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#EleNão

Opinião,Política

Afinal, o que querem as mulheres? Esta pergunta genérica não tem resposta, porque mulheres não são um monólito. Livia Barbosa, refletindo do ponto de vista gramatical sobre as interpretações da questão atribuída a Freud, aponta que a frase se monta sobre a presunção de que a condição feminina é um problema, e carrega o tom dos superiores estruturais sentindo-se pressionados por suas bases.

Esta última interpretação pode ser estendida na sugestão de David Graeber de que a recorrente chacota sobre a impossibilidade de entendimento – “como se a lógica das mulheres fosse fundamentalmente alienígena ou incompreensível” – denota a existência do que ele chama de trabalho interpretativo. Ou, no caso, de sua ausência.

Assinalando que só depois de compor seu argumento notou o quanto muito dele simplesmente reproduzia conhecimentos comuns para o feminismo, Graeber nota que participantes de relações desiguais de poder não compartilham de forma equânime nem sequer o entendimento que têm um do outro.

Sobre os oprimidos recai a necessidade por examinar seus opressores, que por sua vez podem dispensar o exercício da compreensão visto que já exercem domínio. Negligência e ignorância: eis duas faces da violência que estrutura relações de poder.

Já há alguns anos gênero vem se firmando como assunto seminal – ainda que tempestuoso – de debates políticos, e desde muito antes da polarização nacional brasileiras vêm sendo bastante vocais sobre o que querem. Mas se partirmos do que viemos indicando não querer, é evidente que a política sexual é uma chave analítica bastante potente para as eleições de 2018.

Um dos fatos políticos mais interessantes deste pleito foi o surgimento de grupos de mulheres unidas contra o candidato Jair Bolsonaro. Em poucos dias mais de 2,5 milhões aderiram a grupos no Facebook, isso sem somar nenhuma das agremiações semelhantes criadas por gentes de tantos matizes da diversidade real brasileira, ou na adesão a outras manifestações do movimento nas redes sociais – notadamente a hashtag e filtro #EleNão, dos quais até mesmo homens cis brancos heterossexuais (e antifeministas declaradas…) participam.

A chapa Bolsonaro-Mourão é assustadora, e a preocupação aumenta com a realização de que ela simplesmente reflete os desejos de tanta gente no Brasil, país onde a situação das mulheres já não é lá grande coisa – ocupamos a 5ª colocação no ranking mundial de feminicídios (Mapa da Violência), aqui uma mulher é estuprada a cada 11 minutos (Fórum Brasileiro de Segurança Pública); e nossa posição entre 190 países ranqueados por representatividade política feminina é a 152ª (União Interparlamentar). O que a popularidade desta chapa nos diz é que ela é nosso grande sintoma cultural.

Viemos manifestando nossa recusa ao candidato desde antes dele liderar as pesquisas porque reconhecemos seu machismo, entendemos os efeitos concretos da misoginia em todos os aspectos de nossas vidas, e vemos em sua encarnação como presidente a legitimação institucional da violência masculina, já tão presente em nosso cotidiano.

Assim, o que imprimiu velocidade à junção de mulheres nas redes em oposição a ele não surgiu da noite para o dia, e os dados divulgados pelo Datafolha em 17 de setembro corroboram com essa narrativa: 49% de nós o rejeita já no primeiro turno.

Todas as mulheres da minha vida – eu inclusa – têm pelo menos uma história ou vinte para contar sobre a aparente impossibilidade de os homens com quem nos relacionamos – sejam amigos, parentes, colegas ou sobretudo companheiros – entenderem (e aceitarem) qualquer intervenção de nossa parte sobre eles mesmos de forma madura e autocrítica, particularmente se o que revelamos são seus hábitos machistas e sombras misóginas. O “mimimi” que tanto projetam em nós quem faz são os homens quando não conseguem lidar com o chamado para que rompam com as fantasias que têm de si mesmos.

No Brasil recente, imerso no que venho chamando de surrealpolitik patriarcal, não raro vemos gente tentando ensinar cristianismo ao Papa, nazismo aos alemães, economia para a Economist, feminismo para mulheres, racismo para negros, educação para professores, eleições para cientistas políticos. Essa soberba narcísica pode ser situada na masculinidade: geralmente os docentes do nonsense são homens cis, heterossexuais e brancos – a propósito, grupo identitário que mais declara querer eleger Bolsonaro – criados na certeza de serem detentores da verdade e da razão.

Prestamos atenção em disputas entre esquerda/direita, civilização/barbárie, democracia/autoritarismo, e tantas outras dicotomias verdadeiramente válidas, mas nos falta enxergar como o poder patriarcal está na base de todas.

Leia também: Por que há mulheres que votam em Bolsonaro?

A masculinidade (bem como a branquitude e a heterossexualidade) quando não rompe seus pactos narcísicos (para usar o conceito de Cida Bento) é portal para o fascismo – algo que mulheres, desde pelo menos a revolução russa, vêm falando para quem quiser ouvir. Não ouviram então, e sabemos no que deu.

E a cilada é que ouvir mulheres apenas quando já é tarde demais é norma estruturante de sociedades – e psiques – fundadas no contexto violento das relações desiguais de gênero, onde o poderio ainda é masculino. Costumo falar que a primeira violência machista é a não-escuta, e este momento histórico é um caso emblemático da manifestação social disso.

É chocante, embora nada surpreendente, que agora seja esperado que alguma espécie de salvação da pátria venha pelas mãos de mulheres, e nosso valor permanece atrelado aos pagos do cuidado e da reparação, problemática revelada pela economia feminista há anos. A lógica é “Viva as mulheres por limparem a proverbial sujeira de homens que nunca as escutam!”.

Falta escuta e trabalho interpretativo onde sobra poder, e deixar o alerta de fogo para depois é luxo de quem sabe que não vai se queimar. Para a maioria das mulheres este luxo – ou privilégio – nunca nem existiu. Nem direitos garantidos temos.

Nem equiparação econômica, nem social, nem política. Os dados de violência e morte são estarrecedores, e tendem a ocorrer no âmbito privado – e ao fazermos uma análise interseccional, o abismo social que pode ser lido por indicadores para aquém e além de gênero (raça, classe, sexualidade, capacidade, para citar apenas alguns dos atravessamentos que contribuem com o alocar de identidades a corpos), fica bastante evidente quais são os corpos e identidades que já estão sob jugo e risco, e o quão fácil é os rifarmos para ainda mais marginalização violenta.

A expressão jocosa – e não por isso menos séria – do repúdio ao fascista aparece através da ideia do “Elenão”, a imaginária candidata sapatão que adentra o debate como significante de ao menos uma reivindicação constante das mulheres: o aumento da representatividade feminina na política. Por óbvio este aumento não é a única recomendação política feminista, nem sugiro que seja solução para todos as crises que viemos enfrentando. No entanto, pesquisas indicam que mais mulheres no poder se traduz em menos corrupção (Brollo e Troiano), mais participação cívica de mulheres e maior equidade de gênero (Harvard Kennedy School).

Joan Scott fala que é precisamente onde os problemas são mais intratáveis e menos passíveis de resolução que a política mais importa, e a participação das mulheres nesse âmbito ainda tem muito a crescer, em várias esferas, do trabalho de base até a participação ativa nos debates públicos, do aumento no número de candidaturas a ocupação de assentos por via de cotas ou do recurso democrático chamado voto.

A fictícia Elenão não concorre à presidência. Mas podemos – e devemos – acionar o ideal que ela representa com a eleição maciça de feministas diversas para cargos legislativos. O que queremos, afinal, são direitos fundamentais.

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É fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura.

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