Cancelamento do Censo 2021 aprofunda ‘vazio estatístico’ nos municípios

Entre os problemas causados pelo atraso está a distribuição de recursos públicos, que é feita de acordo com dados apurados pelo IBGE

Cancelamento do Censo 2021 aprofunda ‘vazio estatístico’ nos municípios

Política

O cancelamento do Censo Demográfico de 2021, anunciado nesta sexta-feira 23 pelo secretário da Fazenda Waldery Rodrigues, impossibilitará o Brasil de aplicar políticas públicas efetivas, principalmente no pós-pandemia, por falta  informações de qualidade disponíveis.

 

 

A última pesquisa do instituto aconteceu em 2010. Naquele momento, lembra o analista socioeconômico do IBGE Jefferson Mariano, o Brasil vivia outra realidade econômica, social e política. “Esse adiamento prejudica a qualidade das informações disponíveis, pois acontecem mudanças profundas a cada 10 anos”.

Os mais afetados, ressalta o pesquisador, são os municípios — onde de fato se encontram os problemas do Brasil. “A questão das projeções populacionais, estimativas, mas principalmente o vazio estatístico nos municípios, que vão realizando projeções e políticas com dados de 2010.”

Entre os problemas causados pelo atraso está a distribuição de recursos públicos, já que o volume transferido nas cotas dos fundos de participação estaduais e municipais é feita de acordo com o número de habitantes apurado pelo IBGE. Esses dados ajudam a definir, por exemplo, os coeficientes de repasse do Fundo de Participação dos Municípios.

“É o único momento que obtemos um conjunto de informações comparáveis de municípios do Brasil. As outras pesquisas não chegam a nível de município. No censo temos o detalhamento da população, inclusive por bairro”, completa.

Outro ponto lembrando pelo analista são os empregos gerados pelo censo. “São mais de 200 mil vagas que não serão oferecidos ao longo desse ano e que para algumas localidades isso seria muito importante”.

 

Orçamento debilitado

 

O instituto fez um pedido inicial de 3,4 bilhões de reais para realizar o Censo Demográfico 2021 — pesquisa que deveria ter sido feita em 2020, mas foi adiada devido à pandemia. Por pressão do governo federal, o valor original foi reduzido pelo IBGE para cerca de 2 bilhões.

Em uma adaptação ao corte de verba, a diretoria do IBGE reduziu o número de perguntas do questionário da amostra e fez modificações metodológicas. O montante aprovado pelo Congresso, no entanto, foi ainda menor, de apenas 71 milhões, menos de 5% do combinado. Pouco depois, no início de abril, a presidente do instituto Susana Cordeiro Guerra pediu exoneração do cargo.

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Repórter do site de CartaCapital

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