Itamaraty buscou vacinas na Índia por 10% do valor pago pelo Ministério da Saúde

A opção pela ‘operação secreta’ ocorreu para evitar vazamento de informações e divulgações precipitadas por parte do governo federal

O voo procedente da Índia que trouxe 2 milhões de vacinas da AstraZeneca contra a covid-19 ao Brasil chegou por volta das 17h30 do dia 22 de janeiro no Aeroporto Internacional de São Paulo, localizado em Guarulhos.

Foto: Ministério da Saúde

O voo procedente da Índia que trouxe 2 milhões de vacinas da AstraZeneca contra a covid-19 ao Brasil chegou por volta das 17h30 do dia 22 de janeiro no Aeroporto Internacional de São Paulo, localizado em Guarulhos. Foto: Ministério da Saúde

Política,Saúde

Em janeiro deste 2021, o Itamaraty buscou 2 milhões de doses de vacina AstraZeneca/Oxford na Índia ao custo de 10% do valor pago pelo Ministério da Saúde em uma operação frustrada. O voo foi organizado de forma secreta, diretamente com a chancelaria indiana para que o Ministério da Saúde não atrapalhasse novamente o transporte, como havia ocorrido em duas ocasiões alguns dias antes. A informação é do jornal Folha de S. Paulo.

O Itamaraty conseguiu junto ao governo indiano que as 2 milhões de doses de imunizantes fossem trazidas ao Brasil por 55 mil dólares. Dias antes, o Ministério da Saúde fez duas tentativas de transporte da mesma carga, ambas frustradas pelo afobamento do governo federal. Em uma delas, a Saúde fez com que a Fiocruz tivesse um prejuízo de 500 mil dólares. O Ministério não respondeu quanto custou a segunda tentativa.

Segundo a reportagem, o prejuízo se deu após confusão causada pela pasta liderada pelo general Eduardo Pazuello sob pressão de Jair Bolsonaro. A pressa para buscar as vacinas era para que os imunizantes chegassem antes que João Doria pudesse iniciar a vacinação em São Paulo com a Coronavac no dia 20 de janeiro. O governo buscava evitar que o adversário político se antecipasse ao governo federal, o que de fato aconteceu no dia 17 daquele mês.

Para fazer com que as 2 milhões de doses chegassem ao Brasil antes do dia 20, o governo federal determinou que a Fiocruz fretasse um voo exclusivo para a Índia no dia 16 de janeiro. Os trâmites para o envio das vacinas, no entanto, ainda não estavam completos no País asiático, o que não permitiu que as doses fossem transportadas. O custo da operação foi de 500 mil dólares não reembolsáveis, prática habitual neste tipo de negócio.

Ao mesmo tempo em que determinou o fretamento de um voo da Fiocruz, o Ministério da Saúde, sem explicações, fretou um outro voo da empresa Azul no mesmo dia para que buscasse a mesma carga. A aeronave foi adesivada com a frase ‘Brasil imunizado: somos uma só nação’ e o transporte das vacinas foi amplamente noticiado pelo governo brasileiro. O alarde na divulgação, porém, causou desconforto ao governo indiano, que fazia a operação com discrição, já que ainda não havia iniciado a vacinação no próprio País. O valor de toda essa operação não foi informado pelo governo, o voo nem chegou a sair de Recife rumo a Ásia e o avião foi usado para transportar cilindros de oxigênio para Manaus.

Na ocasião dos voos, Pazuello havia anunciado que era necessário apenas ‘o tempo de viajar, apanhar e trazer’ e que o governo já tinha ‘todos os documentos de exportações prontos’. No mesmo dia, porém, um porta-voz do governo indiano, em briefing à imprensa, já havia informado ser ‘cedo demais’ para o Brasil encaminhar a aeronave. Um dia depois, o embaixador da Índia também reforçou o aviso para que o voo não fosse enviado até que os trâmites fossem finalizados.

Toda a confusão fez com que, dias depois, o Itamaraty negociasse diretamente com a chancelaria da Índia. A nova negociação não envolveu o Ministério da Saúde, que ficou sabendo do acerto apenas quando as doses já estavam embarcadas na Ásia no dia 21. A opção pela ‘operação secreta’, segundo a reportagem, ocorreu para evitar vazamento de informações e divulgações precipitadas por parte do governo federal. O acordo previa a divulgação da chegada das doses ao Brasil apenas na manhã do dia 22 de janeiro. Essa operação custou apenas 55 mil dólares, 10% do valor da primeira tentativa, como informa o próprio Itamaraty em telegrama encaminhado naquele mesmo dia.

O Ministério da Saúde foi procurado, mas não respondeu aos questionamentos da reportagem. A Fiocruz, em nota, confirmou a determinação da Saúde por contratar um voo exclusivo para as vacinas e o prejuízo de 500 mil dólares causado pela confusão. O alto custo do fretamento foi justificado pela fundação por envolver o transporte da vacina do laboratório até o aeroporto, bem como o aluguel de equipamentos para garantir a integridade das doses.

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