Artigos
Dark Horse. Um roteiro que parece confuso no começo. E que no final parece o começo
Quando o golpe finalmente acontece, a dramaturgia estadunidense-brasileira abandona o realismo e atinge seu limite poético
Certa vez, li uma entrevista de um grande cineasta brasileiro, diretor internacional, que dizia ter recebido um roteiro de um filme e o leu pensando ser uma comédia. Achou graça aqui e ali, em outras coisas nem tanto, mas qual não foi a sua surpresa ao ser avisado pelo seu agente que se tratava na verdade de um drama.
Pois é. Isso pode acontecer? Facilmente. Principalmente quando algumas portas não se abrem logo no começo do drama (falo aqui da estrutura dramática da escrita, não do gênero) e não se define de forma clara a identidade da obra. Nenhum roteirista está imune a isso.
Porém, essa confusão definitivamente não acontece na leitura de Dark Horse (O Azarão, na tradução livre). Claramente uma comédia, mesmo que involuntária.
O filme conta a história de uma turminha de extrema direita da pesada em altas aventuras (favor ler com a voz do locutor que anuncia a Sessão da Tarde). Título que recebeu na internet uma tradução bem adequada: Pangaré das Trevas.
A recepção do público já gerou ótimas ideias para os próximos passos da franquia, como Dark Horse: A Sociedade do Zap, Dark Horse: O Evangelho Segundo Jair, Dark Horse e o Cálice de Cloroquina e, a minha preferida, Dark Horse: A Segunda Facada (Agora no Vorcaro).
Mas estamos aqui para falar do roteiro tecnicamente. Mesmo isso sendo isso praticamente impossível, pois não há nada de técnico nele. De forma geral a obra lembra bastante um roteiro de novela, onde predominam diálogos em detrimento de ações. Não que nenhum dos dois elementos sejam bons.
Tomei então a liberdade de selecionar os “melhores momentos” dessa pitoresca obra da dramaturgia estadunidense-brasileira. Não foi fácil, não foi tranquilo, mas eu tentei.
O roteiro já na sua primeira página diz a que veio, e de forma bem explícita: Jair é, como se diz no subúrbio carioca, seduzente.
Tudo isso acontece durante um talk show apresentado pela jornalista Natália — “durona, influente” —, sim, é exatamente como está lá a descrição da personagem. Aqui abro um parênteses como professor de roteiro, que já fui e às vezes ainda sou: alunos, não descrevam suas personagens assim, obrigado. Fecha parênteses.
Natália já se mostra surpresa e até um pouco atraída pelo jeito rústico e amoroso de Ja-ear — existe essa marcação fonética no texto para que os atores americanos não sintonizem o nome do mito na frequência errada.
Ja-ear ao ser perguntado o que ele é por baixo de toda aquela figura pública explica: — Algo que você nunca viu. Um homem. (Tá ok?)
Não, o “Tá ok” não existe no roteiro original. Mas pra mim é impossível ler cada frase dita por Ja-ear sem embutir esse caco no final.
Eis que Natália, com um “sorriso travesso” (SIC), responde o que qualquer um responderia diante do olhar magnético do protagonista: — Você é um provocador. E o roteiro em inglês a descreve: “desconcertada com a profundidade daquilo, recompondo-se rapidamente.” Notem bem, estamos na primeira das mais de 100 páginas dessa epopeia.
Mais à frente, nosso Ja-ear é descrito pelos roteiristas gringos como “alto, atraente, de sorriso fácil, espirituoso, enérgico e divertido ao mesmo tempo”… A ficção é fascinante. E é desse espírito evoluído que vem o petardo proferido em outra entrevista do filme: — Boatos são como peidos: sempre saem de um cuzão. Agora o Oscar vem!
Os vilões aparecem logo depois, numa construção de arquétipos que lembra algo entre os antagonistas do Batman de Adam West e o Sargento Pincel de Os Trapalhões. A começar pelo executor do plano maligno. No multiverso de Dark Horse, o esfaqueador não se chama Adélio; ele atende pelo magnífico nome de Aurélio Barba.
É o tipo do vilão que já surge torcendo os bigodes e já desfila seu currículo invejável no submundo do extremismo narrando sua passagem pelos Socialistas Radicais e pelos Marxistas — grupo que ele confessa ter abandonado por um motivo peculiar: “eles usam drogas demais”. Tudo isso sempre se referindo a ele mesmo na terceira pessoa. Algo fascinante.
Mas Barba, o responsável por executar o atentado a Ja-ear – sim, o roteiro retrata a malfadada facada – não age só.
