Com a entrevista de Wajngarten, Bolsonaro joga Pazuello aos leões da CPI

É a retribuição pela subserviência do general

O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Carolina Antunes/PR

O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Carolina Antunes/PR

Política

A entrevista do ex-secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten, à Veja é um factoide a serviço de Jair Bolsonaro. Faz muito tempo, no entanto, que esse tipo de trampa da revista perdeu a capacidade de abalar os alicerces da República. O mais provável é que as palavras de Wajngarten sejam tomadas em Brasília por seu valor de face: uma tentativa rasteira de jogar a responsabilidade pelas quase 400 mil mortes na pandemia exclusivamente nas costas do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde.

Para eximir Bolsonaro, o ex-secretário abusa das maledicências: diz que o militar foi exonerado para não ser preso e que a recusa em negociar a compra das vacinas com a Pfizer foi uma decisão solitária do Ministério. É a senha para a tropa bolsonarista na CPI no Senado. Se for a única saída, o general será jogado aos leões, enquanto o ex-capitão aproveita a distração para sair de cena.

 

Os fatos desmentem Wajngarten, que deixou o governo pela porta dos fundos e em um processo nebuloso (talvez, em algum momento, a CPI das Fake News ou o STF consigam identificar as digitais do ex-secretário na fábrica de mentiras bolsonaristas, cujo ápice aconteceu nas eleições de 2018). O Brasil virou esse pântano insalubre por opção do presidente, que, entre outras, proibiu o então ministro de negociar a aquisição da vacina chinesa no ano passado.

O vídeo a seguir demonstra não só a vergonhosa vassalagem de Pazuello (“um manda, outro obedece”, afirma, a partir de 3 minutos), mas a hierarquia da culpa.

Pazuello, sem dúvida, tem responsabilidade na tragédia da pandemia. Sua obediência cega a Bolsonaro resultou em crimes contínuos, a serem apurados pelo Senado. O general é uma vergonha para as Forças Armadas. Um especialista em logística que desconhece os pontos cardeais. Um militar com físico de jogador de dominó de botequim. Um brasileiro em guerra constante contra a lógica e a língua pátria.

Sob sua gestão, o ministério ignorou a compra das vacinas, incentivou a produção de cloroquina com dinheiro público, abraçou o negacionismo e atrapalhou as ações de estados e municípios. Todas essas trapalhadas não o transformam, porém, no chefe da sabotagem. Seus antecessores no cargo, Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta, estão aí para comprovar: Bolsonaro é a origem, o começo, o meio e o fim. A razão de o Brasil ter se tornado o epicentro da pandemia e uma “ameaça global”.

Arguto observador da realidade, Uallace Uud resume perfeitamente a estratégia da base governista em sua coluna publicada na edição de CartaCapital que chega às bancas neste fim de semana. “Pazuello foi títere de Bolsonaro, foi seu boneco de ventríloquo”, escreve. “Disse e fez o que o chefe lhe mandou dizer e fazer. Ou vocês se esqueceram daquele vídeo patético que o presidente gravou ao lado do general, quando o ex-ministro ainda convalescia da Covid? Foi lá, em outubro do ano passado, no dia em que Bolsonaro mandou cancelar o protocolo de intenções para a compra da Coronavac”.

Entregar a cabeça de Pazuello na bandeja é uma estratégia tacanha (mais uma) de Bolsonaro e não deve encontrar guarida na CPI, composta por senadores experientes. Serve, porém, de lição ao general e aos demais militares que barganharam sua honra. A subserviência costuma ser paga com traição.

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É diretor-executivo de CartaCapital.

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