Política
De pai para filho: quem são os ‘nepobabies’ candidatos em 2026
De Alvinho Lira e Simone Tebet a João Campos e Renan Filho, a política brasileira é repleta de gerações disputando os mesmos cargos públicos
Renovação política? Não na eleição de 2026. Em diferentes regiões do País, filhos de políticos tradicionais seguem se lançando às urnas para ocupar o espaço construído por seus pais. Alguns já têm carreira própria e vários mandatos. Outros estão apenas começando. Em comum, carregam algo que a maioria dos candidatos precisa construir do zero: sobrenome, aliados e uma história eleitoral que começou antes deles.
É o que se convencionou chamar de “nepobabies”. A expressão, importada da cultura pop norte-americana, descreve herdeiros que partem de uma posição privilegiada graças à família. Na política, essa herança pode significar acesso antecipado a partidos, prefeitos, vereadores, lideranças locais, financiadores e redutos eleitorais.
Velha forma pela qual as oligarquias brasileiras se reproduziram, o fenômeno atravessa esquerda, direita e centro. Não é exclusividade de uma ideologia ou de um partido.
A família Bolsonaro é o caso recente mais representativo. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República pelo PL; Carlos Bolsonaro (PL) concorre ao Senado por Santa Catarina; e Jair Renan Bolsonaro (PL) busca uma vaga na Câmara pelo mesmo Estado. O pai, Jair Bolsonaro (PL), não está na urna, mas é parte central da identidade eleitoral dos três filhos. Flávio, inclusive, constrói sua campanha presidencial sobre a defesa deste legado.
Em Alagoas, Álvaro Lira, o Alvinho (PP), de 20 anos, é outro retrato da antecipação de uma sucessão. Filho de Arthur Lira (PP) e neto de Benedito de Lira (1942-2025), disputa uma vaga na Câmara enquanto o pai concorre ao Senado. Antes da eleição, já havia passado por uma prefeitura comandada pelo avô e participado de atividades políticas da família.
Os candidatos à Câmara dos Deputados e ao Senado pelo PP de Alagoas, Alvinho Lira e seu pai, Arthur Lira. Foto: Divulgação
Arthur chegou a indicá-lo publicamente como seu sucessor político. A cadeira, portanto, será deixada pelo pai ao filho.
Na mesma Alagoas, Renan Filho (MDB), filho do senador Renan Calheiros (MDB), disputa o governo estadual. O pai concorre à reeleição no Senado.
Velhos ‘coronéis’, novas regras
É no Nordeste que a discussão sobre dinastias políticas ganha uma dimensão histórica mais evidente. Durante décadas, a política regional foi marcada pelo poder de famílias e chefes locais. O coronelismo da República Velha, porém, não pode ser simplesmente transplantado para o século 21. Aquele sistema estava ligado ao poder dos grandes proprietários rurais, ao controle local do voto e à relação entre as elites estaduais e o governo federal. O que sobreviveu foi a capacidade de grupos familiares se adaptarem às novas instituições.
A urna eletrônica substituiu o voto aberto. Os partidos mudaram. O eleitorado se urbanizou. As campanhas passaram a depender de televisão, redes sociais e estruturas profissionais. Ainda assim, determinados sobrenomes continuaram funcionando como marcas eleitorais. E a eleição de 2026 atualiza essa tradição.
Na Paraíba, Efraim Filho (PL), filho do ex-senador Efraim Morais (União Brasil), disputa o governo. Veneziano Vital do Rêgo (MDB), filho do ex-deputado Vital do Rêgo (1935-2010) e da ex-senadora Nilda Gondim (MDB), concorre ao Senado. Na mesma Paraíba, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), busca a reeleição e tem o pai, Nabor Wanderley (Republicanos), como candidato ao Senado. Há também Mersinho Lucena (PSD), filho do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), que busca novo mandato na Casa Baixa.
No Maranhão, Pedro Lucas Fernandes (União Brasil), filho do prefeito de Arame, Pedro Fernandes Ribeiro (PTB), é candidato à reeleição na Câmara. Marreca Filho (PRD), filho do ex-deputado Júnior Marreca (PRD), também disputa novo mandato federal.
No Ceará, Mauro Benevides Filho (União Brasil), filho do ex-senador e ex-presidente do Senado Mauro Benevides (MDB), concorre novamente à Câmara.
Em Sergipe, Yandra Moura (União Brasil), filha do ex-deputado André Moura (União Brasil), disputa novamente uma vaga na Câmara.
No Piauí, Ciro Nogueira (PP), filho do ex-deputado de mesmo nome, Ciro Nogueira Lima (1933-2013), concorre novamente ao Senado.
Na Bahia, um sobrenome atravessa décadas
Poucos estados oferecem um exemplo tão claro de dinastias políticas quanto a Bahia.
O carlismo é o caso mais conhecido. Antônio Carlos Magalhães (1927-2007) construiu uma das máquinas políticas mais poderosas do País; seu filho, Luís Eduardo Magalhães (1955-1998), tornou-se uma liderança nacional; e seu neto, ACM Neto (União Brasil), chegou à Prefeitura de Salvador e agora tenta o governo do estado.
