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Com o pé nas ruas

Como as minorias e líderes de movimentos sociais recém-eleitos buscam furar o bloqueio da maioria reacionária

Renovação. Xakriabá, Ana Júlia Ribeiro e Rosa Amorim, novatas nos parlamentos, mas com trajetória de luta social, são algumas das apostas do campo progressista - Imagem: Edgar Kanaykõ e Redes sociais
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“Eles decidiram passar a boiada, nós resolvemos passar com o nosso cocar.” É assim que a primeira ­deputada federal indígena eleita por Minas Gerais, Célia Xakriabá, do PSOL, define o desafio de ocupar o Congresso a partir de 2023. As dificuldades são evidentes. A maior bancada da Câmara será a do PL de Jair Bolsonaro, com 99 deputados. Os partidos do Centrão e a bancada BBB – da Bíblia, do Boi e da Bala – continuam a dar as cartas no novo Parlamento. Por outro lado, o campo progressista finalmente conseguiu renovar seus quadros, com maior presença de rostos jovens, femininos, transexuais e oriundos da luta dos movimentos sociais.

O fato de estar em minoria entre os 513 deputados não assusta Xakriabá, professora e ativista mineira de 32 anos que ocupará pela primeira vez um cargo eletivo. “Se a nossa voz não for suficiente, vamos convocar o povo do lado de fora”, garante. Ao lado dela, para compor a “Bancada do Cocar”, estarão Sônia Guajajara, também do PSOL, além de Juliana Cardoso e Paulo Guedes, ambos do PT. Com a proposta de “reflorestar o Salão Verde” da Câmara, diz respeito a apresentar uma nova forma de pensar e de fazer política, ­Xakriabá promete uma atuação mais conectada com a natureza e os princípios de igualdade de gênero, raça e classe. “Se as pessoas estão realmente preocupadas com a economia, elas precisam saber que o ecocídio em curso no Brasil vai custar muito caro nas relações internacionais e para o futuro da humanidade.”

A partir de 2023, os fundamentalistas da Câmara também precisarão aprender a conviver com a diversidade de gênero. Duas mulheres transexuais vão ocupar assentos na Casa, Érika Hilton, do PSOL de São Paulo, e Duda Salabert, do PDT de Minas Gerais. Em entrevista recente no canal de CartaCapital no YouTube, ­Hilton anunciou a intenção de propor uma “CPI da Verdade”, para passar a limpo todo o retrocesso na agenda de direitos humanos do Brasil sob o comando do capitão. O número de negros também aumentou. Entre os autodeclarados pretos e pardos, serão 135 novos parlamentares. O crescimento da bancada de mulheres negras, em comparação a 2018, foi de 123%, elas passaram de 13 para 29 cadeiras.

O avanço não ocorreu apenas no Congresso Nacional. Nos Legislativos estaduais, o perfil dos deputados começou a mudar. Pela primeira vez, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra lançou 15 candidaturas com o objetivo de levar a luta pela reforma agrária e por uma alimentação saudável para o campo institucional. Destas, sete saíram vitoriosas. É o caso de Rosa Amorim, eleita para a Assembleia Legislativa de Pernambuco. “Sempre achamos que o movimento social deveria estar na retaguarda, pressionando os parlamentares e os governantes por mudanças. A falta de representatividade nos fez perceber, porém, que é preciso fortalecer as instituições com quem faz a luta social. Então, o MST entendeu que este era o momento de dar uma guinada na nossa estratégia política e ocupar o Legislativo com bandeiras verdadeiramente populares”, explica.

“Se a nossa voz não for suficiente, vamos convocar o povo do lado de fora”,diz Célia Xakriabá, primeira deputada indígena de Minas

Primeira sem-terra eleita no estado, aos 25 anos, Amorim sente-se preparada para exercer seu mandato em uma Assembleia majoritariamente ocupada por homens brancos e da elite pernambucana, muitos deles ligados a latifundiários. “De um lado, vemos o avanço da extrema-direita, do fascismo e do conservadorismo. De outro, temos a reação das minorias, que não ocupavam espaços de poder e decidiram mudar esse cenário”, observa. “De certa forma, isso também é fruto da necessidade de renovação da esquerda, e penso que tivemos um saldo positivo nestas eleições.”

Antes de se lançar na disputa eleitoral, Amorim foi militante do Levante Popular da Juventude, além de ocupar o cargo de diretora de Cultura da União Nacional dos Estudantes por duas gestões. Estudante de Teatro, ela também é ligada aos movimentos culturais. “Fui forjada na luta do campo, mas acrescentei as bandeiras da juventude e da educação.” E promete continuar de mangas arregaçadas no segundo turno. “Lula ganhou do Bolsonaro com muita vantagem em Pernambuco, mas vimos que o bolsonarismo cresceu em municípios de médio porte e isso impõe um desafio. Como reverter esse quadro? Precisamos transformar a campanha em um grande movimento de massa, avermelhando as principais cidades.”

Se o Nordeste desponta com essa “onda vermelha”, o mesmo parece impensável no Sul, onde Bolsonaro nada de braçada. Justamente por isso o desafio de Ana Júlia Ribeiro, de 22 anos, a mais jovem deputada eleita para a Assembleia Legislativa do Paraná, é ainda maior. Militante do movimento estudantil e filiada ao Partido dos Trabalhadores, ela começou sua trajetória política muito cedo, em 2016, quando estudantes de todo o País ocuparam as escolas públicas em defesa da educação e da democracia.

Com o prestígio amealhado no movimento, Ribeiro conquistou uma das 54 cadeiras da Assembleia Legislativa do Paraná e sabe que terá de bater de frente com o reacionarismo da política local. “Temos um Parlamento envelhecido, dominado pelas oligarquias do estado. Minha missão é fazer um contraponto e dar voz aos movimentos populares. Sei que terei de quebrar muitas barreiras. Para isso, conto com o apoio dos cidadãos que depositaram sua confiança em mim. Não estou sozinha.”

A jovem deputada avalia que Lula faz sucesso na juventude, mas sua campanha poderia ser mais ousada. “Emprego e acesso à educação são importantes, mas é preciso avançar em pautas relacionadas à cultura e ao lazer. Queremos estudar e trabalhar, mas também temos o direito de nos divertir um pouco, de aproveitar os momentos de folga com os amigos.” •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1230 DE CARTACAPITAL, EM 19 DE OUTUBRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Com o pé nas ruas”

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