Política
General Ramos nega golpe, mas manda recado: “Não estica a corda”
O chefe da Secretaria de Governo diz que não há motivos para um impeachment do presidente Bolsonaro e anuncia sua passagem para a reserva
O general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Secretaria de Governo do presidente Jair Bolsonaro, negou a possibilidade de uma intervenção militar no País, mas deu um recado à oposição: “Não estica a corda”. A declaração foi dada em entrevista à revista Veja.
“Fui instrutor da academia por vários anos e vi várias turmas se formar lá, que me conhecem e eu os conheço até hoje. Esses ex-cadetes atualmente estão comandando unidades no Exército. Ou seja, eles têm tropas nas mãos. Para eles, é ultrajante e ofensivo dizer que as Forças Armadas, em particular o Exército, vão dar golpe, que as Forças Armadas vão quebrar o regime democrático. O próprio presidente nunca pregou o golpe. Agora o outro lado tem de entender também o seguinte: não estica a corda”.
Ramos ainda criticou o julgamento da chapa Bolsonaro-Mourão que ocorre no Tribunal Superior Eleitoral e atrelou viés político à investigação, chamando-o de “julgamento casuístico”. “Um julgamento do Tribunal Superior Eleitoral que não seja justo. Dizem que havia muitas provas na chapa de Dilma e Temer. Mesmo assim, os ministros consideraram que a chapa era legítima. Não estou questionando a decisão do TSE. Mas, querendo ou não, ela tem viés político.”
Também não se disse preocupado com as manifestações das ruas contra o presidente Bolsonaro, mas criticou a presença dos grupos antifascistas, que associou aos black blocks e autoritarismo. “A rua não tem dono. Também há manifestações em favor do Bolsonaro. Só há uma coisa que me incomoda e me desperta atenção. Um movimento democrático usando roupa preta. Isso me lembra muito autoritarismo e black blocs. Quando falo em democracia, a primeira coisa que me vem à mente é usar as cores da minha bandeira, verde e amarelo. No domingo, fiquei disfarçado no gramado em frente ao Congresso observando o pessoal. Eles não usavam vermelho para não pegar mal. Mas me pareceu que eram petistas”, disse.
Ramos tem acompanhado o presidente Jair Bolsonaro em manifestações ao seu favor, inclusive participou de um ato, no mês passado, na frente do Palácio do Planalto, em que manifestantes atacavam o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, mas justificou estar apenas como observador. “Fui muito criticado no dia seguinte, inclusive pelos meus companheiros de farda. Não me sinto bem. Não tenho direito de estar aqui como ministro e haver qualquer leitura equivocada de que estou aqui como Exército ou como general. Por isso, já conversei com o ministro da Defesa e com o comandante do Exército. Devo pedir para ir para a reserva. Estou tomando essa decisão porque acredito que o governo deu certo e vai dar certo. O meu coração e o sentimento querem que eu esteja aqui com o presidente.”
Sobre o conflito entre o governo e as instituições, caso do Supremo Tribunal Federal, o general afirmou existir um ambiente de histeria que precisa ser superado e criticou ações da Corte, por exemplo, a do ministro Celso de Mello, relator do inquérito que investiga suposta interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, de fazê-lo depor “debaixo de vara”. Também criticou a mensagem de WhatsApp vazada em que o ministro comparou o presidente Bolsonaro ao Hitler e os seus seguidores a nazistas. “Isso contribui para o clima de diálogo e para buscar uma harmonia entre os poderes? Acredito que não. Aí, o presidente sobe no cavalo e todo mundo critica. São sinais trocados. É preciso superar esse ambiente de histeria”, acrescentou.
O general ainda elogiou as ações de enfrentamento à pandemia feitas pelo governo e disse que os maiores problemas têm sido encontrados em São Paulo e Rio de Janeiro. “Esse trabalho também tem ido muito bem. Temos problemas basicamente em dois estados, São Paulo e Rio de Janeiro. O presidente nunca teve maiores embates com a Fátima Bezerra, do PT, ou com o Flávio Dino, do PCdoB. A leitura do presidente é que os governos de São Paulo e do Rio de Janeiro politizaram uma questão sanitária. O Doria disse que o Brasil enfrenta o “bolsonarovírus”. O presidente é ser humano. Ele contra-ataca.”
Ainda disse que há esperanças de que as coisas vão se acertar, com projeções otimistas para daqui um mês. “Tenho esperança de que as coisas vão se acertar. A covid-19 está passando. Isso é perceptível na Itália e na França. Isso vai acontecer com o Brasil. Essa OMS… É inegável que a OMS foi usada politicamente.”
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Depois de anos bicudos, voltamos a um Brasil minimamente normal. Este novo normal, contudo, segue repleto de incertezas. A ameaça bolsonarista persiste e os apetites do mercado e do Congresso continuam a pressionar o governo. Lá fora, o avanço global da extrema-direita e a brutalidade em Gaza e na Ucrânia arriscam implodir os frágeis alicerces da governança mundial.
CartaCapital não tem o apoio de bancos e fundações. Sobrevive, unicamente, da venda de anúncios e projetos e das contribuições de seus leitores. E seu apoio, leitor, é cada vez mais fundamental.
Não deixe a Carta parar. Se você valoriza o bom jornalismo, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal da revista ou contribua com o quanto puder.



