Política

‘Cristão vota, sim, no PT’: o tom do encontro de Lula com evangélicos no Rio

No evento, com a presença de dezenas de lideranças religiosas, o ex-presidente tornou a sinalizar que deseja vencer no 1º turno

O ex-presidente Lula durante encontro com lideranças evangélicas em São Gonçalo (RJ). Foto: André Borges/AFP
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O ex-presidente Lula (PT) iniciou, nesta sexta-feira 9, um novo capítulo de sua campanha, com foco em atrair eleitores evangélicos. Em encontro com dezenas de lideranças do segmento, realizado em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, o petista deixou claras as suas intenções logo no início de sua contribuição: ‘vencer no primeiro turno’.

A declaração ocorreu logo após ele ler uma carta escrita por uma criança presente no evento, a listar uma série de pedidos como ampliar a inclusão social e acabar com o desmatamento. “Ela escreveu bem grande, vamos no primeiro turno”, leu com tom enfático. “É uma pena que ela só tenha 8 anos e ainda não tenha título.”

A tônica evidenciada pelo petista já havia sido antecipada nos primeiros minutos do ato. Ao subir no palco, o pastor Alair Lima, da Igreja Batista de Jardim Alcântara, destacou que ‘sua missão’ desde que decidiu apoiar o ex-presidente tem sido desmentir boatos de que evangélicos não podem votar na esquerda e, com isso, ajudar a sacramentar a vitória de Lula já no primeiro turno.

“Hoje é um dia histórico, porque hoje nós vamos desconstruir uma mentira de que cristão não vota no PT. Eu conheço muitos que votam no PT”, enfatizou Lima em mais de uma oportunidade. “Se cada um fizer sua parte, dá para vencer no primeiro turno. Falta só um pouquinho.”

Sérgio Dusilek, pastor da Igreja Batista Marapendi, destacou uma ‘missão’ parecida. Disse a Lula que tem se dedicado a rebater mentiras que tentam colocar o petista e os evangélicos em lados opostos. Para isso, afirmou, tem pedido aos seguidores de sua igreja que ‘relembrem’ como era a vida durante os governos petistas. ‘Essa é a chave’, explicou:

“O melhor tempo para as igrejas evangélicas foi o seu. Não só pela liberdade, mas porque o senhor promoveu justiça social. O povo que pastoreamos era feliz. Tinha laje para fazer churrasquinho e hoje o povo fica embaixo de outra laje”, destacou Dusilek.

Ariovaldo Ramos foi outro a declarar que eleger Lula em primeiro turno, em 2 de outubro, seria uma forma de praticar o que prega o Cristianismo. Para ele, Jair Bolsonaro (PL), apesar de se dizer representante do grupo, estaria distante daquilo que os ensinamentos de Jesus representariam e, por isso, precisa ‘ser afastado’.

“Eles [clã Bolsonaro] mentiram, eles usaram em vão o nome do nosso Senhor e salvador Jesus Cristo. Eles zombaram da cruz, mas isso vai ter fim no dia 2 de outubro, em nome de Jesus.”

Ramos, vale dizer, é pastor da Comunidade Cristã Renovada e atual coordenador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que recentemente declarou apoio ao ex-presidente já no primeiro turno. Após o manifesto, ele foi escolhido como um dos interlocutores da campanha do petista com esse segmento do eleitorado.

Lula, como de costume, foi o último a falar. Antes, ouviu a leitura da Carta de evangélicos e evangélicas, documento que elencou motivos para que cristãos votem no petista. O texto, como os discursos, focou em ‘desmentir Bolsonaro’.

Após citar a urgência do combate à fome, expressa pela campanha do petista, o texto afirma que os evangélicos devem escolher Lula porque ele ‘defende a família’ ao se comprometer com projetos de desenvolvimento, como ‘distribuição de renda, habitação, vacinação, educação pública, saúde, cuidado com as mulheres, emprego e aumento real do salário’. “Vimos que você cuidou da família”, repete a carta em diversas passagens.

Lula ouviu ainda discursos de André Ceciliano (PT), que concorre ao Senado, e Marcelo Freixo (PSB), que busca o cargo de governador do Rio. Novamente, defendeu-se o esforço dos presentes em ‘desmentir’ Bolsonaro para atrair novos evangélicos para a base de Lula. Freixo também destacou o papel social das igrejas em presídios e na redução da violência doméstica.

“O Estado precisa chegar aonde vocês já estão, e ele tem chegado só com violência. Precisa chegar com esporte, cultura e lazer. Se não fossem vocês, a vida dos mais pobres hoje estaria muito pior”, disse Freixo ao se dirigir aos pastores. O mesmo papel foi celebrado por Lula adiante.

Por fim, Geraldo Alckmin (PSB) também discursou e aproveitou o curto tempo para alfinetar Bolsonaro: “Nós estamos aqui para combater o ódio e a violência. […] Jesus diz: ‘amai-vos uns aos outros’. Ele nunca disse: ‘armai-vos uns aos outros’. Um milhão de armas e metade das mortes de mulheres é por arma de fogo. Quando a mulher é ameaçada, a família é ameaçada. O presidente Lula colocou em prática os valores cristãos”.

A crítica à liberação de armas também fez parte das declarações de Lula:

“Eu recolhi 620 mil armas e distribuí 16 milhões de livros por ano”, afirmou o ex-presidente. Segundo ele, quem se aproveita da liberação de armas de fogo são os bandidos, não ‘pais de família ou pastores’. “Quem pode comprar arma? Quem tem dinheiro pra comprar arma? O pai de família não.”

Assim como a carta lida no evento, Lula centrou esforços em dizer que cuidou da família e das mulheres com seus programas sociais. Ele lamentou que Bolsonaro tenha desmontado as principais ações e garantiu que pretende retomar os programas caso seja eleito.

“Eu tinha uma obsessão de cuidar da família”, prosseguiu Lula. “Eu quero dizer que vou voltar a governar este País e vai acabar a fome. Vou voltar e não vai ter casa verde e amarela, mas da cor que vocês quiserem, porque o Minha Casa Minha Vida vai voltar. O salário mínimo vai voltar a crescer. As crianças vão poder voltar a ir para a universidade, vai voltar o ensino integral. Vou fazer o que precisa ser feito neste País.”

O ex-presidente também repetiu ter sido um fiador da lei da liberdade religiosa, aprovada durante o seu governo. “Sei a quantidade de mentiras que contam a meu respeito, não é de hoje. Quando fui candidato pela primeira vez, me chamaram de demo. E posso olhar na cara de cada mulher e jovem e dizer que nunca houve um presidente que tratasse a religião com a democracia com que eu lidei.”

“Duvido que alguém tenha cuidado e garantido a liberdade de criar igreja e praticar a fé como eu. Eu fiz isso porque aprendi que o estado não deve ter religião, não deve ter igreja, e sim garantir o funcionamento e a liberdade de quantas igrejas o povo quiser criar”, emendou Lula.

Ao final, ele ainda criticou pastores como Marco Feliciano, que tem espalhado mentiras sobre um suposto fechamento de igrejas ou perseguição a cristãos caso o PT volte ao poder. “Eu admito que um ser humano normal possa mentir, mas não é aceitável que um pastor minta. Ninguém pode mentir em nome de Deus. Usar o nome de Deus em vão e para tentar ganhar voto…”

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