Guedes cobra que BC acelere alta de juros e segue cartilha de Bolsonaro ao negar culpa pela inflação

'Está subindo no mundo inteiro', disse o ministro da Economia; ele pediu que o Copom 'corra um pouquinho mais com o juro'

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

Economia,Política

O ministro da Economia, Paulo Guedes, defendeu nesta sexta-feira 22 a aceleração do aumento dos juros pelo Banco Central. O Comitê de Política Monetária do BC elevou a taxa básica, a Selic, nas últimas quatro reuniões.

“Quando eu saí para ir aos Estados Unidos, o fiscal estava super arrumado. Se a inflação está subindo, vamos ficar na frente da curva, vamos correr atrás”, disse Guedes, em Brasília. “Se o fiscal piorou um pouco – eu voltei e o fiscal piorou um pouco -, então tem que correr um pouquinho mais com o juro também”.

 

 

O último anúncio do Copom veio no dia 22 de setembro, quando elevou a Selic de 5,25% para 6,25%. O índice é o mais alto desde julho de 2019. Um novo aumento deve ser anunciado nos próximos dias.

Em nota, o Copom informou em setembro que “antevê outro ajuste da mesma magnitude” — ou seja, de um ponto percentual — a ser definido na próxima reunião.

Nesta sexta, Guedes disse que “toda vez que tiver aumento localizado, comida, material de construção, é temporário”.

“Agora, está ficando generalizado, está subindo tudo? Todo mundo tem de olhar para o BC”. Ao comentar o avanço da inflação, seguiu a cartilha do presidente Jair Bolsonaro, ao apontar o cenário externo e se eximir de qualquer responsabilidade.

“Está subindo no mundo inteiro. Nos Estados Unidos era 0% foi para 5%, na Alemanha era 0% foi para 5%, no Brasil era 4% foi para 9%, era 5% foi para 10%”.

Teto de vidro?

As declarações ocorreram durante entrevista coletiva na capital federal. Bolsonaro esteve presente e tentou demonstrar confiança em Guedes, em meio a uma debandada na economia e a discussões sobre o teto de gastos.

Na quinta-feira 21, a Economia sofreu quatro baixas. A principal delas é a exoneração do secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal. Também pediram demissão Jeferson Bittencourt (secretário do Tesouro Nacional), Gildenora Dantas (secretária especial adjunta do Tesouro e Orçamento) e Rafael Araújo (secretário-adjunto do Tesouro Nacional).

Nesta sexta, o novo secretário de Tesouro e Orçamento, Esteves Colnago, escolheu Paulo Valle para o posto de secretário do Tesouro Nacional.

Guedes também discursou, respondeu a perguntas de jornalistas e aproveitou a oportunidade para defender a criação do Auxílio Brasil de 400 reais, programa visto como prioritário para a campanha de Bolsonaro à reeleição no ano que vem, e garantiu que não deixará o cargo. “Em qualquer momento pedi demissão, e em qualquer momento o presidente insinuou qualquer coisa semelhante”.

O ex-capitão buscou, mais uma vez, se afastar de qualquer responsabilidade pela crise econômica que o País enfrenta. Afirmou que os problemas se devem a um legado das medidas de distanciamento social aplicadas por estados e municípios para frear a pandemia.

Segundo Bolsonaro, o Brasil “é um dos países que, na economia, menos estão sofrendo”, mas o governo considera necessário acolher “uma massa de pessoas mais necessitadas”. Por isso, o benefício médio do novo programa seria superior ao que a equipe econômica pleiteava. Ele também voltou a afirmar que o governo bancará um auxílio para caminhoneiros, ante a alta do diesel.

“A Petrobras é auditada, fiscalizada por quase uma dezena de órgãos. Não existe da nossa parte o congelamento de preços, porque as consequências são piores que o aumento em si. Estamos na iminência de ter mais um reajuste no combustível, e quando vai para o diesel sabemos que influencia diretamente na inflação”, disse Bolsonaro, sem fornecer detalhes. “Foi decidido então um auxílio aos mesmos, que ficará em menos de 4 bilhões por ano, também previsto no Orçamento”.

Em seu pronunciamento, Guedes voltou a lamentar o fato de a Reforma do Imposto de Renda defendida pelo governo não avançar no Senado e cobrou a aprovação, pelo Congresso Nacional, da PEC dos Precatórios. O ministro também criticou o “barulho” em torno da discussão sobre o teto de gastos.

“Eu dizia que só tínhamos espaço no teto para 300. O Brasil vai crescer mais que as previsões para o ano que vem. Mas, enquanto isso, a política começa a sacudir. Tem uma ala política que pede auxílio de 500, 600, 700, e uma ala econômica que fala que só temos teto até 300. Ora, deve haver uma linha do meio”, alegou Guedes. Segundo ele, o responsável por “traçar a linha” é Bolsonaro.

“Como o Imposto de Renda não avançou no Senado, perdemos a fonte. Não tínhamos o dinheiro para pagar aqueles 300. Mas o presidente chamou a atenção da equipe toda de ministros e disse que precisava de uma fonte para um programa permanente, mas não pode ser um programa temporário? Então criamos um conceito: vamos dar 400 reais, pelo menos, para cada família, e ampliar a base de 14 milhões para 17 milhões de famílias”.

Guedes ainda declarou que houve “colapso de comunicação nossa e uma certa falta de boa vontade e tolerância conosco”. Para ele, o governo “tem sofrido com isso”.

 

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