Política

Operação Lava Jato

Janot quer depoimento de Aécio sobre Furnas. Gilmar vai decidir

por Redação — publicado 01/03/2017 11h48, última modificação 01/03/2017 18h19
Além do senador do PSDB, PGR pede ao STF depoimento de José Dirceu sobre denúncias de corrupção na estatal
Valter Campanato / ABr
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Aécio: o suposto esquema em Furnas é uma sombra que paira sobre a imagem do senador

O suposto esquema de corrupção em Furnas, a mais importante subsidiária da Eletrobras, voltou a assombrar o senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB. Em 21 de fevereiro, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou uma petição ao Supremo Tribunal Federal (STF) solicitando autorização para que a Polícia Federal tome o depoimento de Aécio, apontado como beneficiário de um esquema de desvio de verbas da empresa. A informação é do jornal O Estado de S.Paulo.

No documento da PGR, protocolado no Supremo na quinta-feira 23, Janot pede também os depoimentos de José Dirceu (PT), ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo Lula, e do ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira, que ficou famoso no escândalo do "mensalão" por ter recebido como presente um carro da marca Land Rover.

Os pedidos de Janot são direcionados ao ministro Gilmar Mendes, responsável pelo inquérito contra Aécio no STF. Em maio de 2016, Mendes chegou a suspender as diligências sobre o caso de Furnas e devolver o processo para Janot, mas no início de junho reviu a decisão, após ser lembrado pelo PGR de que havia novos indícios no caso e de que o ministro, sem anuência da procuradoria, não poderia se recusar a dar prosseguimento ao inquérito.

Em novembro, Gilmar Mendes renovou a autorização para investigação por mais 60 dias, prazo que se esgotou em fevereiro. Agora, Janot pede um novo prazo de 60 dias para investigar o tucano.

Delcídio reforça a denúncia de Youssef

Na base do pedido de Janot estão os depoimentos de duas testemunhas que comprometem Aécio Neves. O primeiro é o do senador cassado Delcídio do Amaral, cujo acordo de delação premiada foi tornado público em março de 2016. 

Ex-integrante do PSDB que migrou para o PT na transição entre FHC e Lula, Delcídio do Amaral descreveu diversos esquemas de corrupção em sua delação e afirmou que Aécio "sem dúvida" foi um dos beneficiários de desvios realizados em Furnas, cujo operador seria Dimas Fabiano Toledo, ex-diretor de Engenharia de Furnas.

Em seus depoimentos, Delcídio citou ainda uma suposta participação de Andréa Neves, irmã de Aécio, no esquema, e apontou a existência de uma conta de titularidade da mãe do senador, Inês Maria Neves Farias, no principado de Liechtenstein, um conhecido paraíso fiscal europeu.

A fala de Delcídio renovou uma denúncia que já fora feita por Alberto Youssef, o mais importante delator da Lava Jato. O doleiro citou o esquema em Furnas, disse que Aécio dividia os recursos ilícitos da estatal com o PP, mas não conseguiu trazer provas. Assim, o caso foi arquivado na época, até reemergir com a delação de Delcídio.

A colaboração do senador cassado com os investigadores causou preocupação a Aécio, como contou o então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro, subsidiária da Petrobras, em áudios vazados para a imprensa em 2016.

MACHADO - E tá todo mundo sentindo um aperto nos ombros. Está todo mundo sentindo um aperto nos ombros.

RENAN - E tudo com medo.

MACHADO - Renan, não sobra ninguém, Renan!

RENAN - Aécio está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.'

MACHADO - Renan, eu fui do PSDB dez anos, Renan. Não sobra ninguém, Renan.

Furnas e a partilha PT-PSDB

O segundo depoimento contra Aécio citado por Janot é o de Fernando Antônio Guimarães Houneaux de Moura, ou simplesmente Fernando Moura, outro delator da Operação Lava Jato.

De acordo com Moura, no final de 2002, quando ainda estavam sendo decididas as composições para as diretorias de estatais no primeiro mandato de Lula, uma reunião foi feita entre integrantes do PT para definir as composições na Petrobras, Caixa Econômica, Correios, Banco do Brasil e nas centrais hidrelétricas de Furnas. No encontro, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares teria afirmado que havia interesse de Aécio na indicação de um diretor na estatal.

Ao saber que Aécio já teria indicado o ex-diretor Dimas Toledo para Furnas, Dirceu teria dito que o senador não poderia colocar outro apadrinhado na Petrobras. Segundo o delator, o pedido de indicação de Toledo por Aécio em Furnas teria sido feito diretamente ao ex-presidente Lula. Silvio Pereira também teria participado das tratativas.

A respeito da suposta divisão de propina, Moura afirmou que Dimas teria dito a ele durante a conversa como funcionaria o esquema. "O Dimas na oportunidade me colocou que da mesma forma que eu coloquei o caso da Petrobras, em Furnas era igual. Ele falou: ‘Vocês não precisam nem aparecer aqui, vocês vão ficar um terço São Paulo, um terço nacional e um terço Aécio’”.

Um terço seria destinado ao núcleo político de Dirceu, a parte nacional ao PT e o restante ao senador. O esquema de Furnas foi divulgado por CartaCapital em 2006 mostrando a existência de uma lista com nomes de políticos do PSDB e seus aliados que receberiam propina oriunda de contratos de Furnas.

Em depoimento, Dimas Fabiano Toledo negou a existência de um esquema de corrupção em Furnas no período em que tinha um alto cargo na estatal elétrica, bem como qualquer participação de Aécio nos supostos desvios. Diante disso, uma acareação entre Fernando Moura e Dimas Toledo foi realizada, mas terminou de forma inconclusiva. Assim, Janot pediu mais prazo para continuar investigando o caso.

Ao Estadão, a defesa de Aécio Neves afirmou que o pedidos de prorrogação do inquérito é "rotina", que seu depoimento estava previsto "desde o inicio do procedimento" e que Aécio "é o maior interessado na realização das investigações" porque é inocente.