Política

Odebrecht

Delações mostram investigado de esquema em Furnas como articulador de Aécio Neves

por Redação — publicado 20/04/2017 09h15
Dois dos cinco inquéritos abertos contra o senador tucano revelam proximidade dele com Dimas Toledo, ex-diretor de Furnas
Agência Brasil
Aécio Neves

Dimas Toledo teria coordenado pagamentos que alcançaram 50 milhões de reais em Caixa 2 para Aécio

As delações de 78 executivos e ex-executivos da Odebrecht colocaram o senador Aécio Neves (PSDB-MG) como o líder em número de inquéritos abertos pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. Foram cinco as investigações pedidas contra o tucano. Mas essas não são as únicas apurações com que o senador deve se preocupar. O conteúdo dos depoimentos pode complicar também a situação do presidente do PSDB em outra investigação da Operação Lava Jato: o esquema de corrupção em Furnas, a subsidiária da Eletrobras.

Em um dos inquéritos contra Aécio, os delatores da Odebrecht citam o ex-diretor de engenharia da Furnas Centrais Elétricas Dimas Fabiano Toledo, como “operador do PSDB” para o pagamento de caixa 2. Essas menções revelam a proximidade entre o tucano e o homem apontado como um dos “comandantes” de um esquema em Furnas. A citação ao ex-diretor é feita na investigação que trata do suposto pagamento de 50 milhões de reais no exterior, em 2008, para que Aécio defendesse os interesses da Odebrecht em dois empreendimentos no rio Madeira, em Porto Velho (RO): as usinas de Santo Antonio e Jirau.

Segundo o delator Henrique Valladares, então responsável pela área de energia da Odebrecht, foi marcada uma visita em fevereiro de 2008 no Palácio das Mangabeiras, a residência oficial do governador de Minas Gerais, cargo que Aécio Neves ocupava naquele ano, para tratar do leilão envolvendo os empreendimentos. Além de Valladares, participou também o ex-presidente da empreiteira Marcelo Odebrecht.

O delator não se lembra do tema propina ter sido tratado com o tucano, mas afirma que, ao final da reunião, Aécio mencionou que Dimas Toledo iria procurar Henrique Valladares. Após a reunião, conta o ex-executivo da construtora, Marcelo Odebrecht disse ao subordinado que tinha acertado o pagamento de 50 milhões de reais para o senador tucano, sendo 30 milhões de responsabilidade da Odebrecht e outros 20 milhões de reais da Andrade Gutierrez.

A partir desse acerto, todos o pagamentos feitos a “Mineirinho”, codinome de Aécio Neves na construtora, foram coordenados por Dimas Toledo, que indicava como cada prestação deveria ser paga. Em uma dessas oportunidades, Valladares conta ter encontrado o presidente do PSDB no restaurante Gero, no Rio de Janeiro, acompanhado justamente de Dimas, do empresário Alexandre Accioly, proprietário da academia BodyTech e amigo de longa data do tucano, além de Diogo Mainardi, responsável pelo site O Antagonista.

“Então, o Dimas me traz um papelzinho com o nome do Accioly, eu sabia que era amigo do governador. Eu me recordo que é em Cingapura a conta. Não é Suíça, não é Bahamas, é Cingapura”, relata sobre um dos pagamentos feitos a pedido de Aécio Neves.

Aécio e o filho do operador

Em outro inquérito aberto a pedido de Fachin, o senador tucano também é acusado de solicitar pessoalmente à Odebrecht que apoiasse financeiramente a campanha política do deputado federal Dimas Fabiano Toledo Júnior (PP-MG), filho do ex-diretor de Furnas, outro indício da proximidade dos dois. O então candidato do PSDB ao governo de Minas Gerais, Pimenta da Veiga, e o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) também teriam sido beneficiados por esse pedido de Aécio.

As acusações são baseadas nas delações dos ex-executivos Benedito Junior, Sérgio Luiz Neves e do ex-presidente da companhia Marcelo Odebrecht. Após as “várias solicitações” do senador, eles dizem que a empreiteira pagou, no total, 6 milhões de reais aos envolvidos.

Do valor total, 3 milhões de reais foram divididos entre Anastasia, identificado como “Dengo”, e Pimenta da Veiga. Os outros 3 milhões foram para o próprio Dimas Fabiano Toledo, que teria dividido o valor com deputados de sua base política.

O caso

Dimas Toledo atuou como diretor de Engenharia da estatal entre 1995 e 2005. Ele teria “comandado”, segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, um esquema de propina em Furnas semelhante ao que aconteceu na Petrobras. Os pagamentos seriam divididos em três partes: uma para o PT em São Paulo, outra para o PT nacional e uma terceira para Aécio. As informações foram confirmadas à Justiça em acareação feita, em março deste ano, entre Fernando Moura, lobista ligado ao ex-ministro José Dirceu, e Dimas Toledo, que negou a distribuição dos valores.

Fernando Moura afirma que, em 2003, o próprio José Dirceu teria dito que Aécio Neves procurou o governo petista, recém empossado, para pedir a permanência de Dimas Toledo no cargo. Como forma de retribuição, foi feito o acerto da distribuição da propina em três partes.

O esquema de Furnas foi divulgado por CartaCapital em 2006 mostrando a existência de uma lista com nomes de políticos do PSDB e seus aliados que receberiam propina oriunda de contratos de Furnas. A lista traz o nome de 156 políticos que teriam recebido 39,9 milhões de reais. O PSDB afirma que a lista é uma fraude. Já a Polícia Federal não conseguiu concluir se o documento era montagem ou não.

O Ministério Público Federal chegou a oferecer denúncia contra 11 pessoas, incluindo Dimas Toledo, que seria um dos cabeças do esquema. Mas a investigação envolvendo políticos do PSDB e aliados nunca teve andamento. O caso voltou à tona ano passado, no âmbito da Operação Lava Jato, por conta da delação do ex-senador Delcídio do Amaral (PT e PSDB), que confirmou as suspeitas e deu novos detalhes sobre o esquema.