Como a esquerda brasileira tem se comportado dentro do Telegram

Partidos e líderes do campo progressista têm, aos poucos, migrado para a plataforma. Mas ainda sem o mesmo alcance da direita bolsonarista

Redes Sociais Foto: Istock

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Política,Tecnologia

Em terra de WhatsApp, um novo aplicativo de mensagens tem ganhado terreno. Em pouco menos de dois anos, o Telegram alcançou 45% dos celulares brasileiros, segundo uma pesquisa da MobileTime com a Opinion Box, divulgado neste ano.

O crescimento do app russo, mostra a pesquisa, coincidiu com uma queda no número de usuários do WhatsApp. E a grande explicação para essa migração,conforme avaliam especialistas, é o endurecimento das regras do WhatsApp contra a desinformação.

Com a premissa de proteger a integridade dos usuários, o Telegram abertamente diz “não colaborar” com governos e investigações sobre o conteúdo veiculado no aplicativo. Para os políticos, essa liberdade abre caminho para campanhas políticas mais agressivas, inclusive baseadas em mentiras.

Com a opção de criar “canais” de divulgação no Telegram – grupos abertos onde apenas administradores podem enviar mensagens -, notícias falsas são facilmente veiculadas, inclusive para outras redes sociais. Um exemplo é o canal “VotoImpressoAuditável”, acusado de divulgar desinformação para mais de 121 mil inscritos. A plataforma é gerenciada por uma empresa de tecnologia e pago com verba parlamentar de Bia Kicis (PSL-DF).

A direita e a extrema-direita marcam no Telegram pelo menos desde 2018. O canal oficial de Jair Bolsonaro no aplicativo já possui mais de 737 mil inscritos. Mais recentemente, partidos e políticos de esquerda e de oposição também migraram para a plataforma. Mas não com o mesmo sucesso e estratégias.

No dia 10 de junho, Lula criou o ‘Canal do Lula’, que registra mais de 23 mil inscritos — apenas 3,3% do número de seguidores que detêm o canal de Bolsonaro. Outros grandes nomes da oposição e possíveis pré-candidatos às eleições de 2022, como o ex-prefeito Fernando Haddad, o governador do Maranhão Flávio Dino e o governador de São Paulo João Doria, até o momento não aderiram à plataforma – os dois últimos, entretanto, prometem estrear no aplicativo em breve.

Em conversa reservada com CartaCapital, os responsáveis pela comunicação de alguns parlamentares indicam que o principal objetivo da comunicação no Telegram é, além de rede contas do próprio trabalho e responder ataques, é desmentir notícias falsas. Os grupos de esquerda funcionam, portanto, mais como agências de fact-checking do que como QGs de campanha eleitoral..

Sobre esse assunto, CartaCapital conversou também com o cientista político Sérgio Soares Braga, especialista em tecnologias digitais e análise do comportamento legislativo pela Universidade Federal do Paraná.

Confira a seguir.

CartaCapital: Qual a influência das redes sociais no processo eleitoral neste momento?

Sergio Braga: Estudos empiricamente orientados apontam que ela vem crescendo de eleição para eleição, e boa parte dos conteúdos políticos são produzidos hoje para serem disseminados nas mídias digitais, inclusive o próprio Horário Eleitoral Gratuito. Além disso, há o fenômeno da “campanha digital permanente”, onde os políticos ficam o tempo todo usando as mídias digitais para postar mensagens políticas. Por fim, o fenômeno da “hiperpolitização” da vida cotidiana, já detectado por Wilson Gomes e outros pesquisadores, especialistas em mídias digitais.

CC: Nas eleições de 2018, o engajamento das redes sociais cresceu entre a direita. Como o senhor percebe o uso dessas mesmas redes por candidatos e partidos de esquerda?

SB: As mídias digitais, em princípio, a meu ver, favorecem correntes políticas antissistema, que criticam o status quo e fazem a ligação entre si de grupos e indivíduos que não estão previamente organizados. No último pleito, ela de fato favoreceu os movimentos de direita e extrema-direita, em grande parte devido à manipulação algorítmica e estratégias profissionalizadas de difusão da desinformação, gerando inclusive uma percepção muito pessimista sobre os impactos das mídias digitais por parte de muitos analistas. Não creio, entretanto, que essa “captura” das mídias digitais pela direita seja inevitável. Acho que as mídias digitais favorecem um estilo de comunicação mais direto e imediato que as forças políticas progressistas ainda estão começando a aprender a utilizar.

Para isso, penso que o segredo é que a esquerda adote um estilo mais responsivo e participativo de atuação, tentando ocupar as redes digitais, mas sem se submeter ao domínio das grandes corporações privadas que a controlam.

Não é fácil, mas também não é impossível, como mostram por exemplo “cases” como o de Flávio Dino, durante seu governo, Marcelo Freixo, durante o exercício de seu mandato, ou Guilherme Boulos, nas últimas eleições para a prefeitura de São Paulo.

CC: Quais as principais diferenças entre a comunicação nas redes sociais e nos grupos privados de troca de mensagem?

SB: A meu ver, o que chama a atenção é a grande importância recente do que eu chamo de mídias digitais não-públicas, como o WhatsApp, Telegram e outras. Mídias digitais tais como Twitter, Facebook, Youtube, Instagram são mídias digitais públicas, onde, em princípio, todos podem ter acesso ao conteúdo postado. Isso permite com que, em caso de mensagens de desinformação, calúnia, difamação,  ou discurso de ódio, o cidadão ‘printe’ essas postagens e eventualmente processe judicialmente o seu autor.

Já no caso do Whatsapp ou Telegram, esse processo de monitoramento pelo público é mais difícil, o que faz com que essas mídias sejam as preferidas por grupos de extrema-direita para desconstruir os adversários e espalhar desinformação. Na verdade são essas mídias digitais não-públicas e as informações que nela circulam que a meu ver são preocupantes para a democracia, já que qualquer um pode difundir informações falsas para enganar e confundir  deliberadamente o cidadão-de-bem, e não fazer um processo de debate público de ideias e propostas, sob o escrutínio de todos. Penso que os esforços de monitoramento e, inclusive, de intervenção judicial devem se concentrar nessas mídias não públicas, por mais difícil que isso seja.

Grupos mal-intencionados, especialmente de extrema-direita, tendem a migrar de mídia, à medida que a fiscalização judicial e o monitoramento civil vão se intensificando. A bola da vez agora parece ser o Telegram. Como tudo indica que o bolsonarismo está preparando um golpe de Estado com o apoio de milícias armadas para contestar os resultados do pleito de 2022, é preciso que as autoridades judiciais e inclusive militares estejam atentas para essa movimentação, para inibir qualquer tentativa de insubordinação contra a democracia. Em caso contrário, corremos o risco que se repita aqui no Brasil uma situação próxima à guerra civil a partir da contestação de resultados eleitorais, como ocorreu na Bolívia recentemente.

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Estagiário de CartaCapital

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