Política

Estudante que enfrentou Bolsonaro já chegou a simpatizar com o ex-capitão: ‘Me arrependo amargamente’

A jovem Hadassa Gomes conta ter sido coagida pelos apoiadores do presidente e por sua equipe de segurança enquanto esteve no cercadinho, em Brasília

A estudante Hadassa Gomes chamou Bolsonaro de 'farsa'. Créditos: Reprodução
A estudante Hadassa Gomes chamou Bolsonaro de 'farsa'. Créditos: Reprodução
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Na segunda-feira 24, o nome de uma jovem estudante de 19 anos ganhou projeção nacional. Hadassa Gomes protagonizou uma cena de enfrentamento ao presidente Jair Bolsonaro, no cercadinho do Palácio da Alvorada, chamando-o de ‘farsa’.

A jovem, que mora no interior de São Paulo e passava férias com a família em Brasília, falou à CartaCapital sobre o episódio. Antes simpatizante de Bolsonaro, ela agora se arrepende do apoio ao ex-capitão.

“Eu não votei na época que ele se candidatou, mas eu gostava dele. Hoje eu me arrependo amargamente, obviamente. Eu conheci política bem naquela época que ele vinha ganhando evidência. Em 2016 que eu comecei a acompanhar, tinha 14, 13 anos, e comecei a acompanhar como alguém que não sabia nada, eu não tinha noção nenhuma”, diz.

E acrescenta: “A visão que eu tinha, de uma adolescente que não sabia nada de política, era aquela sujeira, então política é suja, tudo sujo. E quando vi ele falando daquela maneira que passa um tom de honestidade, eu acreditei que ele realmente era uma exceção dentro da sujeira e acabei entrando na narrativa de que existe todo um sistema e ele era o pilar de honestidade ali, o único que se levantava contra a corrupção.”

O descontentamento da jovem com Bolsonaro se cristalizou em 2020, com a chegada da pandemia. Hadassa perdeu conhecidos para a Covid-19.

“Eu já não era aquela menina que confiava que ele era um político honesto, mas o que me fez ter uma revolta com ele foi a pandemia. Quando eu ligava a TV e via todas aquelas declarações dele, ficava revoltada. Me sentia muito impotente por estar presa em casa, assistindo.”

Evangélica, Hadassa também questiona a forma como Bolsonaro se apropria de passagens e figuras bíblicas e acredita que o presidente usa a religião em prol de seu projeto de poder.

“Infelizmente tem esse lado da igreja evangélica que eu repudio completamente, porque não dá pra ver Cristo ali, não dá pra ver os valores que eu aprendi, sabe? Não dá pra ver o que eu acredito. Essas pessoas muitas vezes usam o mesmo nome que eu, vão em igrejas que eu admiro e gosto, mas não tem nada a ver, quando elas abrem a boca é só sobre poder, dinheiro, sobre uma guerra que não existe, não é sobre isso. Acho que ele [Bolsonaro] é uma parte desse projeto evangélico que eu, como seguidora de Jesus, não concordo, não vejo Jesus nisso, só vejo realmente interesse político”.

Violência e fake news

A estudante contou também à reportagem que se sentiu coagida pelos apoiadores do presidente Bolsonaro e pelos seguranças do mandatário, que a retiraram do local e exigiram que ela apagasse os registros que fez em vídeo, sob o risco de não a deixarem sair do local.

“Quando eu faço a última pergunta que deu pra fazer, o segurança bate no meu celular, e desliga o vídeo, sozinho. Nessa, eles estavam me empurrando com a força do corpo deles para o gramado, em volta do cercadinho. Estavam me empurrando, me fechando, me impedindo de me locomover para onde eu quisesse. Eles tentavam pegar da minha mão o celular, à força, vinham por trás, só que eu prendi no meu corpo e falei não. E eles ficavam falando assim, você só vai sair daqui com os vídeos apagados, você tem que apagar”, relatou.

A estudante contou que só conseguiu sair das imediações do cercadinho quando fingiu ter apagado o vídeo, que já tinha sido enviado e salvo em um aplicativo de mensagens. Hadassa ainda ouviu de seguranças de Bolsonaro que está proibida de voltar ao Palácio da Alvorada.

“Eles pegaram meu RG, CPF, tiraram foto e mandaram eu sair e falaram que estou proibida de voltar no Palácio da Alvorada”.

Ela ainda rechaça as fake news que surgiram após o episódio e as ondas de ataques virtuais protagonizados por apoiadores do presidente em suas redes sociais.

Então, primeiro veio uma chuva de pessoas que realmente apoiaram, de todos os lados políticos, que gostaram, se sentiram representadas de alguma forma e entenderam que era uma cidadã qualquer ali, sabe, falando o que pensa. Só que depois, à noite, começaram a chegar umas mensagens mais pesadas, pessoas me pressionando para mostrar meu rosto”, contou a estudante, que afirmou que tomará providências jurídicas diante ameaças.

“Também já vi muita fakenews de que o PT teria me colocado lá, de que eu seria filiada ao partido, e que o Movimento Brasil Livre (MBL) pagou para eu estar lá. Muita coisa sem sentido”, criticou.

Eleições 2022

Estreante como eleitora em 2022, Hadassa não se vê representada pelos primeiros colocados nas pesquisas eleitorais, Lula e Bolsonaro, e diz acreditar em um nome de terceira via. Para a estudante, o episódio junto a Bolsonaro serviu para mostrar o poder popular.

“Eu me senti muito impotente durante todo esse governo Bolsonaro, porque eu via muito absurdo. Só que eu olhava pra mim e pensava, nossa, é só uma estudante qualquer, lá do interior de São Paulo, que não pode mudar nada. E realmente, minha atitude não mudou o rumo do Brasil. Mas com certeza foi uma coisinha assim que incomodou o presidente, que inspirou outra pessoa de ir lá, sabe? É de coisinha em coisinha que vai criando um clima de não deixar político agir como Deus.”

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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