Deputado cobra informações sobre vinda do diretor da CIA ao Brasil

Glauber Braga (PSOL-RJ) exige divulgação do assunto da reunião: 'Intervenções desestabilizadoras no Brasil são de amplo conhecimento'

William J. Burns, ao centro, reuniu-se com o presidente Jair Bolsonaro e ministros. Foto: Reprodução/Redes sociais Alexandre Ramagem

William J. Burns, ao centro, reuniu-se com o presidente Jair Bolsonaro e ministros. Foto: Reprodução/Redes sociais Alexandre Ramagem

Política

Foi protocolado nesta terça-feira 6 um requerimento que pede informações sobre a reunião do governo federal com a Central Intelligence Agency, a CIA, cuja pauta não foi divulgada. O novo diretor da central de inteligência americana, William J. Burns, tinha agenda marcada na noite de quinta-feira 1 com os ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil). A manutenção da pauta em segredo já havia sido criticada em ofício da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia ao Itamaraty.

 

 

Segundo informações da agenda de Ramos, o encontro teria ocorrido às 19h30 em Brasília, no Setor de Habitações Individuais Sul QI 5, número 46. O evento não apareceu na agenda do presidente Jair Bolsonaro, que costuma realizar transmissões ao vivo na internet no mesmo dia da semana e faixa de horário. A embaixada americana e o governo federal não responderam aos questionamentos de CartaCapital.

O requerimento, assinado pelo deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), descreve que a reunião teria ocorrido na casa do embaixador americano Todd Chapman. Também lembra que, em vídeo publicado por site de apoiadores, Bolsonaro confirmou o encontro com Burns e citou a atual crise em outros países da América do Sul.

O documento questiona se houve algum convite oficial do governo federal para o chefe da CIA; se informações sobre o encontro foram compartilhadas com outros órgãos públicos; quais os nomes de todas as pessoas presentes; quais as pautas tratadas; se a compra da vacina indiana Covaxin esteve entre os itens de discussão; se foi mencionado algum endosso da CIA para um golpe antidemocrático por parte do presidente da República; e se o presidente Jair Bolsonaro, pessoalmente ou pelos seus filhos, pressionou, orientou, recomendou, aconselhou ou advertiu a feitura dessa reunião.

O texto também questiona a visita de Burns ao Palácio do Planalto, registrada na tarde daquela data, entre as 16 e 17 horas, com a presença do embaixador americano, do general Heleno, do ministro da Defesa, Braga Netto, e do diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem.

“As intervenções desestabilizadoras do governo dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil, por meio inclusive de suas agências de inteligência, são de amplo conhecimento e atravessam décadas”, escreveu o deputado, citando o golpe militar de 1964, a espionagem de Dilma Rousseff em 2013 e a cooperação com a Operação Lava Jato.

O requerimento também diz que “é inadmissível que a visita do Diretor da CIA ao Brasil e seu encontro com autoridades brasileiras seja mantida sob o manto de completo sigilo”, especialmente no momento em que Bolsonaro está “acuado” por denúncias de corrupção e por investigações de atos contra a democracia.

Junto ao deputado David Miranda (PSOL-RJ), Braga também protocolou, na semana passada, requerimento de convocação de Augusto Heleno e Luiz Eduardo Ramos à Comissão de Relações Exteriores da Câmara, presidida por Aécio Neves (PSDB-MG). Nesta quarta-feira 7, a Comissão deve ouvir o depoimento de Alexandre Ramagem.

Nas redes sociais, Ramagem publicou uma foto ao lado de Burns.

“Simbólica visita do Diretor-geral da CIA demonstrando a crescente importância do Brasil no cenário internacional. Identidade histórica e cultural de duas nações ocidentais, conservando valores fundamentais voltados à democracia representativa e ao interesse público”, escreveu.

 

 

Conforme mostrou a emissora colombiana NTN24, Burns cumpriu agenda em Bogotá antes de chegar a Brasília, para tratar de uma “missão delicada”. O assunto também não foi divulgado. O país, assim como o Brasil, passa por intensos protestos contra o presidente de direita Iván Duque, aliado da Casa Branca.

Burns foi nomeado por Joe Biden neste ano e é conhecido por ser próximo do presidente. O diplomata de 64 anos foi aprovado por unanimidade no Senado, entre democratas e republicanos.

A presença de Burns no Brasil foi questionada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na internet.

“Até agora ninguém explicou a vinda do diretor da CIA ao Brasil”, manifestou-se, nesta terça. “É preciso explicar. Os parlamentares precisam cobrar do governo americano.”

Na semana passada, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, também criticou a visita de Burns ao Brasil e à Colômbia. Em discurso, o mandatário chavista afirmou que o almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, também esteve em Bogotá para encontrar autoridades militares, reunião que foi chamada de “provocação” pelo Ministério da Defesa venezuelano.

Na ocasião, Maduro disse cogitar que a CIA está planejando seu assassinato nessas visitas.

“O presidente Joe Biden tem conhecimento dos planos de Craig Faller e do diretor da CIA para me assassinar e assassinar líderes políticos e militares da Venezuela? Biden autorizou o plano?”, questionou o presidente, em discurso exibido pela estatal Venezolana de Televisión. “São informações de primeira mão. Nossas fontes de inteligência que temos são precisas e confiáveis.”

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Repórter do site de CartaCapital

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