Política
Campanha lulista vai expor ‘biografia não-autorizada’ de Flávio Bolsonaro
A propaganda eleitoral de rádio e tevê promete esquentar a corrida presidencial
A propaganda eleitoral de rádio e tevê na disputa pela Presidência começa neste sábado, 29 de agosto. Até aqui a campanha tem sido morna, embora no submundo das redes sociais esteja mais quente. Lula e Flávio Bolsonaro, os líderes nas pesquisas, chegam a essa fase do pleito com rejeições quase iguais, daí que os ataques mútuos devem se intensificar a partir de agora.
No comitê lulista, o plano desenhado para a propaganda eleitoral mescla a apresentação de propostas com a exibição de uma espécie de “biografia não-autorizada” do adversário. No primeiro caso, o programa de estreia deve apostar em duas bandeiras: a redução da jornada de trabalho, com o fim da escala 6 por 1, e a ampliação dos poderes federais no combate ao crime, via PEC da Segurança Pública.
As duas já passaram pelos deputados e dependem da aprovação dos senadores. A retomada do diálogo entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), depois de três meses de “guerra fria”, facilitou o avanço das propostas. Há chances de votação delas nos próximos dias, a última semana de trabalho parlamentar em Brasília antes da eleição de outubro.
Segundo Éden Valadares, secretário de Comunicação do PT e integrante do QG reeleitoral de Lula, a propaganda de rádio e tevê perdeu o monopólio de pautar o que o eleitorado vê e debate em campanhas, agora há também as redes sociais. Mas ela ainda tem o peso mais relevante. “As pesquisas mostram que é quando começa o horário eleitoral que os olhares da sociedade como um todo, do eleitor e da eleitora comuns, se voltam para a disputa”, afirma.
CURRÍCULO OU FICHA? 🤔
O início do programa de Rádio e TV é o momento em que as atenções da sociedade como um todo começam a se virar para as eleições. É natural que o eleitor, nesse momento de largada, busque reconhecer ou conhecer os candidatos.
Neste sentido, avaliamos ser… pic.twitter.com/Vo57DstCoO
— Éden Valadares (@edenvaladares) August 28, 2026
Essa propaganda não se restringe àquele bloco de alguns minutos com todos os candidatos, transmitido no rádio pela manhã e na hora do almoço e na tevê na hora do almoço e à noite. Há ainda inserções ao longo do dia nas emissoras, como se fossem comerciais de um produto. Tudo somado, Lula terá quase duas horas a mais de exposição do Flávio, graças à coligação partidária do PT e à falta de aliados do PL.
Segundo um outro membro do comitê da reeleição, a propaganda eleitoral presidencial terá três eixos: futuro do Brasil (após acabar com a fome e a pobreza, ele será retratado como portador de projeto de desenvolvimento de País), defesa da soberania nacional (o petista seria uma barreira ao imperialismo atual dos EUA) e comparação dos governos e das biografias de Lula e Jair/Flávio Bolsonaro.
É nesse último eixo que a propaganda tem tudo para esquentar a campanha. Vem aí a “lembrança” do envolvimento de Flávio no passado com milicianos, caso de Adriano da Nóbrega, o chefe do Escritório do Crime no Rio de Janeiro, morto em um cerco policial na Bahia em 2020. Flávio condecorou-o quando era deputado estadual no Rio, por exemplo.
Relação umbilical com milicianos
Segundo o Ministério Público fluminense, Adriano e família ajudaram o então deputado estadual a embolsar parte do salário de funcionários na Assembleia Legislativa, crime de peculato conhecido no noticiário por um nome mais folclórico, “rachadinhas”. Estas serão resgatadas pela campanha lulista como exemplo de evolução patrimonial incompatível com o salário na vida pública. Idem a compra de uma mansão de 6 milhões de reais em Brasília com financiamento de um banco público e quitada muitos anos do prazo de financiamento.
O principal flanco de ataque ao senador será, porém, Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, e o milionário patrocínio ao filme pelo banqueiro fora da lei Daniel Vorcaro, dono do finado banco Master. Em maio, o Intercept Brasil revelou um áudio de WhatsApp enviado por Flávio a Vorcaro, no qual o senador cobrava do banqueiro o dinheiro prometido ao filme.
A rejeição ao senador subiu após episódio e passou a de Lula, conforme pesquisas do Datafolha, embora tudo estivesse dentro da margem de erro, de dois pontos para cima ou para baixo. Em abril, dava 48% a 46% para o petista. Em maio, 47% a 43%. Em junho, veio a inversão: 48% a 46% para Flávio, números repetidos em julho. Em agosto, o empate é quase numérico: 46% a 45% para o senador.
O encurtamento da distância entre as rejeições é obra de uma mudança no noticiário. Dark Horse saiu da berlinda e no lugar entrou Fábio Luis da Silva, primogênito do presidente. Uma mudança para a qual o juiz André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e uma ala da Polícia Federal contribuíram.
Mendonça é o relator dos inquéritos sobre o Master e sobre o dinheiro pedido por Flávio a Vorcaro para. Exerce a mesma função no caso INSS, do qual derivaram investigações policiais sobre a relação de Fábio Luís com a lobista Roberta Luchsinger. Dark Horse parou de gerar notícias, seja na forma de decisões judiciais, seja em revelações de descobertas policiais. Com “Lulinha” deu-se o contrário.
A retranca de Mendonça no caso Dark Horse
Sobre o “caso Dark Horse”, um ministro de Lula anota: o bolsonarismo conseguiu “travar” todas as pontas do caso. Uma delas é Mendonça, juiz indicado ao Supremo pelo pai de Flávio. Não há notícias de decisões do juiz sobre o pedido de 61 milhões de reais pelo senador a Vorcaro nem sobre o que foi feito da grana repassada pelo banqueiro a um fundo nos EUA encarregado de pagar os gastos do filme. As duas situações são objeto de inquéritos distintos: o pedido de verba e o destino dela nos EUA.
A outra “ponta” travada é justamente o Tio Sam. Para rastrear o caminho da recursos por lá, é preciso que as autoridades norte-americanas colaborem. Mas como o governo Trump, mais especificamente o secretário de Estado, Marco Rubio, joga por Flávio contra Lula, essa colaboração tem poucas chances até aqui de ser aceita ou de resultar em algo relevante até a eleição.
A “trava” de Mendonça foi furada por outro juiz do Supremo. Flavio Dino acaba de ordenar à Polícia Civil de São Paulo que entregue à PF tudo o que descobriu sobre uma ONG investigada por receber verba da gestão bolsonarista da prefeitura paulistana. O Instituto Conhecer Brasil foi pago sem ter prestado na íntegra o serviço pelo qual havia sido contratado, que era instalar milhares de pontos de wi-fi na cidade.
A coordenadora da ONG Instituto Conhecer Brasil, Karina Ferreira da Gama, é dona da produtora do filme Dark Horse, a GoUP Entertainment. O instituto dela recebeu dinheiro de emenda parlamentar separado no orçamento federal em Brasília pelo deputado e ex-ator Mário Frias (PL-SP). Frias é o roteirista do filme sobre Bolsonaro, em cujo governo foi secretário nacional de Cultura.
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