Feminismo, HIV, armas, ditadura: as questões do Enem vetadas pelo governo em 2019

A revista 'piauí' teve acesso a documentos que indicam o que desagradou o governo. Censores alegaram ‘polêmica desnecessária’

 Foto: Marcelo Casall Jr./Agência Brasil

Foto: Marcelo Casall Jr./Agência Brasil

Política

Em 2019, uma comissão montada pelo governo Bolsonaro para avaliar as questões aplicadas no Enem excluiu 66 perguntas sem consultar a equipe técnica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep. 

Dois anos depois, a revista piauí teve acesso às justificativas dessas intervenções. A maior parte das perguntas, segundo a revista, foi censurada por provocar “polêmica desnecessária”. 

Ao todo 28 perguntas foram excluídas e substituídas. Entre elas estavam questões sobre gravidez na adolescência, feminismo, religião e o contexto político e social dos últimos anos do Brasil. Também foram censuradas seis perguntas sobre o período ditatorial militar brasileiro. No parecer da comissão governamental alegou “descontextualização histórica do texto” para a maior parte dos itens.

As informações constam documento no qual integrantes do Inep podiam a reinclusão de parte das questões censuradas.

Reunidos ao longo de dez dias em março de 2019, os integrantes usaram carimbos de “sim” e “não” para aprovar ou rejeitar questões. As justificativas constam em uma planilha de Excel, que não explicita os motivos para as escolhas, tampouco o que seria a “polêmica desnecessária” alegada pelo grupo censor.

A comissão foi criada pelo então presidente do Inep, Marcus Vinícius Rodrigues, atendendo um pedido do presidente Jair Bolsonaro. O grupo era composto por um procurador de Justiça, um diretor do Inep e um ex-aluno de Ricardo Vélez Rodríguez, então ministro da Educação. 

O que mais incomodou o governo

Entre as perguntas banidas estava uma que se baseada num poema de Paulo Leminski que falava sobre o período militar e outra que citava a letra de uma música escrita por Chico Buarque. No relatório dos censores a explicação pela desaprovação constava “Leitura direcionada da história / Sugere-se substituir ditadura por regime militar”.

Ao excluir uma questão na prova de matemática, os censores disseram que o item “gera polêmica desnecessária em relação à ideia de casal”.

Outra questão excluída tratava sobre os cuidados com relação ao vírus HIV e afirmava que o uso da camisinha é “o meio de prevenção mais barato e eficaz” contra a Aids. A justificativa do grupo do governo apontava “gerar polêmica desnecessária/ direcionamento do controle de saúde”.

 Ainda na prova de ciências da natureza, outra pergunta que questionava sobre a proliferação de doenças foi sinalizada pelo grupo censor. 

O tema era a transmissão de hanseníase no sistema prisional no Brasil devido à superlotação e às condições precárias em que vivem os presos. “Gera polêmica desnecessária em relação ao sistema penal”, disse a comissão na justificativa. 

A comissão calibrou a prova para que os temas tratados fossem fieis ao pensamento do presidente Bolsonaro. 

Três questões sobre “conflitos sociais” foram retiradas com a justificativa de que faziam “leitura direcionada da história”. Essa mesma frase foi usada para censurar 19 itens.

Todas as perguntas que discutiam o feminismo também foram excluídas da prova, assim como um item que debatia a maioridade penal. Em 2019, o presidente enviou ao Senado um projeto que previa a redução da maioridade penal para crimes hediondos. 

Perguntas sobre armas de fogo também foram retiradas da prova. Segundo os servidores, o item discutia o risco existente “em ambientes domésticos em que há a possibilidade de acesso à arma por crianças”. No entanto, a comissão de censura baniu a questão sob a justificativa padrão: “polêmica desnecessária”.

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Repórter do site de CartaCapital

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