Paulo Pontes é o grande arquiteto do atentado, atuando como uma espécie de Lex Luthor burocrático tupiniquim que contrata o serviço sujo de mercenários pechincheiros. Pontes é a personificação literal do temido “Sistema” e o roteiro o desenha com a profundidade de um antagonista estilo A Estranha Dama, clássico do SBT dos anos 90. Ele move as engrenagens do poder pelo simples fato de que, bem, é exatamente isso que engravatados malvados fazem quando um homem seduzente e “provocador” ameaça o status quo. Ele é a cola conspiratória que une os traficantes marxistas dos anos 80, o assassino de aluguel e as enfermeiras lulistas em um único e tenebroso sindicato do mal.
Dali para a frente, a narrativa abandona o suspense político e abraça de vez o realismo fantástico com a introdução de Dona Dolores. Ela brota do éter durante um almoço de família, entrega pílulas caseiras misteriosas para proteger Ja-ear de uma “febre iminente” e simplesmente desaparece no ar. Algumas cenas depois, reaparece na UTI, como quem surge numa goiabeira – referência jogada no ar – apenas para confirmar que ele foi poupado por forças divinas. É a estética do “Gótico de Zap” em seu puro suco. Dá pra ver muito da brasilidade do autor Mario Frias, e de sua obra Capitão do Povo, de onde esse belo roteiro foi inspirado. Dona Dolores com certeza teria espaço no clássico Os Mutantes: Caminhos do Coração (2008), em que nosso ex-Secretário Especial da Cultura brilhou como ator.
É impossível ignorar a própria sequência do atentado, o ápice dramático do longa que no roteiro ganha contornos de uma tragédia grega dirigida pelo Zack Snyder. A aproximação furtiva de Aurélio Barba entre a multidão tem toda a sutileza do Chapolin Colorado.
Quando o golpe finalmente acontece, a dramaturgia estadunidense-brasileira abandona o realismo e atinge seu limite poético. As rubricas de ação detalham que o assassino segura a faca com ambas as mãos e a gira no abdômen do protagonista “como uma britadeira” (“like a two-handed jackhammer”).
Mas o verdadeiro requinte cinematográfico vem em seguida. Para descrever a mancha na roupa do herói sustentado pelos braços do povo, os roteiristas nos brindam com a seguinte imagem: “O traço de uma minúscula flor vermelha desabrocha em sua camisa” (“The trace of a tiny red flower blooms on his shirt”). Lágrimas…
Chegamos ao hospital, onde grande parte do “filme” se passa. Destaco a sequência da cirurgia que tenta ser um suspense hitchcockiano, mas acaba virando um Corra que a Polícia Vem Aí – dá pra visualizar o Leslie Nielsen vestido de médico chegando a qualquer momento. Ja-ear enxerga em cada bisturi levantado uma conspiração comunista para roubar seus órgãos. E eu me perguntando… Pra quê? O roteiro descreve os pensamentos paranóicos do nosso herói na mesa de operação, convicto de que a junta médica de Juiz de Fora é uma célula terrorista adormecida composta por “adoradores do Lula” prontos para sabotar seus órgãos. É o medo do Perigo Vermelho reeditado com a sutileza das tramas de Scooby-Doo.
Eis que após acordar da anestesia Ja-ear num ímpeto de pura liderança dramática, simplesmente demite o próprio filho, Flávio. Sem grandes justificativas narrativas. Quase um “POV: você foi visitar seu pai na UTI e saiu desempregado”.
A vida imitando a arte?
O grand finale guarda a introdução do grande nêmesis da franquia. Na última página, enquanto os antagonistas assistem ao triunfo de Ja-ear pela TV, a câmera revela a silhueta do grande arqui-inimigo na sala. A descrição oficial do roteiro entrega o ouro: “Um homem esguio (Slender Man), careca, sério, de postura prepotente… Ele poderia ser um ministro do Supremo Tribunal Federal. Poderia.” Muitas, mas muitas camadas.
São 108 páginas que parecem tranquilamente umas 500. É duro. Ao terminar a leitura, lembrei de uma postagem que vi dia desses na grande rede. Alguém dizia que iria rever a Paixão de Cristo só para ver o ator principal de Dark Horse apanhando de novo.
Agora, faz todo sentido para mim. (Tá, ok?)
P.S.: Aqui vai um apelo de um profissional do cinema. Mesmo que este artigo instigue você, de alguma forma, a assistir ao referido filme, dê prioridade antes a todos os filmes que estão na nova Tela Brasil, o streaming público e gratuito recheado de obras espetaculares do nosso cinema. São produções feitas com qualidade, com arte, entregando algo que vai muito além de uma propaganda política mal executada e financiada de forma obscura. O cinema nacional agradece.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Filme de terror
Por André Barrocal
Não dá para competir
Por José Guilherme Pereira Leite
As reações à sugestão de Eduardo Bolsonaro sobre Pix e Zelle, dos EUA
Por CartaCapital



