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Do “kit gay” à carta aos evangélicos: candidatos miram religiosos

Política

Os presidenciáveis Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) têm feito movimentações para angariar votos dos setores religiosos ainda não considerados seus eleitores garantidos. Bolsonaro corre em direção aos católicos, enquanto Haddad tenta se aproximar, às vésperas do pleito, do eleitorado evangélico.

Segundo o Datafolha divulgado na quinta-feira 18, Bolsonaro tem 61% da preferência entre os evangélicos contra 26% de Haddad. É seu melhor desempenho entre todos os segmentos da pesquisa. Já entre os católicos, a situação é mais equilibrada. O candidato do PSL tem 46% dos eleitores contra 39% do candidato do PT.

Uma explicações para a preferência dos evangélicos é que Bolsonaro têm feito alianças com setores religiosos, principalmente das igrejas Pentecostais, desde antes do início das campanhas, estabelecendo um eleitorado fiel.

Outra causa, que atingiu altas proporções neste ano, é a propagação de notícias falsas pelas redes sociais, em especial Facebook e WhatsApp, que apelam para valores morais cristãos enquanto se apoiam no antipetismo para enfraquecer a candidatura de Haddad.

Páginas de Facebook de conteúdo religioso e de apoio ao Bolsonaro, além de mensagens circulantes no WhatsApp, relacionaram o PT e Fernando Haddad à criação do material, fato comprovadamente falso.

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Boatos como esse, que “atacam” diretamente a moral cristã e da família tradicional, encontram terreno fértil na sociedade brasileira polarizada e que consome “informações” políticas principalmente pelas redes sociais. No período eleitoral, essas informações falsas causam um pânico coletivo nos estratos mais conservadores.

O “kit gay” é exemplo claro disso. De acordo com o Google Trends, a quantidade de buscas na internet sobre o termo em setembro deste ano foi a maior já registrada.

A ferramenta de monitoramento Crowdtangle mostra o presidenciável, seu filho Carlos Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia estão entre os autores que alcançaram maior engajamento citando o “kit gay” nas redes sociais.

O termo é usado para se referir ao Escola Sem Homofobia, um cartilha que tinha como objetivo promover “valores de respeito à paz e à não-discriminação por orientação sexual” e que fazia parte do programa do governo federal “Brasil sem Homofobia”, lançado em 2004. Nada no material justifica a alcunha de “kit gay”.

Além disso, o “kit” não é distribuído. Em 2011, pressões da bancada religiosa do Congresso fizeram com que Dilma Roussef suspendesse a produção e distribuição do material.

Bolsonaro mira católicos e Haddad, evangélicos 

Na quarta-feira 17, Bolsonaro visitou o arcebispo dom Orani Tempesta, no Rio de Janeiro. De olho no voto do eleitorado católico, ele assinou um compromisso com o arcebispo. O documento exalta os valores conservadores e diz que, se eleito, Bolsonaro lutará pela “família”, a “inocência da criança em sala de aula”, além de se posicionar contra o aborto e a legalização das drogas.

O encontro ocorreu pouco depois de circularem nas redes um boato de que o presidenciável pretendia mudar a imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil para os católicos, e tirá-la deste posto em troca do apoio do líder da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo. Portais de checagem também comprovaram que a notícia é falsa.

No mesmo dia, Fernando Haddad  participou de uma reunião com representantes de igrejas evangélicas em São Paulo. Entre elas, a Presbiteriana, a Assembleia de Deus, a Batista e a Metodista.

O candidato publicou, nesta semana, uma carta aos evangélicos em uma tentativa de ganhar apoio desse eleitor. Segundo o texto, pautas importantes aos religiosos, como a legalização do aborto, o “kit gay” e a “escolha de sexo pelas crianças” não são parte de seu programa de governo.

CartaCapital ouviu o teólogo Ricardo Mariano, da USP e o cientista político Fábio Lacerda, também da USP, sobre essa corrida eleitoral atrás dos votos de cristãos e evangélicos, na reta final das eleições. Apesar dos esforços de Fernando Haddad, eles acreditam que o cenário já está consolidado dentro do estrato religioso da população e que não há perspectivas de mudança.

Carta Capital: As pesquisas recentes mostram o Bolsonaro muito forte no voto do eleitorado evangélico e um equilíbrio muito maior entre os católicos. Por que isso acontece?

