‘Tudo indica que o Telegram será o grande elemento desestabilizador das eleições de 2022’

Thiago Tavares, presidente da Safernet Brasil e especialistas apontam risco da falta de transparência e envio de mensagens em massa no app

Redes sociais. Foto: iStock

Redes sociais. Foto: iStock

Política,Tecnologia

Que as redes sociais mudaram a forma de se relacionar no mundo, não é novidade. Seja pelo WhatsApp, Facebook, Instagram ou Telegram, a vida foi reescrita para acontecer também no ambiente virtual. Os políticos também encontram nesse espaço solo fértil para conquistar apoiadores, criar narrativas eleitorais e até tentar reescrever o passado. 

Em 2018, o Facebook foi um dos centros de disputa política no Brasil. Grandes grupos ideológicos como o Movimento Brasil Livre (MBL) se multiplicaram na rede, muitas vezes com a disseminação de mentiras impulsionada por bots. Na época, a plataforma viu-se pressionada a criar novas regras contra a propagação de fake news e restringir o alcance de perfis políticos, o que resultou naquele ano no banimento do grupo MBL.

 

 

Pouco depois de um ano das eleições brasileiras, Ben Soupple, representante do WhatsApp, admitiu que houve disparos em massa no aplicativo durante o pleito presidencial que elegeu Jair Bolsonaro.  

Com a confirmação da influência das redes para o processo eleitoral, mais mudanças surgiram, dessa vez no WhatsApp. Existe agora um número limite para o repasse simultâneo de mensagens, além de um alerta de que aquela é uma mensagem encaminhada. 

Ao contrário do que ocorre nas redes sociais, como o próprio Facebook, nos aplicativos de mensagens é mais difícil localizar o responsável pela divulgação de informações falsas.

“Aquilo é criptografado de uma ponta a outra, não fica disponível. Essa talvez seja a grande diferença entre aplicativos de mensagens de um lado e plataformas de redes sociais do outro. O que você posta no Facebook, no Twitter, lá fica”, explica Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab, centro de pesquisa em Direito e Tecnologia. 

Diante desses entraves, organizações e figurões da política tem encontrado no Telegram a solução para dar continuidade a seus planos. Desta vez, unindo a funcionalidade de ambas os tipos de plataformas: a troca de mensagens privadas do WhatsApp e o disparo em massa de conteúdo das redes sociais.

Fundado por russos em 2013, o Telegram ganhou destaque com o vazamento da troca de mensagens entre o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, que mostraram que a força-tarefa e da Operação Lava Jato e o ex-juiz atuaram juntos para influenciar o julgamento do ex-presidente Lula.

Mais recentemente, a plataforma se tornou abrigo dos grupos de direita e apoiadores do atual presidente desde que o Facebook, Whatsapp e YouTube tomaram medidas mais rigorosas contra a fakenews, como a sinalização de conteúdo falso.

Com essa mesma linguagem de mensagens privadas ou em grupos, o aplicativo assume para si a antiga proposta do WhatsApp: o compartilhamento com alcance em massa. A permissão de encaminhar mensagens para quantas pessoas quiser, seja em grupos ou canais.

Sendo assim, ele se tornou o aplicativo mais baixado do mundo em janeiro de 2021, com 63 milhões de downloads, segundo os dados divulgados pela Sensor Tower. O ritmo de crescimento aumentou após a atualização mais recente na política de privacidade do WhatsApp, que provocou polêmica por permitir o compartilhamento de dados do aplicativo com o Facebook (ambos pertencem à mesma empresa).

 

‘Não é uma migração’ 

Apesar do boom do Telegram, as pessoas não deixaram de usar o WhatsApp. O app russo opera como uma rede adicional, que retransmite conteúdo das demais

Um exemplo são os canais mantidos por Jair Bolsonaro e seus filhos e apoiadores. Usa-se o Telegram para compartilhar material, mas conta-se com os seguidores para transmitir as mensagens em outras plataformas. Embora o uso de bots e canais de disparo em massa sejam importantes, o compartilhamento orgânico ainda é o fator-chave para a propagação de informações da rede.

O Telegram diz que as conversas com criptografia ponta a ponta nos chats privados “garantem que nenhum governo ou bloco de países com ideias afins possa invadir a privacidade e a liberdade de expressão das pessoas”. Além disso, a plataforma também informa que todo o conteúdo disponibilizado é de responsabilidade do usuário, e portanto não aceita denúncias ou pedidos de exclusão.

