Cinco anos após a Olimpíada no Rio, o prometido legado não aconteceu

Por toda cidade, permanecem abandonados, funcionando mal, inacabados ou subaproveitados diversos projetos de mobilidade urbana

Escárnio. O teleférico funcionou até um mês depois das Olimpíadas. Agora, Paes tenta descolar a sua imagem do fiasco. (FOTO: Tomaz Silva/ABR e Gustavo Serebrenick/Brazil Photo Press/AFP)

Escárnio. O teleférico funcionou até um mês depois das Olimpíadas. Agora, Paes tenta descolar a sua imagem do fiasco. (FOTO: Tomaz Silva/ABR e Gustavo Serebrenick/Brazil Photo Press/AFP)

Esporte,Política,Sociedade

Apagadas as luzes da Olimpíada, os japoneses se perguntam a que servirão as arenas esportivas construídas ou reformadas para os Jogos mais caros da história. Somados os investimentos públicos e privados, 15 bilhões de dólares foram consumidos em obras. Custo elevado e uma vez mais embalado pelo discurso do “legado olímpico” que a cada quatro anos é repetido pelo Comitê Olímpico Internacional.

Contrária ao megaevento em meio à pandemia, a população japonesa espera que não se repita em Tóquio o que aconteceu no Rio de Janeiro. Na “capital olímpica” brasileira, cinco anos após os Jogos, o que se vê é o abandono das instalações esportivas. E o prometido “legado” na mobilidade urbana, no urbanismo e na economia não passou de ouro de tolo pendurado no pescoço dos cariocas.

 

 

Entre os tantos exemplos do (re)legado olímpico, a história do teleférico do Complexo do Alemão é emblemática pelo descaso com os mais pobres e a falta de compromisso do poder público. Construído no pacote de investimentos para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento, ao custo de 253 milhões de reais, o projeto com 3,5 quilômetros de cabos suspensos e seis estações prometia transformar a vida dos moradores do conjunto de favelas e ainda se tornar, segundo a prefeitura, “mais um ponto turístico da Cidade Maravilhosa”.

Não foi o que ocorreu. Um mês após o encerramento da Rio 2016, o teleférico acabou desligado para manutenção e nunca mais foi reaberto ao público. Em julho, quando os atletas brasileiros estavam em Tóquio, a paralisação completou cinco anos. Um escárnio com a população.

Por todo o Rio permanecem abandonados, funcionando mal, inacabados ou subaproveitados diversos projetos de mobilidade urbana do “legado olímpico”. O fracasso mais sentido pela população é o sistema de ônibus de trânsito rápido BRT. As três linhas inauguradas em 2012 para os eventos esportivos e que prometiam reduzir o tempo do trajeto entre a casa e o trabalho para centenas de milhares de pessoas hoje acumulam problemas técnicos, ilegalidades diversas e superlotação. Uma quarta linha prevista no pacote olímpico até hoje não saiu do papel.

O teleférico do Complexo do Alemão está em manutenção há cinco anos

O BRT é uma falácia, afirma Licínio Rogério, coordenador do Fórum Permanente de Mobilidade Urbana do Rio de Janeiro. “Não dá para dizer que houve mau planejamento porque o BRT nem sequer foi planejado. Uma coisa é fazer errado, outra é nem tentar fazer certo. Foi o que aconteceu.” Ele diz que o sistema foi vendido à população como transporte de alta capacidade, o que é mentira: “É de média capacidade e foi muito mal implantado na Zona Oeste, porque o asfalto utilizado na pista não é programado para suportar o trânsito contínuo dos ônibus”.

Licínio atribui erros de execução do BRT “à pressa eleitoreira” do então (e atual) prefeito Eduardo Paes. “Ele hoje reconhece a existência de problemas no BRT, mas na época foi alertado pessoalmente pela fabricante dos chassis dos ônibus”, diz. “Um representante da Mercedes veio ao Rio quando soube que o prefeito queria colocar asfalto na Transoeste para avisar que iria dar problema. Ele fez mesmo assim e o problema está aí.”

Outro projeto de mobilidade aquém do prometido é o do Veículo Leve sobre Trilhos, conhecido pela sigla VLT, muito criticado por não ser integrado ao sistema e não servir como alternativa para a maior parte dos trabalhadores. “O VLT tem capacidade de transporte de até 300 mil passageiros por dia. Antes da pandemia, ele estava chegando a 120 mil. Não há integração e, na prática, há concorrência com os ônibus, que continuam indo até a Central do Brasil sem necessidade”, diz Licínio.

