Direto da Redação

O recuo estratégico no TSE e o ‘vale-tudo’ digital que ameaça 2026

O tema foi o centro das discussões do ‘Direto da Redação’ da última segunda-feira 24

O recuo estratégico no TSE e o ‘vale-tudo’ digital que ameaça 2026
O recuo estratégico no TSE e o ‘vale-tudo’ digital que ameaça 2026
Fiasco na 'Band' prova a decadência dos debates | Direto da Redação, 24/08/2026 (Foto: CartaCapital)
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Eleições 2026

A maioria formada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a utilização de ferramentas de inteligência artificial — com o objetivo de simular apoios políticos nas campanhas presidenciais — desencadeou uma forte crise de bastidores no Judiciário.

O presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, e o ministro André Mendonça sofreram uma derrota contundente no plenário virtual ao tentarem validar peças publicitárias da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) que faziam uso de um avatar digital do ex-presidente Jair Bolsonaro. Diante do revés imposto pela divergência de seus pares, Nunes Marques recuou e retirou o julgamento de pauta. A manobra adia a definição de balizas rígidas para o pleito a poucos dias do início oficial do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, gerando apreensão sobre a consolidação de um “vale-tudo” tecnológico nas redes.

O tema foi um dos destaques da última edição do Direto da Redação, programa diário de CartaCapital, apresentado pelo editor Leonardo Miazzo, com participação de Thaís Reis Oliveira, editora executiva, e Sérgio Lírio, redator-chefe de CartaCapital. O programa também abordou o esvaziamento e a decadência do modelo de debates na TV após o fiasco na Band, a apropriação da Festa do Peão de Barretos pela extrema-direita e o embate de rejeições entre o caso Dark Horse e as investigações envolvendo o filho mais velho do presidente Lula.

Nunes Marques impõe paralisia regulatória ao tribunal

A suspensão do julgamento dos deepfakes pelo presidente do TSE ocorre sob intensa insatisfação do colegiado. Segundo informações de bastidores obtidas pela repórter Maiara Marinho em Brasília, Nunes Marques iniciou um processo de consulta reservada aos colegas na tentativa de costurar um voto de consenso que evite a consumação de sua derrota definitiva. No julgamento virtual, Nunes Marques e André Mendonça foram vencidos pelos votos dos ministros Antônio Carlos Ferreira, Estela Aranha, Ricardo Vilas Boas Cueva e Floriano Peixoto, que defendem a proibição expressa de simulações digitais inautênticas nas campanhas. O bloco divergente sustenta que admitir o recurso de inteligência artificial para simular a presença de terceiros desequilibra o jogo democrático e confunde o eleitor.

Enquanto a Corte adia sua decisão, a omissão regulatória já produz efeitos concretos. O presidente do tribunal assinou recentemente uma liminar polêmica que barrou a divulgação de uma pesquisa do instituto Atlas Intel. O levantamento censurado continha perguntas sobre a reação do eleitorado aos áudios vazados de Flávio Bolsonaro solicitando repasses milionários ao banqueiro Daniel Vorcaro. Para analistas, a disparidade de tratamento dada às representações das campanhas sugere uma leniência que reedita a paralisia do tribunal observada em 2018, quando o festival de notícias falsas correu solto sob a gestão de Rosa Weber.

A falência do modelo de debates televisivos

O fiasco de audiência e relevância do primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Rede Bandeirantes, expôs o esgotamento definitivo de um modelo que ruiu. O encontro contou apenas com a presença de candidatos de expressão marginal nas pesquisas de intenção de voto: Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Renan Santos. O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro já haviam antecipado que não compareceriam, decisão reforçada pelo recuo de última hora do governador mineiro Romeu Zema. O resultado foi um vácuo de debate de propostas reais, substituído por um show de excentricidades. Cury limitou-se a desfilar jargões de autoajuda, Caiado não conseguiu empolgar sequer o seu candidato a vice, Gilberto Kassab — flagrado em cochilo ou disperso com o celular ocultado sob o paletó — e Renan Santos emulou a retórica agressiva de Pablo Marçal para fustigar adversários ausentes.