Para o sociólogo digital e pesquisador na Universidade Federal da Bahia, Leonardo F. Nascimento, o maior diferencial entre 2018 e 2022 estará no potencial  do Telegram: “Nos canais, o emissor dispara a mensagem para um número ilimitado de pessoas. Quanto maior o canal, maior serão os compartilhamentos para fora do aplicativo”.

E mesmo que a plataforma seja usada também por lideranças de esquerda, centro e outros grupos partidários e não-partidários, o crescimento é mais expressivo nos canais coligados ao presidente. É o que diz um levantamento conduzido pelo Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA com a agência de pesquisa Volt Data Lab.

O canal de Carlos Bolsonaro, 03, por exemplo, passou de 8.603 para 33.893 integrantes em apenas três meses, um crescimento de mais de 290%. Os dados coletados revelam não só um crescimento, mas uma possível “preparação de território” para alavancar a campanha bolsonarista em 2022. 

 

‘Terra de ninguém’ 

A falta de transparência contribui para que as inverdades sejam compartilhadas em larga escala sem punição.  “O Telegram não tem representante legal no Brasil, não tem servidores aqui, não tem nenhuma presença jurídica, você não tem a quem recorrer. O que te dão é um território livre para todo e qualquer crime, inclusive no período eleitoral”, aponta Thiago Tavares, presidente da ONG SaferNet Brasil e coordenador da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos.

Ao redor do mundo, a vista grossa do aplicativo à apologia à violência também é fonte de protesto. Após a invasão de Capitólio nos Estados Unidos em recusa à vitória de Biden, a pesquisadora e ativista Gwen Snyder recebeu ameaças de morte e teve dados pessoais divulgados em forma de retaliação a suas denúncias contra os grupos extremistas. 

Ela lidera a POWER, uma coalizão inter-religiosa da Filadélfia que combate a supremacia branca e o racismo estrutural e denuncia o ocorrido em várias redes sociais, criticou a resposta do Telegram, que afirmou que bloqueou os grupos, mas segundo ela os grupos continuavam no ar. 

 


O documento esclarece que as medidas das redes sociais em relação as políticas da plataforma de remoção de conteúdo falso, punição dos crimes de ódio e até mesmo abertura de dados para identificação e punição de autores de crimes de terrorismo, são os relatórios de transparência

Seria através dele, por exemplo, que poderia verificar se o Telegram bloqueou ou não os grupos extremistas americanos denunciados por Snyder. O Telegram afirma compartilhar os relatórios de seis em seis meses, porém o canal criado em 13 de agosto de 2018 segue vazio até hoje. 

 

 

Redes sociais mais recentes, como o TikTok, possuem o relatório, o aplicativo divulga remoções de conteúdo e solicitações judiciais desde 2019. O Facebook, Twitter e Instagram também reforçam a mesma prática. 

Além da transparência, outro sinal de alerta é para os bots. A construção do Telegram foi pensada para a criação e proliferação dos robôs mecânicos, que podem ser de simples mensagens automáticas como já existem no WhatsApp Business mas podem ir bem além e se expandir ao comércio de automatização de mensagens, para chegar a um público específico e a quantas pessoas você quiser, com cara de gente comum. 

Apesar da plataforma oferecer um tutorial de como criar os bots, a política de privacidade é enfática ao dizer que não se responsabiliza pelos softwares criados ali e pelos dados que eles possam reter: “Além de nossos próprios bots, nenhum outro bot ou desenvolvedor de bot de terceiros é afiliado ao Telegram. Eles são completamente independentes de nós. Eles devem pedir sua permissão antes de acessar seus dados ou de você disponibilizá-los”. 

 

O artigo 34 da Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe o disparo de mensagens em massa. Umas das penalidades é a remoção do conteúdo, mas como isso não é possível nesse tipo de mensagem, a multa pode chegar de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) a R$ 30.000,00 (trinta mil reais). A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) também proíbe a prática. 

A Safernet Brasil através da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos investigou e repassou 96 casos de fraudes eleitorais nas eleições de 2020. Thiago Tavares aponta que nas eleições de 2022, a preparação para os problemas com as redes sociais passam por um problema antigo, a falta de equipe para investigar a quantidade de denúncias. Além disso, ele ressalta: “como a empresa [Telegram] irá a cooperar com as autoridades eleitorais brasileiras, com o cumprimento das resoluções do TSE sobre propaganda e sobre disparo em massa de mensagens, é só pergunta sem resposta e temos pouco tempo pra encontrar essas respostas, afinal de contas a as eleições já são no ano que vem”. 

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Estagiária de CartaCapital

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