Política
Fim das convenções consolida o isolamento de Caiado no Nordeste
A autonomia dada pelo PSD a diretórios estaduais resultou em palanques divididos entre Lula e candidaturas neutras
O fim das convenções partidárias, nesta quarta-feira 5, consolidou um dos principais entraves da candidatura presidencial de Ronaldo Caiado (PSD). O ex-governador de Goiás chegará ao início da campanha ao Palácio do Planalto, no próximo dia 15, sem um palanque unificado do partido no Nordeste, região onde o presidente Lula (PT) concentra uma maior vantagem eleitoral.
Embora tenha lançado Caiado à Presidência, o PSD optou por dar liberdade aos diretórios estaduais para definir seus próprios arranjos. O resultado foi um mosaico de alianças que, na prática, fortalece candidatos de diferentes campos políticos e limita a capacidade do presidenciável de transformar a força regional do partido em um ativo para a disputa nacional.
O cenário vai além dos estados em que a sigla apoia diretamente candidatos alinhados a Lula. Mesmo onde o PSD encabeça chapas competitivas, Caiado não conseguiu transformar as candidaturas em palanques para sua campanha.
Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri confirmou apoio a Lula durante a convenção que oficializou sua candidatura à reeleição, na tarde desta quarta-feira. Caiado sequer foi citado nos discursos, enquanto a identidade visual do evento trazia referências ao chefe do Executivo federal e ao chamado “time de Lula” – composto ainda pelo senador Rogério Carvalho, que vai à reeleição, e pelo ex-deputado federal André Moura (União), um dos artífices do impeachment de Dilma Rousseff em 2016.
Raquel Lyra, que vai à reeleição em Pernambuco, também evita acenos à candidatura de Caiado, mantendo a estratégia de neutralidade na disputa presidencial. Ex-tucana, a governadora se filiou ao PSD em março do ano passado e tenta preservar a boa relação construída com Lula durante o mandato para se sobressair na disputa contra João Campos (PSB), que também é próximo do petista.
No Maranhão, onde o PSD disputa o governo com o ex-prefeito de São Luís, Eduardo Braide, a campanha também ficará desvinculada da corrida ao Planalto. À reportagem, um interlocutor de Braide disse que ele “não fechou com ninguém e não vai fechar”, estratégia adotada após fracassar a tentativa de construir uma aliança com o PT, que lançará Felipe Camarão ao governo. O ex-prefeito, no entanto, dividirá o palanque com apoiadores do petista e do bolsonarismo. Disputarão o Senado o ex-ministro do Esporte no governo Lula André Fufuca (PP) e o ex-prefeito de São Pedro dos Crentes Lahesio Bonfim (Novo).
Nos demais estados nordestinos, o PSD de Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Caiado, aparece majoritariamente ao lado de candidatos apoiados por Lula. Na Bahia, integra a coligação do governador Jerônimo Rodrigues (PT). No Rio Grande do Norte, apoia o prefeito de Mossoró, Alysson Bezerra (União Brasil), principal adversário do PT no estado.
Em parte dessas alianças, a legenda também ocupa espaço nas chapas majoritárias. No Piauí, além de apoiar a reeleição de Rafael Fonteles (PT), indicou o candidato ao Senado. No Ceará, compõe a chapa do governador Elmano de Freitas (PT) com a candidata a vice-governadora. Na Paraíba, indicou o candidato a vice na chapa do prefeito Cícero Lucena (MDB). Em Alagoas, apoia a candidatura do ex-ministro dos Transportes de Lula, Renan Filho (MDB).
O retrato nordestino reforça uma dificuldade que Caiado já enfrentava em outros colégios eleitorais. No Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes (PSD) declarou apoio à candidatura de Lula. Em Minas Gerais, o governador Mateus Simões (PSD) permanece vinculado ao projeto nacional de Romeu Zema (Novo). Em São Paulo, o principal aliado do partido, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), endossa o voo do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).
ACM Neto e Ciro Gomes
Se, por um lado, Caiado não conseguiu unificar o próprio partido em torno de sua candidatura no Nordeste, por outro, seu nome é visto como uma alternativa política por candidatos da oposição em estados historicamente petistas.
Na Bahia e no Ceará, por exemplo, ACM Neto (União Brasil) e Ciro Gomes (PSDB) cogitam declarar apoio ao presidenciável do PSD por avaliarem que seu nome permite diluir a polarização nacional. Apesar de figurar em quarto lugar nas pesquisas de intenção de votos mais recentes, a avaliação de interlocutores das duas campanhas é que o ex-governador de Goiás ocupa um espaço de centro-direita capaz de acomodar aliados com preferências presidenciais distintas, preservando o foco das campanhas nas disputas locais.
Entra nesse cálculo ainda o baixo nível de conhecimento de Caiado entre os eleitores nordestinos que, conforme essa avaliação, também reduziria o custo eleitoral de uma associação explícita ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que enfrenta maior resistência no eleitorado da região.
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