A prometida revitalização da degradada zona portuária da cidade pelo projeto Porto Maravilha, vendido pela prefeitura como importante passo na consolidação do Rio como polo para a realização de eventos internacionais, até hoje não saiu do papel. “O propósito de transformar aquela área em polo para o capital financeiro e as grandes corporações fracassou”, afirma Sônia Rabello, professora do Instituo Lincoln de Políticas de Solo. “Há dois ou três grandes prédios onde cada nova ocupação é festejada como uma grande transformação.”

Legado tardio. A Prefeitura do Rio quer repassar arenas à iniciativa privada em troca da construção de escolas. (FOTO: Alex Ferro/Comitê RIO 2016)

A especialista lamenta que o Porto Maravilha jamais tenha levado em conta as reais necessidades da população: “O grande fracasso é que não há projeto urbanístico para a zona portuária. Não há um projeto de bairro, apesar de se localizar em área tradicionalmente residencial que engloba os bairros da Gamboa, Santo Cristo e Saúde. Ali era necessário combinar a presença de empresas de serviço a projetos de habitação”.

Para financiar a revitalização da zona portuária, a prefeitura criou títulos que poderiam ser comprados por empresas. Estas ganhariam o direito de construir em áreas do porto maiores que o inicialmente previsto em lei. Pelo planejamento da prefeitura, a venda desses títulos financiaria novos negócios e futuras expansões, mas, seis anos após seu lançamento, o Porto Maravilha continua sem despertar interesse privado. “Atrair empresas fica cada vez mais difícil diante da transformação que o mundo passou durante a pandemia”, diz Rabello. “Haverá cada vez menos prédios com grandes ocupações por conta do avanço do home office.”

De acordo com a prefeitura, entre investimentos públicos e privados foram gastos 39 bilhões de reais nas Olimpíadas do Rio. Desse total, as obras de intervenção urbana consumiram 24,6 bilhões. Além do BRT, do VLT e do Porto Maravilha, outros projetos executados com as verbas olímpicas foram a Linha 4 do metrô, a construção do Centro de Operações Rio e a duplicação do Elevado­ do Joá, entre outros.

Nas instalações esportivas propriamente ditas, o prometido legado ficou longe, muito longe do pódio. Construído na Barra da Tijuca para abrigar nove arenas e concentrar a maior parte das competições, o Parque Olímpico transformou-se ao longo dos anos em um cemitério de elefantes brancos. Desde a campanha eleitoral, Eduardo Paes tenta descolar sua própria imagem do olímpico fiasco. Não é tarefa fácil, dado o desinteresse por parte dos atores privados no espólio esportivo da Rio 2016.

Paes continua tentando. Na última semana de julho, a prefeitura anunciou um ambicioso projeto que mistura a revitalização de algumas arenas com o desmonte e reaproveitamento do material de outras. A ideia é fazer quatro leilões para atrair a iniciativa privada a investir pelo menos 370 milhões de reais nos próximos 15 anos. Estão fechados quatro blocos para a oferta pública. O primeiro, com lance mínimo de 98 milhões de reais, engloba as Arenas 1, onde foi disputado o basquete, 2 (judô e luta livre e greco-romana) e 3 (esgrima e tae kwon do). O grupo vencedor poderá utilizar as Arenas 1 e 2 para shows e outros eventos e, como contrapartida, deverá construir na Arena 3 – a única hoje aberta à população para atividades esportivas – uma escola para 850 alunos.

O Parque Olímpico transformou-se em um cemitério de elefantes brancos

Outro processo licitatório, com lance mínimo de 78,8 milhões de reais, prevê o desmonte do Centro Aquático, onde foi disputada a natação olímpica, e da Arena do Futuro (handebol). O vencedor do leilão se comprometerá a construir quatro escolas municipais, com capacidade para 245 alunos cada uma, nos bairros vizinhos de Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Rio das Pedras. É um legado tardio. Com conclusão prevista para 2023, as escolas serão inauguradas sete anos após o encerramento dos Jogos. Fora da licitação, a Pista de Atletismo construída para a Rio 2016 também será desmontada e seus equipamentos doados ao Comitê Olímpico Brasileiro.

Também será de 98 milhões de reais o lance inicial da concessão do Centro de Tênis e do complexo que inclui o Parque Público e o Live Site, duas áreas de convivência criadas para os Jogos. Apenas duas arenas não participarão da licitação: o Velódromo, que passará a abrigar as atividades que hoje acontecem na Arena 3, e a Arena Rio, a maior de todas, que é administrada pela iniciativa privada como casa de espetáculos sob o nome de Jeunesse Arena.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1169 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE AGOSTO DE 2021.
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Repórter colaborador de CartaCapital no Rio de Janeiro

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