Entrevistas

Jana Silverman: “A intervenção dos EUA na eleição brasileira já começou”

“É altamente provável que o governo Trump não queira reconhecer o resultado eleitoral”, avalia a professora norte-americana

Jana Silverman: “A intervenção dos EUA na eleição brasileira já começou”
Jana Silverman: “A intervenção dos EUA na eleição brasileira já começou”
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Estado, Marco Rubio. Foto: Brendan Smialowski/AFP
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Eleições 2026

Em pleno agosto de 2026, o governo de Donald Trump decidiu publicar um vídeo a servir, na prática, como instrumento de ameaça à América Latina. Divulgada pelo Departamento de Estado, de Marco Rubio, a gravação traz esta singela chamada: “O domínio norte-americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente”. Tudo isso no contexto da captura de Nicolás Maduro na Venezuela, da tentativa de sufocar Cuba e da hostilidade ao Brasil, a menos de dois meses de uma eleição presidencial.

Quem protagoniza o vídeo é o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Marino Cabrera. Por cinco minutos, ele discorre sobre a Doutrina Monroe, de 1823, que originalmente firmava a oposição de Washington a eventuais intervenções europeias no continente americano. Era, de início, uma declaração simbólica, mas tudo mudaria décadas depois com o uso do documento para sustentar uma política imperialista.

Não há no vídeo qualquer referência ao apoio de Washington às ditaduras latino-americanas, a exemplo da brasileira, da argentina e da chilena — embora o papel da Casa Branca esteja fartamente documentado.

Diversos usuários brasileiros do X reagiram à publicação do Departamento de Estado com o chamado “vampetaço”, uma onda de imagens do ex-jogador de futebol Vampeta nu. O momento é, porém, preocupante, avalia em entrevista a CartaCapital Jana Silverman, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC e integrante do Comitê Internacional dos Socialistas Democráticos da América, o DSA. Ela acompanha de perto a política norte-americana, os movimentos da esquerda e as organizações dos trabalhadores nos EUA.

Segundo Silverman, não cabe mais perguntar se o governo Trump se intrometerá na eleição brasileira: a interferência já está em curso. “Começou com a primeira rodada de tarifas no ano passado, imposta por razões políticas”, resume. “Já vimos o nível de intromissão do governo Trump, especificamente de Rubio e do Departamento de Estado, em outros processos eleitorais na América Latina.”

Leia os destaques da entrevista:

CartaCapital: O que é a Doutrina Monroe e qual era o contexto de sua criação?

Jana Silverman: A Doutrina Monroe data de 1823, início da história norte-americana. Não era uma doutrina muito elaborada, apenas uma pequena parte de um discurso muito mais longo do presidente James Monroe sobre a política doméstica e internacional.

Naquele momento, Washington não estava muito preocupado em exercer controle sobre os países latino-americanos que haviam declarado recentemente sua independência. A própria doutrina fala muito sobre valores de democracia e direitos, que os EUA compartilhavam com as novos repúblicas latino-americanas.

Claro, há partes da doutrina que falam sobre os norte-americanos terem um dever de tutelar os países latino-americanos, mas não porque se achavam melhores. Era uma tutela que os EUA queriam exercer naquele momento porque tinham uma afinidade ideológica e política com as novas repúblicas latino-americanas.

Essa doutrina, na prática, não teve muito impacto no primeiro momento, porque as grandes potências Inglaterra e França já haviam feito um pacto dizendo que não se intrometeriam nas Américas.

CC: Até que as coisas mudaram…

JS: Só uns 80 anos depois é que a doutrina começa a mudar de sentido, com o que eles chamam de Corolário Roosevelt. Aí, sim, trata de intervenção direta nos países “em nome da estabilidade”.

Mas já era uma nova leitura de uma doutrina que realmente não fala sobre intervenção norte-americana direta na América Latina. É uma releitura que acontece 70, 80 anos depois.

CC: Agora, com Marco Rubio e Donald Trump, como podemos interpretar a mensagem de que “o domínio norte-americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente”?

JS: A primeira questão é: que tipo de domínio? Se falamos de domínio comercial na América do Sul, muita gente já sabe que a China é o maior parceiro comercial da grande maioria dos países, incluindo o Brasil.

Você pode interpretar a questão no sentido da democracia liberal, e isso seria mais fiel ao texto original, à ideia de que os EUA têm uma afinidade política para preservar uma democracia liberal e tudo o que isso contém, como os direitos humanos universais.

Mas, no caso de Marco Rubio e Donald Trump, não faz sentido, porque o sistema político sob o governo Trump é tudo menos uma democracia liberal, com essa ideia de não respeitar a autodeterminação dos povos — vimos, obviamente, no caso da Venezuela, mas também em Cuba e na intromissão eleitoral em processos eleitorais de países como Honduras, Colômbia e Argentina.

CC: E qual é a situação do Brasil, às vésperas de um pleito presidencial em que Trump tem um lado? Haverá interferência em nossa eleição?

JS: A resposta mais simples é que essa intervenção já está acontecendo. Começou com a primeira rodada de tarifas no ano passado, imposta por razões políticas, e não comerciais ou econômicas. Obviamente, a nova rodada também traz questões altamente politizadas, a marcarem a posição do governo Trump de que “rejeitamos esse governo e queremos ver uma mudança”.

Vimos isso, por exemplo, semanas atrás com a tentativa do Departamento de Estado de enviar “experts” ligados ao Departamento de Estado para começar a questionar a validade do sistema eleitoral brasileiro. Por astúcia do presidente Lula e da equipe do Itamaraty, negaram os vistos dessas pessoas.

Mas isso é só uma tentativa de várias que vamos ver. E acho que vai culminar em um grande questionamento do processo eleitoral no caso de o presidente Lula ganhar, seja no primeiro ou no segundo turno. É altamente provável que o governo Trump não queira reconhecer o resultado eleitoral.

CC: Há alguma possibilidade real de redução da crise diplomática entre Brasil e EUA?

JS: No curto prazo, infelizmente, não vejo saída. Já vimos o nível de intromissão do governo Trump, especificamente de Marco Rubio e do Departamento de Estado, em outros processos eleitorais na América Latina. Esses embates vão aumentar.

No caso da Colômbia, por exemplo, vimos apoiadores do governo de Gustavo Petro que eram residentes nos EUA e foram encarcerados pelo ICE dias antes das eleições. E vimos Trump falar abertamente nas redes sociais quem era seu candidato e a embaixada norte-americana em Bogotá retuitar essas mensagens. São práticas que vão claramente contra qualquer princípio diplomático. Obviamente eles querem detonar todas essas regras e práticas.

Para essas questões se resolverem pacificamente, dependeremos, primeiro, de um resultado claro e contundente no pleito de outubro no Brasil. Em segundo lugar, também precisamos de atores políticos importantes nos EUA reivindicando a lisura das eleições brasileiras, pressionando para que o governo reconheça os os resultados.

Acho que será um cenário complicado. Infelizmente, não vejo solução a curto prazo.

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