ACM e ACM Neto, na Bahia, em 2022, quando o segundo concorreu e venceu, pela primeira vez, um cargo eletivo – à época para deputado federal. Foto: Divulgação
Em 2026, Diego Coronel (Republicanos), filho do senador Angelo Coronel (Republicanos), disputa novamente uma vaga na Câmara. Félix Mendonça Júnior (PDT), filho do ex-deputado Félix Mendonça (1928-2020), também está na disputa. Gabriel Nunes (PSD), filho do ex-deputado José Nunes (PSD), busca novo mandato federal. Mário Negromonte Júnior (PSD), filho do ex-ministro Mário Negromonte (PP), também integra a lista de descendentes que chegaram ao Congresso pela trilha aberta pela família.
Pernambuco e a força de uma marca eleitoral
João Campos (PSB), filho do ex-governador Eduardo Campos (1965-2014) e bisneto de Miguel Arraes (1916-2005), deixou a Prefeitura do Recife para disputar o governo estadual. A candidatura colocou novamente o sobrenome Campos no centro da política pernambucana.
João não é um iniciante. Foi vereador, deputado federal e prefeito do Recife por dois mandatos. Sua trajetória eleitoral é própria. Mas seria impossível contar sua carreira sem mencionar o pai e o bisavô. A própria campanha recorre ao legado de Eduardo Campos, enquanto o PSB trata João como uma liderança de projeção nacional. O irmão Pedro Campos (PSB) disputa novamente uma vaga na Câmara.
A família Coelho segue caminho semelhante. Fernando Coelho Filho (União Brasil), filho do ex-senador Fernando Bezerra Coelho (MDB), disputa novo mandato federal. Lula da Fonte (PP), filho do deputado Eduardo da Fonte (PP), também está na corrida pela Câmara.
Raquel Lyra, maior rival de Campos, também pode ser considerada uma nepobaby. É filha de João Lyra Neto, político e ex-governador do estado de Pernambuco.
Dinastias ao sul
A reprodução familiar chega também ao Sudeste e ao Sul. Em São Paulo, Baleia Rossi (MDB), filho do ex-ministro Wagner Rossi (MDB), segue na disputa pela Câmara. Renata Abreu (Podemos), filha do ex-deputado José de Abreu (1944-2022), também concorre. No Rio, Dani Cunha (PL), filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos), busca novo mandato federal.
Em Minas Gerais, Newton Cardoso Júnior (MDB), filho do ex-governador Newton Cardoso (1938-2025), e Lafayette Andrada (PL), filho do ex-deputado Bonifácio de Andrada, representam duas famílias tradicionais na Câmara – este último, inclusive, é descendente de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o Patriarca da Independência.
No Paraná, Zeca Dirceu (PT), filho do ex-ministro José Dirceu (PT), e Felipe Francischini (Podemos), filho do ex-deputado Fernando Francischini (PL), estão novamente na disputa federal.
Os petistas Zeca Dirceu, deputado federal, e Zé Dirceu, ex-ministro. Foto: Divulgação
No Tocantins, Vicentinho Júnior (PSDB), filho do ex-senador Vicentinho Alves (PP), concorre ao governo estadual.
Em São Paulo, Simone Tebet (PSB), filha do ex-senador Ramez Tebet (1936-2006), disputa o Senado pelo estado. É um caso diferente dos demais porque sua carreira política foi construída em Mato Grosso do Sul e ela já ocupou cargos de projeção nacional, mas o sobrenome continua fazendo parte de uma linhagem política que remonta ao pai.
Candidatos muito antes da urna
Não é preciso ser candidato para começar a ser construído como político. O caso de Tomás Covas (PSDB), filho de Bruno Covas (1980-2021) e bisneto de Mário Covas (1930-2001), ajuda a entender como funciona essa antecipação. Quando Bruno morreu, em maio de 2021, Tomás tinha apenas 15 anos. Naquele período, enquanto acompanhava os últimos meses do pai na Prefeitura de São Paulo, o adolescente já estava próximo do ambiente político que cercava a família.
Poucos meses depois da morte de Bruno, Tomás se filiou ao PSDB. Em 2022, aos 16 anos, já aparecia em reportagens como alguém que pretendia entrar definitivamente na política.
Em 2024, o adolescente voltou ao centro das especulações. Durante a campanha pela reeleição de Ricardo Nunes (MDB) à Prefeitura de São Paulo, o prefeito afirmou que o jovem seria bem-vindo no MDB e falou abertamente sobre seu potencial político. Tomás, naquele momento, não era candidato, mas sua possível entrada na política já era tratada como uma questão pública.
Tomás Covas é apontado como um futuro candidato por lideranças do PSDB e do MDB de São Paulo. Foto: Divulgação
Ele tem hoje 21 anos e não é candidato em 2026. Por isso, não entra na lista dos “nepobabies” que disputam a eleição deste ano. Mas seu caso é importante para entender a engrenagem por trás dessas sucessões.
A construção de uma dinastia não começa necessariamente no registro da candidatura. Pode começar quando um adolescente é apresentado como herdeiro de uma trajetória política, quando passa a frequentar campanhas, quando se aproxima de dirigentes partidários ou quando lideranças começam a falar publicamente sobre seu futuro eleitoral.
Alvinho Lira representa o momento em que essa preparação chega à urna. Tomás Covas representa o estágio anterior, quando o futuro político ainda está sendo construído.
É assim que as dinastias se renovam. Não necessariamente pela transferência automática de um cargo, mas pela preparação antecipada de quem poderá ocupar o espaço deixado pela geração anterior.
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