestria o “Gabinete do Ódio”, despachando quase do lado do pai, criando narrativas mirabolantes, alimentando os grupos com mentiras sobre o processo eleitoral, sobre vacina, sobre todos os temas. O “Gabinete do Ódio” tentou comprar tecnologia espiã de Israel. Eduardo, o filho 03, esteve em interlocução com uma empresa árabe para verificar tecnologia que propicia a espionagem de opositores. Sem qualquer constrangimento.

Bolsonaro, antes de entregar o cargo de presidente, em dezembro de 2022, correu para os EUA e manteve uma agenda cheia com grupos religiosos que não discutem apenas o Evangelho. Ou seja, a arquitetura da desinformação esteve bastante ativa e não se ocupava apenas de espalhar boatos.

O entourage bolsonarista continua a espalhar mentiras, articulado internacionalmente

Após o susto com a invasão à Praça dos Três Poderes, houve uma pronta e rápida reação das instituições e do governo federal para punir os responsáveis pelo 8 de Janeiro. Mesmo com todas as medidas e com o show de horrores, uma versão muito potente conquistou, no entanto, terreno e adeptos, a de que os eventos tinham ocorrido por haver infiltrados petistas nos grupos. A CPI foi instalada em março. Em outubro, com a conclusão dos trabalhos, o relatório da senadora Eliziane Gama pedia o indiciamento de 61 investigados por crimes como associação criminosa, violência política, abolição do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. Entre os acusados, o ex-presidente Bolsonaro, os ex-ministros Walter Braga ­Netto (Defesa), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Anderson Torres (Justiça) e a ­deputada Carla Zambelli (PL-SP). Todos continuam a espalhar desinformação.

Também em outubro, a eleição para os conselhos tutelares mostrou a força da articulação da desinformação para alavancar pautas como banheiro unissex, escola sem partido e kit gay. E, consequentemente, para interditar o debate público em relação ao que interessa. Aliado a esse cenário temos o fato de que grupos e portais que teciam os finos fios da desinformação e davam destaque à pauta moral desde a campanha de 2018 agora se articulam a think tanks ultraliberais na formação de líderes, especialmente gestores para redes municipais de ensino. Um famoso portal, que reproduziu e reproduz desinformação, mantém um núcleo especializado em formação e passou a investir em formação específica e sistemática nas comunidades da cidade do Rio de Janeiro, mesmo município onde os candidatos a prefeito sempre pedem bênçãos à Igreja Universal, que coloca em evidência a pauta moral como subsídio à arquitetura da desinformação. Não citarei os nomes, por motivos óbvios.

À medida que se aproximam as eleições municipais, disseminam-se “relatos” que vinculam a esquerda ao crime organizado. Eles circulam livremente e são alimentados e retroalimentados por vários atores e em várias instâncias, como no WhatsApp de grupos religiosos. E a completa falta de compromisso das redes sociais com a punição à desinformação permanece. O dono da plataforma X, Elon Musk, extinguiu em setembro a equipe interna que combatia desinformação eleitoral, a poucos meses da eleição para presidente nos EUA, na qual Donald Trump aparece novamente como forte candidato.

A articulação da desinformação segue a romper as fronteiras dos países. Esses caminhos ganharam evidência com a vitória de Javier Milei na Argentina. Foi um momento simbólico para marcar tanto o potencial de desinformação quanto a articulação que rompe as barreiras nacionais. Tanto Donald Trump quanto Bolsonaro festejaram efusivamente a vitória de Milei. No Brasil, a candidatura argentina serviu como um tônico revigorante para o bolsonarismo, que viu na eleição do país vizinho uma oportunidade para o ressurgimento de atores políticos extremistas e pautas condutoras de realidade paralela. Nessa articulação transnacional, as coalizões religiosas avançam e ganham protagonismo em rede e por vários países. Essas coa­lizões têm a pauta moral em dia, estão muito articuladas em vários países e alimentam discussões e debates a partir de temas como escola sem partido, aborto, uso de armas e perseguição a cristãos.

Para encerrar, respondo à pergunta que me fizeram: os riscos do ecossistema de desinformação permanecem? Sim, permanecem, mesmo com as ações muito importantes desenvolvidas pelo governo, no âmbito do Ministério da Justiça e da Secretaria de Políticas Digitais, e pelo STF neste ano. O ecossistema que se consolidou com Bolsonaro é ainda muito potente, mesmo sem estar amparado pela estrutura do Poder Público. O financiamento privado permanece e a interlocução com os grupos extremistas em várias partes do mundo é cada vez mais vigorosa. O Brasil foi um laboratório de realidade paralela e continua a ser um lugar muito importante para os projetos da extrema-direita, que tem a desinformação sistemática e sistematizada em sua base de articulação. Precisamos permanecer atentos e fortes. •

Publicado na edição n° 1291 de CartaCapital, em 27 de dezembro de 2023.

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