Política

Falso relatório sobre mortes por Covid foi alterado após chegar a Bolsonaro, diz auditor do TCU

Alexandre Marques alega que o documento foi manipulado para parecer oficial depois que seu pai o encaminhou ao presidente

O auditor do TCU, Alexandre Marques.

Foto: Pedro França/Agência Senado
O auditor do TCU, Alexandre Marques. Foto: Pedro França/Agência Senado

O auditor do Tribunal de Contas da União Alexandre Marques afirmou que o documento em que indica um suposto superdimensionamento de mortes por Covid-19 não pertence à Corte e foi alterado para parecer oficial após chegar às mãos de Jair Bolsonaro.

A declaração foi dada em depoimento prestado a uma comissão interna do tribunal que apura os desvios de conduta do auditor e confirmada à CPI da Covid. A informação é do jornal Folha de S. Paulo.

Aos colegas de TCU, Marques informou que produziu um arquivo no Word de apenas duas páginas, sem qualquer timbre do órgão, assinatura ou caráter oficial. O documento seria usado por ele para ‘promover um debate’ no Tribunal sobre um possível superdimensionamento das mortes na pandemia, no dia 31 de maio. De acordo com o servidor, a equipe técnica do TCU, porém, deu o assunto por encerrado e concluiu que seria impossível um ‘conluio’ para inflar os registros de óbitos por Covid-19.

O auditor afirma, então, ter repassado o arquivo aberto ao pai, Ricardo Silva Marques, que é coronel da reserva do Exército e foi colega de Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras. Ricardo ocupa um cargo de gerente na Petrobras por indicação do presidente. Por WhatsApp, o pai de Alexandre encaminhou o documento ao mandatário, quando o arquivo passou a ser manipulado para dar a impressão de ter sido produzido pelo TCU.

“Em nenhum momento passou pela minha cabeça que ele compartilharia o arquivo com quem quer que fosse”, disse à CPI o auditor, que negou ter recebido qualquer vantagem para produzir o documento. Assim como o pai, Marques chegou a ser indicado por Bolsonaro para ocupar um cargo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, mas sua nomeação foi barrada pelo TCU.

O arquivo manipulado passou a ser usado pelo presidente como uma suposta comprovação de que governadores e prefeitos estariam superdimensionando as mortes por Covid-19 para receber um valor maior de repasses da Saúde. A primeira menção de Bolsonaro ao relatório foi em 7 de junho, durante contato com apoiadores no ‘cercadinho’ do Palácio da Alvorada. Na ocasião, disse ter em mãos um suposto ‘estudo’ do TCU que indicaria que 50% das mortes por Covid-19 em 2020 teriam, na verdade, outras causas.

Naquele mesmo dia, o TCU desmentiu o presidente e informou que o documento não passava de uma análise pessoal feita pelo servidor. Marques confirmou a versão da entidade e disse que apenas realizou uma pesquisa na internet e verificou que as declarações de óbito poderiam gerar inconsistências nas notificações, informação negada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, na comissão do Senado.

O próprio Jair Bolsonaro, em uma transmissão ao vivo nos seus perfis nas redes sociais, confirmou que o ‘estudo’ mencionado não se tratava de um documento oficial do TCU, mas de um arquivo produzido por ‘ele mesmo’.

“Errei quando falei do TCU, a tabela foi feita por mim. Me desculpa aí o TCU, errei, a tabela foi feita por mim”, afirmou o presidente durante live, indicando de fato ter manipulado o arquivo. O trecho foi exibido pelo vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), durante a oitiva de Marques.

Confira na transmissão, a partir de 1 hora e 23 minutos:

(Com informações da Agência Estado)

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