Fábio Lacerda: Bolsonaro conseguiu encarnar a figura de todas as instituições brasileiras pelas quais os eleitores ainda cultivam respeito, como a família, o exército e a igreja. É um discurso pouco propositivo. Os outros programas são mais consistentes mas não encarnaram essas instituições. Além disso, ele conseguiu, ao longo dos últimos meses, encarnar a imagem do chamado “pai rigoroso”, um arquétipo do pai de família conservador, que é um “bom” para seus filhos mas que exige respeito, ordem e disciplina. Esse modelo tem tudo a ver com as igrejas.

Ricardo Mariano: Os líderes dos evangélicos conservadores aderiram em massa ao Bolsonaro. Os fiéis, em parte, fazem parte do grosso do eleitorado majoritariamente favorável ao Bolsonaro. Há uma influência nítida dos pastores evangélicos conservadores sobre parte expressiva dos fiéis.

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CC: O voto do eleitorado cristão pode ajudar a definir esse segundo turno?

FL:  A eleição já está decidida. Só um exemplo raro e improvável poderia mudá-la. De todo modo, o Haddad está fazendo uma aproximação bastante forte com os católicos e os evangélicos. Mas minha impressão é que isso vai surtir pouco efeito. O Haddad já devia ter lançado a carta aos evangélicos há muito tempo, esse esforço de aproximação aos evangélicos está fadado ao fracasso.

RM: Se a eleição tivesse apertada seria um decisivo, mas não é o caso. A distância é muito grande e ela só se ampliou após o primeiro turno. Não vejo como a candidatura petista pode reverter essa diferença.

CC: As orientações de líderes evangélicos foram decisivas nessas eleições?

FL: É difícil afirmar até que ponto elas tiveram algum efeito para conduzir os fiéis a votar no Bolsonaro. Eu não sei dizer se o apoio dos líderes religiosos ao Bolsonaro é causa ou consequência do voto dos fiéis. Em geral, as candidaturas oficiais das igrejas Pentecostais eram orientadas para o legislativo. Acredito que a adesão massiva do eleitorado evangélico na candidatura do Bolsonaro deve menos aos pastores e mais aos valores morais da campanha.

RM: Há igrejas que funcionam como comitês de campanha para o legislativo e também para candidatos de cargos majoritários necessariamente evangélicos. Existe um ativismo eleitoral no interior das igrejas atacando diretamente os governos do PT e seus candidatos. Depois acabaram aderindo ao Bolsonaro, exibindo as vezes de forma sutil e as vezes de forma aberta, transformando a igreja em comitês de campanha.

CC: E em relação aos líderes católicos?

FL: A posição da CNBB, favorável a candidatos que defendam a democracia, não altera nada. Os católicos afetados por essas orientações são um percentual muito pequeno e provavelmente já não votaram em Bolsonaro no primeiro turno. Ainda sim, é importante lembrar que entre os católicos mais ortodoxos a adesão ao bolsonaro é muito grande.

RM: A igreja católica é extremamente comedida e não faz campanha eleitoral, de fato. Claro que agora o contexto é mais urgente, mas ela não se posiciona nem a favor nem contra. A orientação é genérica.

CC: Como as redes sociais e o Whatsapp têm influenciado o voto do eleitorado religioso?

RM: Em igrejas, já são usados discursos falando da “Ursal”, de teorias conspiratórias, pânicos morais, fake news, discursos de ódio, tudo em prol do Bolsonaro, além do uso maciço das redes sociais. Grupos religiosos e de extrema direita e até os ditos progressistas, ambos os lados têm usado esses recursos de difusão de mentiras. Os bolsonaristas contam com uma rede mais vasta de militantes, com muito mais recursos e organização. Os religiosos conservadores e pastores têm atuado sistematicamente.

CC: É a primeira vez que isso acontece nas eleições?

RM: Nas eleições anteriores já haviam esses boatos conspiratórios. Em 2014, houve um debate acirrado em relação ao aborto envolvendo a Dilma. Esse é o fenômeno forte desde 2010, mas agora a potencialidade é mais porque mais gente tem celular com internet. Hoje o principal meio de informação política do Brasil são as redes sociais e o impacto disso é muito maior agora.

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Estagiária de Jornalismo do site de CartaCapital

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