A presença de Renan Santos no palco da Band ilustra como as emissoras adaptam as regras eleitorais para priorizar cliques e polêmicas vazias em detrimento do interesse público. O partido do candidato, o Missão, não possui a representação mínima de cinco parlamentares no Congresso exigida por lei para assegurar a participação em debates. A escolha da emissora em convidá-lo, preterindo candidaturas como a de Samara Martins (UP) — tecnicamente empatada com Santos nos levantamentos eleitorais — evidencia que a mídia corporativa atua como agente político interessado na espetacularização e no tumulto.

Barretos e a blindagem cultural do agronegócio

Sem palanque próprio para arregimentar multidões diante de uma campanha visivelmente esvaziada, a extrema-direita buscou refúgio na Festa do Peão de Barretos. Segundo informações de bastidores obtidas pelo repórter Daniel Camargos em Barretos, Flávio Bolsonaro subiu ao palco principal ladeado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e pelo deputado federal Nikolas Ferreira, sob a introdução laudatória do locutor Cuiabano Lima. O evento marcou uma escalada no engajamento político do setor, sintetizado pela postura da cantora sertaneja Ana Castela. A artista de 22 anos, que manteve neutralidade na eleição presidencial anterior, posou ao lado de Nikolas Ferreira fazendo o gesto em alusão ao partido PL, e endossou as postagens do parlamentar nas redes sociais.

A agressividade do antipetismo que emana das franjas do agronegócio colide frontalmente com a realidade dos dados econômicos dos governos de esquerda. Sob Lula, o setor experimentou expansões históricas na exportação de grãos e recebeu sucessivos aportes recordes do Plano Safra. No entanto, a fúria do setor patronal não é econômica, mas regulatória e ideológica. O agronegócio se insurge contra o funcionamento mínimo de órgãos de fiscalização ambiental e de combate ao trabalho análogo à escravidão, além de resistir a demarcações de terras indígenas e projetos de reforma agrária. Essa elite, que acumulou fortunas extraordinárias isentas de maiores tributações, projeta seu poder econômico no financiamento cultural do “agronejo”, dominando rádios e prefeituras do interior do país.

Rejeição dita o compasso da guerra de dossiês

A eleição de 2026 consolida-se como um embate puramente moldado pelos índices de rejeição das candidaturas. Segundo informações de bastidores obtidas pelo repórter especial André Barrocal em Brasília, o QG da campanha reeleitoral de Lula monitora com atenção o impacto dos vazamentos fragmentados do chamado “Caso Lulinha”, que envolvem conversas de Fábio Luiz da Silva e do ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, intermediadas pela lobista Roberta Luchsinger. A exploração midiática desses vazamentos promoveu um ressurgimento do sentimento antipetista nas pesquisas de opinião, estancando a tendência de queda na rejeição de Lula. Em maio, o presidente amargava índices piores que os de Flávio Bolsonaro, quadro que havia se invertido com a explosão do escândalo Dark Horse, mas que agora retorna a um empate técnico de 46% a 45% na desaprovação dos candidatos.

Para contrabalançar o desgaste, a coordenação da campanha de Lula articula a reintrodução do escândalo do Banco Master e do filme Dark Horse no centro do debate eleitoral. Ofícios foram enviados pela liderança do governo no Senado à PGR e à Polícia Federal cobrando celeridade na apuração dos repasses milionários que Flávio Bolsonaro solicitou ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar uma cinebiografia propagandística de Jair Bolsonaro. O campo governista aposta na comparação ética de procedimentos: enquanto Lula declara publicamente que qualquer desvio de familiares deve ser rigorosamente investigado dentro das garantias da ampla defesa, Jair Bolsonaro interferiu na cúpula da Polícia Federal em 2020 para proteger seus filhos de investigações, derrubando o então ministro Sérgio Moro.

O Direto da Redação vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 17h, no canal de CartaCapital no YouTube. Assista abaixo à íntegra do programa de 24 de agosto de 2026:

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