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Milei aposta em Trump como ‘seguro eleitoral’ para 2027, diz jornalista argentino

Em entrevista a CartaCapital, Martín Granovsky analisa a aproximação de Flávio Bolsonaro e Javier Milei na convenção de anúncio da candidatura à presidência do PL

Milei aposta em Trump como ‘seguro eleitoral’ para 2027, diz jornalista argentino
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O presidente da Argentina, Javier Milei, e o candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro. Foto: Nelson Almeida/AFP
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A participação de Javier Milei na convenção que lançou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro abriu um novo capítulo de tensão entre Brasil e Argentina. No palanque, o presidente argentino atacou Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, transformando um evento partidário brasileiro em palco para sua política externa ideológica. Em entrevista a CartaCapital, o jornalista argentino Martín Granovsky classificou a atitude como uma interferência sem precedentes. “Nunca vi uma coisa desta”, afirmou.

Para Granovsky, o episódio é especialmente grave porque ultrapassa o terreno das provocações eleitorais. Brasil e Argentina são os principais sócios do Mercosul, e o mercado brasileiro tem importância decisiva para a indústria argentina. Enquanto outros parceiros compram sobretudo produtos primários, o Brasil é um dos poucos destinos relevantes para as manufaturas do país vizinho. Uma crise prolongada, portanto, pode atingir não apenas a diplomacia, mas também o comércio, os investimentos e os empregos dos dois lados da fronteira.

Na avaliação do jornalista, a presença de Milei no evento bolsonarista também deve ser compreendida a partir de seu alinhamento automático com os Estados Unidos e Israel. O presidente argentino aposta na proximidade com Donald Trump como forma de fortalecer seu projeto político e garantir apoio externo para as eleições de 2027. Nesse movimento, a tentativa de favorecer uma candidatura da família Bolsonaro no Brasil faria parte de uma estratégia regional da extrema direita, baseada menos na cooperação entre Estados e mais na convergência entre lideranças ideologicamente alinhadas.

A ofensiva contra Lula, porém, não encontrou unanimidade nem mesmo na Argentina. Granovsky lembra que o presidente brasileiro mantém popularidade entre os argentinos e que não existe no país um sentimento antibrasileiro relevante fora das rivalidades do futebol. A reação negativa também reflete o receio de que Milei coloque em risco uma das relações internacionais mais importantes da Argentina para atender a interesses políticos de curto prazo.

Segundo Granovsky, a popularidade de Milei vem sendo corroída pela perda do poder de compra, pelo fechamento de pequenas e médias empresas e pela dificuldade de uma parcela da população para custear alimentação e transporte. O jornalista define a política econômica do governo como um “austericídio”: uma busca pelo equilíbrio fiscal que reduz recursos para universidades, saúde, transporte e serviços públicos, ao mesmo tempo que amplia a dependência argentina em relação ao Fundo Monetário Internacional.

A entrevista também passou pelo futebol, pelas Malvinas e pela postura pública de Lionel Messi, mas foi na política que Granovsky deixou seu alerta mais contundente. Ao transformar uma visita oficial em ato de campanha contra o governo brasileiro, Milei não apenas aprofundou suas diferenças com Lula. Colocou sob pressão uma parceria histórica, econômica e institucional que nenhum dos dois países pode tratar como simples extensão de suas disputas ideológicas.

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