Justiça
Instituto de André Mendonça lucra com município que tomou prejuízo no Banco Master
O Iter, criado em 2023, firmou um contrato de R$ 1,2 milhão com um consórcio municipal liderado pelo prefeito de São Roque, cidade que apostou alto no banco de Daniel Vorcaro
André Mendonça tomou posse no Supremo Tribunal Federal no fim de 2021. Dois anos depois, criou o Iter, um instituto para lucrar com atividades educacionais.
O maior contrato já firmado pela entidade com o setor público foi assinado por um personagem que aparece em outra ponta dessa história: o prefeito de uma das cidades brasleiras que mais investiram no Banco Master, hoje alvo de investigação relatada no próprio STF por Mendonça.
Este acordo, de 1,2 milhão de reais, foi celebrado em julho de 2025 com o Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo, o Cioeste, e tem validade de um ano. Pelo contrato, o Iter se compromete a oferecer cursos e palestras sobre direito e administração pública na escola de governo do consórcio.
A assinatura, pelo lado do instituto, é de Victor Godoy, último titular da Educação no governo Bolsonaro e sócio minoritário do Iter, com participação de 7,5%. Já pelo Cioeste, firmou o documento Guto Issa (PSD), o prefeito de São Roque e presidente do consórcio.
É justamente São Roque que aparece no centro da engrenagem financeira que conecta os pontos. Em 2024, o instituto de previdência municipal — o São Roque Prev — aplicou 93 milhões de reais em letras financeiras do Banco Master, um tipo de título sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. Entre as prefeituras brasileiras, apenas Maceió investiu mais: 97 milhões de reais.
Naquele mesmo ano, o banco enfrentava um “agravamento do risco de liquidez” e já não conseguia rolar integralmente suas dívidas, segundo relatório do Banco Central de outubro de 2025.
Um mês antes, a autoridade monetária havia decretado a liquidação da instituição, enquanto a Polícia Federal prendia, pela primeira vez, o banqueiro Daniel Vorcaro. Com a quebra, investidores só recuperaram valores de até 250 mil reais — quando cobertos pelo FGC. Aplicações acima desse limite ou fora da garantia, como as de São Roque, resultaram em prejuízo.
Em janeiro deste ano, um morador entrou com ação popular contra o São Roque Prev, seus gestores, o banco, Vorcaro e o próprio prefeito. O processo tramita na 1ª Vara Cível da cidade. Issa sustenta que não tinha ingerência sobre a entidade previdenciária.
CartaCapital questionou André Mendonça, via assessoria de imprensa do Supremo, sobre a situação de relatar inquérito sobre o Master e ser sócio de um instituto (ele e a esposa possuem 77,5% do Iter) financiado por uma prefeitura (o Cioeste é mantido com verba dos membros) que tentou ajudar a socorrer o banco liquidado. Não houve resposta.
Desde a criação, o Iter firmou 54 contratos com órgãos públicos, somando 4,7 milhões de reais. O segundo maior, depois do acordo com o Cioeste, foi com a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas: 466 mil reais.
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