Política

Entenda os motivos do racha entre bolsonaristas e a ‘velha guarda’ do PL

A divisão dentro do PL cresce, revelando diferenças ideológicas e estratégicas. Quem vencerá a batalha interna?

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Pouco tempo antes da votação da reforma tributária proposta de Lula, indícios de um racha de grandes proporções emergiram no PL. Sem consenso sobre a posição do partido, Valdemar Costa Neto convocou uma reunião para “fechar questão”. 

No encontro, enquanto Jair Bolsonaro (PL), presidente de honra do partido, pedia que votos contra. O governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), a favor – defendia que a direita precisava se apropriasse a narrativa da reforma. Terminou vaiado pelos filiados do PL. 

Após a votação, os deputados do partido trocaram insultos em um grupo de WhatsApp, com 20 dos 99 deputados da legenda votando a favor da mudança. Alguns parlamentares a favor chegaram a considerar a saída do partido, mantendo seus cargos.

Entre os xingamentos e acusações feitas pelos parlamentares, foram usadas expressões como “comunistas” e “extremistas”. Alguns compararam a legenda ao PSL, antigo partido de Jair Bolsonaro, de onde migraram vários filiados hoje do PL.

Os desentendimentos mostram a existência de duas alas muito distintas do partido. Enquanto a ala nacional tem um perfil mais pragmático, a ala bolsonarista segue a cartilha ideológica da extrema-direita. 

Para o cientista político Jorge Chaloub, um dos lados aposta na figura de Costa Neto como articulador político. Já a outra está organizada na figura de Bolsonaro. 

“Um desses setores do partido é um setor que já vinha construindo uma legenda vinculada a figura do Valdemar, figuras que veem no Valdemar um tipo de articulador ou um parceiro para atuar nacionalmente no Congresso”, explica. “E um outro grupo que entrou muito organizado na figura do Bolsonaro, que a gente pode chamar, de uma maneira mais precisa, de bolsonarista mesmo.”

Na visão dos pragmáticos, a chegada de bolsonaristas da legenda trouxe mais robustez e recursos para a sigla, resultando na votação expressiva no último pleito. Por isso, o grupo precisará ser “tolerado” até, pelo menos, as próximas eleições. 

Já os bolsonaristas fazem pressão para a sigla “consolidar-se como o maior partido conservador, de direita, de oposição no Brasil”, nas palavras de Carlos Jordy, integrante da ala mais extremista da legenda.

O receio, agora, é que as eventuais divergências possam refletir em uma debandada de parlamentares. E há indícios nesse sentido.

Segundo interlocutores, a ala nacional traça planos para deixar a sigla após a aprovação do Orçamento de 2024. Isso porque a relatoria do Orçamente está com o deputado do PL, Luiz Carlos Motta, o que compromete qualquer movimento antes da votação.

Para tentar apaziguar as diferenças entre as alas, Costa Neto recolocou o partido como sendo de oposição e que seguirá unido “nas pautas conservadoras que a direita sempre defende”. 

Se referindo a “chegar a um bom senso”, Valdemar deixou claro aos deputados que novos episódios de fiscalização do trabalho alheio não serão tolerados. 

Ainda assim, paira o temor que o partido reedite o racha que ocorreu na antiga sigla de Jair Bolsonaro, o extinto PSL. Naquele caso, os bolsonaristas queriam o controle do partido, mas enfrentaram resistência imposta por Fernando Bivar. 

Aliados do presidente da ex-legenda apontava que Bolsonaro estava “queimando” a sigla. 

“Me parece que assim como ocorreu no PSL, esse grupo se organiza fundamentalmente como uma tropa de choque de Bolsonaro com figuras que estão agora no PL, e que vão seguindo o rastro do Bolsonaro, alguém que claramente parece não tem interesse em compor um partido”, esclareceu o cientista político. 

Para o professor, a escolha, ou a incapacidade, de Bolsonaro em criar um novo partido para si tem seus bônus e seus ônus.

Se por um lado o ex-capitão tem uma liberdade de movimentação, por outro tira de Bolsonaro poder de articulação política dentro de um partido. 

“Ele [Bolsonaro] depende da mediação do Valdemar que é de fato que controla mais diretamente o PL para operar politicamente”, disse Chaloub. 

Ainda que seja a intenção da ala bolsonarista tomar de assalto o partido, o cientista político duvida que os aliados do ex-presidente saiam vitoriosos desta batalha. 

“Me parece muito difícil que o Valdemar seja despojado do domínio do PL, da mesma maneira que ocorreu com o Luciano Bivar, no PSL. Ao fim e ao cabo, quem acabou saindo foram os bolsonaristas. Isso porque a forma de organização dos partidos torna muito difícil você tomar um partido, mesmo para alguém com tanta popularidade quando o Bolsonaro e tantos parlamentares vinculados a ele”, afirma Chaloub. 

“É muito mais provável, então, que os bolsonaristas saiam a procura de um novo partido hospedeiro, do que constam tomar a sigla de Valdemar, que está há muito tempo apostando nessa perspectiva de empresário partidário no Brasil”, completou. 

O que o governo Lula pode ganhar com isso

Diante desse cenário de racha, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve continuar na busca por ampliar sua base de apoio no Congresso, atraindo, inclusive, parlamentares da direita menos vinculados ao bolsonarismo. 

A aproximação, no entanto, é delicada devido à necessidade de equilibrar as demandas da base bolsonaristas, que ajudou o partido a formar a maior bancada da Câmara e a segunda maior do Senado, com a intenção dos parlamentares que sorriem ao governo federal. 

Na avaliação de alguns caciques do PL, o partido poderia estar prejudicando a si mesmo caso adote a postura bolsonarista, podendo causar um isolamento extremista. 

A dissidência dentro dos diretórios estaduais em que o PL fez as maiores bancadas, como São Paulo, Espírito Santo e Santa Catarina, já está na beira do colapso desde o início do ano. 

É nos estados em que a ala pragmática tem mais força e controla a maioria dos diretórios. 

No Rio, o governador reeleito Cláudio Castro (PL) entrou em rota de colisão com a cúpula da legenda em meio a acenos a Lula durante a visita do presidente ao estado ainda nos primeiros dias de mandato. 

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