Política

Ex-assessor de Flávio Bolsonaro diz que era obrigado a devolver 80% do salário e até 13º

Marcelo Luiz Nogueira diz que, por mais de quatro anos, fez parte de um esquema operado por Ana Cristina, ex-esposa de Jair Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
O senador Flávio Bolsonaro. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Um ex-assessor do antigo gabinete de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro afirmou que era obrigado a devolver mensalmente 80% do seu salário ao político, que hoje é senador. O funcionário fez parte do esquema de ‘rachadinha’ entre 2003 e 2007, mas afirma que a prática seguiu depois de sua saída.

Em entrevista ao UOL, publicada nesta sexta-feira 3, Marcelo Luiz Nogueira dos Santos contou ainda que o reparte incluía também seu 13º salário, férias e parte do vale-alimentação e até da restituição do imposto de renda.

Segundo Nogueira, os repasses eram feitos em dinheiro vivo e recolhidos diretamente por Ana Cristina Siqueira Valle, esposa de Jair Bolsonaro, à época, e mãe de Jair Renan, ‘filho 04’ do presidente. Ana já foi apontada como operadora do esquema em outros depoimentos. Recentemente se mudou com o filho para uma mansão de 3 milhões de reais em Brasília, cujos custos mensais são mais que o dobro do seu rendimento.

Além do depoimento, é possível confirmar saques mensais na quebra de sigilo bancário de Nogueira, autorizada no âmbito da investigação contra Flávio Bolsonaro. Registros apontam saques de mais de mil reais por mês durante o período em que atuou no gabinete.

 

Ele foi funcionário do gabinete de fevereiro de 2003 a agosto de 2007 e afirma ter repassado 80% dos ganhos mensais durante todo este período. Seu salário inicial era de pouco mais de 1,7 mil reais, mas em pouco tempo superou os 4,4 mil. Ao todo, ele recebeu 176 mil reais durante os quatro anos e diz ter devolvido 80% de tudo ao político. Em valores atualizados, o montante é de mais de 380 mil reais.

Ainda segundo Nogueira, os demais funcionários também eram obrigados a fazer o mesmo. “Nós fomos abordados por ela [Ana] para isso”, conta.

“Quando eu aceitei a situação, eu tava desempregado, nunca tinha recebido o valor que propôs na época, desempregado, eu vivia sozinho, pra mim, o que eu devolvia, eu nunca tinha ganho aquilo ali, o que ficava pra mim já era muito, pra época era bastante, entendeu, então eu aceitei, entendeu?”, explicou.

O ex-assessor informou também que o mesmo esquema ocorria no gabinete de Carlos Bolsonaro, outro filho do presidente. Na ocasião, Carlos estava em seu primeiro mandato como vereador no Rio de Janeiro e Ana Cristina era sua chefe de gabinete.

Os dois são investigados pelo esquema de rachadinha e funcionários fantasmas. Carlos teve o sigilo bancário e fiscal quebrados nesta semana no âmbito da investigação. Os dados apontam que com um salário de apenas 4,5 mil, o vereador comprou um apartamento de 150 mil reais em dinheiro na Barra da Tijuca. O caso teria ocorrido em 2003, ano em que Nogueira conta ter sido integrado ao esquema.

Nogueira, no entanto, alega que apesar de ter devolvido os valores, não era funcionário fantasma. Conforme contou, batia ponto e cumpria as demandas de assessor parlamentar. Ele confirma, porém, que era um dos poucos a fazer isso, que a maioria dos nomeados nem ia ao gabinete, eram apenas nomeados e viviam em Resende.

“Eles não moravam em Resende? Isso é mais que testemunhado. A vida deles sempre foi em Resende. Se puxarem lá…como é que eles iam ir para o Rio todo dia e voltar. Nem precisa perguntar isso. É só parar e pensar”, respondeu ao ser questionado sobre os parentes de Ana Cristina nomeados nos gabinetes. No total, 17 parentes dela foram funcionários de Flávio e de Carlos.

O homem relata ainda que o esquema continuou depois de sua saída. Na entrevista ele afirma que morou nos últimos cinco anos com Ana Cristina, em Resende, no Rio de Janeiro, e foi convidado novamente a fazer parte do esquema, dessa vez em Brasília, onde a advogada é assessora parlamentar no gabinete da deputada federal Celina Leão (PP-DF).

Ana Cristina, no entanto, não repassou valores combinados com Nogueira, o que motivou o ‘rompimento entre os dois’. Segundo ele, a ex-esposa de Bolsonaro o que fazer de escravo em Brasília.

“Ela falava ‘você tá fazendo questão, mas não vai ter nem gasto, vai tá morando na minha casa.’ Eu falava que ‘não sou seu escravo não, não trabalho pra morar na casa de ninguém não”, relatou, destacando que considera ter sido vítima de racismo no esquema proposto. “Ela queria me escravizar, né? Ela me viu como o quê? Só porque eu era preto”, acrescentou.

Depois da desavença, Nogueira buscou o Ministério Público do Trabalho onde denunciou Ana Cristina e diz que pretende entrar na Justiça por danos morais.

Além do relato do ex-assessor, Luiza Sousa Paes confirmou as mesmas informações em depoimento prestado ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Luiza foi nomeada no gabinete de Flávio em 2011 e conta que ficava com apenas 700 reais do salário de mais de 5 mil reais. O restante era devolvido em dinheiro a Fabrício Queiroz, outro operador do esquema. Diferentemente de Nogueira, Luiza afirma ter sido funcionária fantasma.

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