Política

‘Casos dramáticos de violência’: denúncias no Ligue 180 explodem em 2026

O serviço bateu recorde de atendimento a mulheres e crianças no primeiro semestre deste ano. Foram mais de 4,8 mil ligações por dia

‘Casos dramáticos de violência’: denúncias no Ligue 180 explodem em 2026
‘Casos dramáticos de violência’: denúncias no Ligue 180 explodem em 2026
Só em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no Brasil (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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O Ligue 180 ultrapassou a marca de 1 milhão de atendimentos entre 1º de janeiro e 31 de julho deste ano, o equivalente a 95% de todos os registros de 2025. O número recebe mais de 4,8 mil ligações por dia, em sua maioria relacionadas a pedidos de informação sobre como identificar violência ou proceder diante de um caso em desenvolvimento.

O serviço foi criado em 2005, no primeiro mandato do presidente Lula (PT), para enfrentar a violência contra as mulheres. A ligação é gratuita e funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

A secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres do Ministério das Mulheres, Estela Bezerra, atribui o aumento da procura a uma série de fatores, entre eles a eclosão de “casos dramáticos” de violência contra mulheres e crianças, novas formas de violência — principalmente no âmbito digital — e um amplo debate público sobre o tema.

A pasta firmou um Acordo de Cooperação Técnica com as secretarias estaduais de Segurança Pública e da Mulher e com os Ministérios Públicos. Desta forma, é possível acompanhar a tramitação de todas as denúncias que chegam ao 180. “Há casos em que uma mulher procura ajuda e relata ter buscado a delegacia do município, mas não ter conseguido atendimento. Agora, temos estrutura para acompanhar esses episódios.”

É possível acionar o 180, por exemplo, para:

  • pedir orientação sobre leis, direitos e serviços de atendimento, como a Casa da Mulher Brasileira, o Centro de Referência ou a Delegacia da Mulher;
  • solicitar informações sobre a localização dos serviços especializados da rede de atendimento;
  • registrar e encaminhar denúncias aos órgãos competentes e formalizar reclamações ou elogios sobre os atendimentos prestados. 

Para Bezerra, a credibilidade do serviço também tem elevado a procura pelo 180. “Muitas vezes são os filhos já adolescentes que ligam para pedir informação sobre como agir ou para aprender a identificar os tipos de violência”, explica. “Também buscam orientação sobre como proceder caso a violência seja identificada.”

São comuns, também, os casos de pessoas cujo primeiro contato com o 180 foi apenas para demandar informações, mas que retornam à central posteriormente, diante do aumento da violência no ambiente familiar. 

Bezerra garante que todas as solicitações ao 180 que justificam intervenção institucional chegam diretamente aos órgãos locais responsáveis. Além disso, por meio do Acordo de Cooperação Técnica é possível disponibilizar em cada território uma pessoa específica responsável por acolher, responder e seguir as demandas de perto.

O sistema permite ainda encaminhar a denúncia à Secretaria de Segurança Pública local mesmo em municípios sem cobertura de rede de acolhimento. Graças a esse monitoramento conjunto, o serviço alcançou um índice de 81,11% de resposta efetiva às situações apresentadas.

Estela Bezerra alerta, no entanto, que em casos de urgência e emergência é necessário acionar o 190, número da Polícia Militar.

Em fevereiro, os chefes dos Três Poderes lançaram o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, iniciativa que ampliou a visibilidade sobre a violência às mulheres. O Ministério das Mulheres também promove campanhas de divulgação do Ligue 180 em datas como o Carnaval e o Agosto Lilás.

De acordo com a secretária, é fundamental nomear as formas de violência. O vicaricídio, por exemplo, é um termo recente no vocabulário popular: ele se caracteriza quando o genitor assassina os filhos para atingir a companheira. “O fato infelizmente é muito corriqueiro, mas as pessoas ainda não o identificam. É o caso também da misoginia, que a sociedade está aprendendo o que significa”. 

Para uma mulher se desvencilhar da violência, acrescenta Bezerra, precisa de uma rede de proteção. Por isso as políticas públicas têm de ser interseccionais, uma vez que a vítima necessita de capacitação profissional, de encaminhamento para um novo trabalho e de um lugar seguro para morar com os filhos. “Muitas pessoas criticam uma mulher em situação de violência ao questionar por que ela simplesmente não se separa. Não é uma situação como um assalto, mas um episódio que envolve uma pessoa em quem a vítima confia, com quem tem uma relação afetiva. São muitas camadas”. 

Tao importante quanto acolher as mulheres, finaliza Estela Bezerra, é impedir que o País naturalize a violência de gênero. “Uma sociedade que executa as mulheres não tem sustentabilidade.”

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