Defensora de remédios ineficazes, Yamaguchi pode ser submetida a acareação com Mandetta

À CPI da Covid, a médica negou tentativa de mudar a bula da cloroquina e disse que não participou de um 'gabinete paralelo' no governo

A médica Nise Yamaguchi. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

A médica Nise Yamaguchi. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Política

A médica oncologista Nise Yamaguchi, defensora de medicamentos sem eficácia contra a Covid-19, contradisse em depoimento à CPI da Covid o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Antonio Barra Torres. A atitude pode gerar uma acareação entre os três.

 

 

Nesta terça-feira 1, Yamaguchi afirmou que não houve uma minuta para mudar a bula da cloroquina a fim de acrescentar ao documento a indicação de uso por pacientes com Covid-19.

Em depoimento à comissão em 4 de maio, Mandetta citou uma reunião no Palácio do Planalto “com vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que eu nunca tinha conhecido”.

“Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido daquela reunião que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação da cloroquina para coronavírus. E foi inclusive o próprio presidente da Anvisa, Barra Torres, que disse ‘não'”, acrescentou Mandetta.

Uma semana depois, em 11 de maio, Barra Torres revelou na CPI que o general Walter Braga Netto, então ministro da Casa Civil, foi o responsável por convocar e conduzir uma reunião, realizada no Palácio do Planalto, em que se debateu a edição de um decreto presidencial para mudar a bula da cloroquina.

O presidente da Anvisa disse aos senadores que sua reação à sugestão de alterar a bula da cloroquina foi “imediata” no sentido de que “aquilo não podia acontecer”. Ele não indicou o responsável pela ideia, mas apontou a ‘mobilização’ de Yamaguchi.

“Esse documento foi comentado pela doutora Nise Yamaguchi, o que provocou uma reação até um pouco deseducada ou deselegante minha”, relembrou. “Quando houve uma proposta de uma pessoa física de fazer isso, me causou uma reação mais brusca. A reunião não durou mais depois disso”.

Nesta terça, entretanto, Nise afirmou que o documento nunca existiu. “Nessa situação, não houve minuta de bula. Eu não minutei nenhuma minuta de bula. Não existiu ideia de mudança de bula por minuta nem por decreto”, disse a médica.

“Eu não entendi que havia até aquele momento uma discussão sobre um decreto. Simplesmente estava conversando sobre a questão da cloroquina e a resolução de excepcionalidade. Eu não discuti inserção em bula por decreto em nenhum momento”, prosseguiu.

Nise também declarou que na referida reunião apresentou uma minuta que tratava da disponibilização do medicamento em meio à pandemia. “Não acho que eles [Mandetta e Barra Torres] tenham mentido”, avaliou. “Acho que eles tenham se equivocado. Acharam que a gente quisesse fazer um decreto da bula e não foi isso que aconteceu”.

Diante das incongruências, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), sugeriu uma acareação entre Nise, Mandetta Barra Torres. “O certo é a gente fazer uma acareação. O que foi falado aqui pelo ex-ministro Mandetta e pelo doutor Barra Torres é que ele [Barra Torres] de pronto não aceitou, que estava em cima da mesa, e que o ministro Braga Netto rasgou o documento”.

Pelas redes sociais, o relator da comissão, Renan Calheiros, criticou a oitiva da oncologista.

 

 

Gabinete paralelo

Na CPI, Nise Yamaguchi negou fazer parte de um ‘gabinete paralelo’ de aconselhamento ao presidente Jair Bolsonaro durante a crise sanitária. “Desconheço um gabinete paralelo e muito menos que eu integre. Sou uma colaboradora eventual. Participo como médica, cientista, em reuniões técnicas”, declarou.

A médica também declarou não ter participado de reuniões exclusivamente com Bolsonaro. Mas, a Omar Aziz, revelou que esteve com o presidente da República “umas quatro, cinco vezes”. Em uma delas, por ocasião de uma reunião composta por diversos ministros. Nise diz ter participado do encontro como convidada de um suposto “comitê de crise institucional”.

“Era uma coordenação interministerial regulamentada e presidida pelo general Braga Netto, onde participei com o ministro da Saúde e o presidente da Anvisa”.

Nise Yamaguchi também afirmou que não recebeu um convite para ocupar o cargo de ministra da Saúde ou para qualquer outro posto no ministério.

“Não houve um convite formal para o gabinete de crise. Houve um convite para participar daquela reunião pontual. Eu fiz parte dessa discussão daquele dia com relação a isso. Reitero que o presidente nunca me convidou para ser ministra da Saúde”, insistiu.

 

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