Letícia Cesarino

Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de 'O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital'

Colunas

Com Milei, Argentina acolhe na América Latina o cavalo de troia das distopias do Vale do Silício

Alguns no Brasil querem seguir seus passos. Estamos cientes dos riscos?

Com Milei, Argentina acolhe na América Latina o cavalo de troia das distopias do Vale do Silício
Com Milei, Argentina acolhe na América Latina o cavalo de troia das distopias do Vale do Silício
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente argentino, Javier Milei. (Foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP)
Apoie Siga-nos no

A recente visita de Javier Milei ao Brasil, em que se destacou como estrela da convenção partidária que sacramentou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência, gerou bastante repercussão no campo político brasileiro. Visto por muitos como capataz vergonhosamente submisso do presidente estadunidense Donald Trump, por outros como modelo de liderança “antissistema” a substituir o bolsonarismo no Brasil, Milei tornou-se ponto de confluência de tendências tecnopolíticas mais amplas na extrema-direita global.

Por trás das performances extravagantes do presidente argentino, há aspectos disruptivos do seu governo que têm sido menos notados. Estes remetem menos à política do que à metapolítica na qual têm convergido a extrema direita estadunidense e os grandes oligopólios do Vale do Silício. Movimentações recentes sugerem que a Argentina está protagonizando um processo incipiente de transformação da América Latina em laboratório para experimentos metapolíticos não apenas do trumpismo, mas também dos setores mais reacionários e antidemocráticos da indústria de tecnologia.

Comentei em textos anteriores sobre o interesse do dono da Palantir, Peter Thiel, no país vizinho, no qual ele acaba de comprar uma segunda residência. Milei destacou uma afinidade ideológica entre ambos, embora Thiel seja melhor categorizado como um neoreacionário do que, propriamente, um anarcocapitalista. Mas, para além disso, especula-se sobre uma real intenção de resguardar, em território sul-americano, um enclave de soberania privada paralela à do Estado, com terra e recursos naturais abundantes, protegido de eventuais cenários apocalípticos, incluindo um eventual conflito nuclear.

Mas Milei parece estar disposto não apenas a ceder terras e recursos do povo argentino aos bilionários aliados a Trump, mas também a avançar legislações estruturais nesse sentido. Há cerca de um mês, ele apresentou ao congresso argentino uma proposta de arcabouço normativo para a inteligência artificial, baseado em generosos benefícios fiscais e regulações frouxas, para atrair investimento estrangeiro.

Junto com seu Ministro de Desregulação, Mileu defendeu sua posição em um artigo no Financial Times intitulado “A Argentina convida a IA a se libertar”. O texto é, como se espera, esdrúxulo, e força as fronteiras do possível e do pensável na direção da distopia neoreacionária. A principal inovação seria a criação de uma nova entidade legal: “corporações não-humanas” possuídas e geridas por sistemas de IA, sem exigência de envolvimento humano. Numa curiosa – porém não surpreendente – inversão, ele afirma que são as máquinas que precisam ser libertadas da “mão mortífera” de “regulações prematuras e pouco compreendidas”.

O precedente histórico trazido é o da Companhia das Índias Orientais que, no século XVI, inaugurou a norma de “responsabilidade limitada” que blindou investidores dos riscos e perdas incorridos por suas empresas. No lugar de pessoas físicas, a blindagem legal de Milei seria agora oferecida a máquinas. Justificando-se por meio de outra analogia histórica, ele afirma que “assim como a revolução industrial nos libertou dos constrangimentos dos músculos humanos, a IA nos libertará dos constrangimentos do cérebro humano”.

Que exercitar o próprio cérebro pode ser prescindível ou até um fardo para alguém como Milei, não surpreende. O problema é como esses planos se estendem a todos nós enquanto sociedade. Como sugerido em uma resposta de Yuval Harari ao op-ed, as propostas de Milei — que vibrou com tanta atenção a ele dispensada — podem ser um primeiro cavalo de Troia, abrindo um flanco para a eventual materialização dos desígnios neoreacionários de Thiel e tantos outros que defendem uma “utopia” de estados privados governados por tecnologias de IA e blockchain e regidos por monarcas-CEOs, que se seguiriam ao que veem como um inevitável colapso do Estado democrático de direito.

O cavalo de Troia foi, contudo, um logro bem feito pelo qual todos os troianos foram enganados. No caso de Milei, temos o representante do próprio povo argentino abrindo seu território para os novos cercamentos tecnopolíticos    dos oligarcas da indústria tech. Trata-se de um modus operandi comum na extrema direita, que já vimos com Jair Bolsonaro: longe de governar, a palavra de ordem é delegar decisão e responsabilidades — para o Centrão, para o setor privado, para os Estados Unidos e, cada vez mais, para máquinas.

Não por acaso, aqueles que prometem seguir os passos de Milei no Brasil, agora agregados no novo partido Missão, têm se aproximado dos elementos mais antidemocráticos e limítrofes do universo tech. No ano passado, trouxeram ao país, com toda pompa e circunstância, um blogueiro neoreacionário que sugeriu que, numa sociedade do futuro, pessoas não produtivas fossem transformadas em biodiesel. Ato contínuo, ele alegou, como é de praxe, que estava “só brincando”. Mas devemos começar a nos perguntar por que, entre tantas possibilidades de brincadeira, ele optou por fazer justamente essa.

Pessoas que fizeram fama através de comportamentos disruptivos e agressivos, como Milei e seus seguidores brasileiros, prometem futuros radicalmente diferentes do que vivemos hoje. Para além das óbvias dificuldades pragmáticas de implementar suas soluções simplistas, há que se perguntar de onde vem uma imaginação política baseada nesse tipo de “brincadeira”. Por detrás da performance provocativa, do discurso transgressor e da estetização da política, precisamos saber qual imagem de futuro de fato permeia os recônditos sombrios da mente daqueles que nos pedem um voto de confiança para conduzir populações inteiras por cenários que eles mesmos anunciam como sendo de ruína e terra arrasada. Haverá, mesmo, um paraíso nos aguardando no final?

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo